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De mecânico a artesão nos tempos livres

De mecânico a artesão nos tempos livres

José Avelar é uma referência da freguesia da Calhandriz, Vila Franca de Xira

José Machado Avelar nasceu na freguesia rural da Calhandriz, concelho de Vila Franca de Xira, e começou por ser mecânico nas Oficinas Gerais de Material Aeronáutico em Alverca. Um problema de saúde arrastou-o para a reforma mas não deixou de dar ao dedo, desta vez como artesão. O seu trabalho é uma referência na freguesia.Filipe Matias

Edição de 07.07.2010 | Identidade Profissional
A vida de trabalho começou aos 16 anos para José Machado Avelar, natural da freguesia rural da Calhandriz, concelho de Vila Franca de Xira. Durante a vida exerceu a profissão de mecânico sempre no mesmo local: as Oficinas Gerais de Material Aeronáutico (OGMA) de Alverca. Um problema de saúde atirou-o precocemente para a reforma e é hoje um dos artesãos mais conhecidos da aldeia, com várias exposições realizadas por todo o concelho.Nascido em 1951, José Avelar começou por estudar na cidade de Vila Franca de Xira, numa altura em que os transportes públicos não abundavam. “Especialmente aqui na Calhandriz não havia nada. Tinha de ir todos os dias a pé para Alverca para depois apanhar o comboio para Vila Franca. Eram tempos duros e difíceis. Às vezes quando o horário do meu pai coincidia com o meu ele dava-me boleia, mas muitas vezes tinha de ir a pé, fizesse sol ou chuva. Nesses dias chegava à escola completamente ensopado”, recorda a O MIRANTE.Frequentou a escola industrial de Vila Franca mas, confessa, não era bom aluno. “Nunca fui bom a português, trocava tudo e não conseguia escrever. Mas a matemática era muito bom”, esclarece. O seu pai, vendo que José não conseguia progredir nos estudos, decidiu dar outro rumo ao filho, inscrevendo-o no curso de aprendizes das OGMA, onde já trabalhava como chefe de secção.“Os filhos dos operários tinham mais possibilidades de entrar na empresa e o director do meu pai, como o conhecia bem, decidiu dar-me uma chance. Entrei para o curso em 1966”, conta-nos. José, então com 16 anos, começou a frequentar as aulas e a cumprir um rígido horário, com um programa que incluía aulas teóricas e práticas. Começou na serralharia, onde a vida profissional era dura e os supervisores exigentes. “Davam-nos umas peças desenhadas em papel e nós tínhamos de as construir. Muitas das pessoas que tinham entrado naquele curso fizeram-no para fugir à Guerra do Ultramar, por isso as OGMA eram quase um oásis para nós, e todos sentíamos isso, por isso toda a gente se dava bem”, confessa. Com o passar do tempo as capacidades de José Avelar foram evoluindo e o serralheiro acabou por subir de posto. “Mais tarde pulei para uma secção mais limpa, de empregados de bata branca, onde mexia em peças pequenas. Gosto de trabalhos pequenos que moam a cabeça e nos obriguem a pensar. Tinha as suas coisas complicadas, como bombas de gasolina, sistemas hidráulicos e bombas de vácuo, que eram por vezes difíceis de mexer e reparar. Mas era muito aliciante. As minhas últimas peças, que produzi nas OGMA, foram guinchos para os helicópteros Alouette 3 e Alouette SA”, conta. Foi nessa altura que o nosso interlocutor sofreu vários problemas de saúde que o obrigaram a afastar-se do emprego. Reformou-se antecipadamente e, confrontado com as quatro paredes da casa, começou a ocupar o tempo com uma nova habilidade: o artesanato.Começou a pintar peças de gesso em 2002 e algumas dessas peças acabaram por ficar expostas no café da terra. Inspirado e motivado, José Avelar dedicou-se de alma e coração ao artesanato. De tal forma que hoje tem uma divisão da sua casa cheia de peças. “Comecei por carolice e depois as pessoas começaram a querer comprar algumas das coisas que fiz. Eu continuei a fazer e a vender e em 2004 comecei a apanhar bolotas, pinhas, caracóis e conchas do mar. Tenho milhares de peças e nenhuma é igual”, garante. Já fez exposições em Trancoso e Alverca (ambas no concelho de Vila Franca de Xira) e garante que vai continuar a produzir artesanato enquanto a saúde o permitir. José Avelar garante que não se arrepende da vida profissional que escolheu e diz estar feliz com o que conseguiu alcançar. “Não gostava de ter tido outras profissões, a que tive deu-me muito prazer”, garante. O nosso interlocutor é também um benfiquista assumido (muitas das suas peças estão relacionadas com o clube) e garante que sofre pela camisola da Luz.
De mecânico a artesão nos tempos livres

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