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“Nunca fiz da medicina um meio para ser rico”

“Nunca fiz da medicina um meio para ser rico”

José Marouço, o médico e director clínico do Hospital de Santarém que não é “politicamente correcto”

O médico José Marouço, que dizem alguns nunca foi visto de fato e gravata, é director clínico do Hospital de Santarém, depois de já ter passado por vários cargos de chefia, como director de serviços e das urgências e vogal da administração. Foi convidado mas nunca aceitou ser presidente do conselho de administração, por não gostar de cerimónias e de se vestir de forma formal e também por sentir que não reúne os requisitos em termos de conhecimentos de gestão. Nesta entrevista, o médico que nasceu no Alentejo mas que se sente um ribatejano, fala de saúde, de política, de Almeirim, cidade onde reside e é presidente da assembleia municipal, e da sua vida pessoal.

Edição de 05.01.2011 | Entrevista
Já ocupou vários cargos no Hospital de Santarém mas ainda não chegou a presidente do conselho de administração.No mandato anterior fui vogal executivo da administração. Nunca fui presidente mas provavelmente por várias razões. Primeiro porque não teria os requisitos necessários para o cargo e depois porque fui sempre um homem mais de executar trabalho do que de representar. Nesse lugar tem que se ter funções de representação em muitas circunstâncias para as quais estou pouco talhado. São necessários requisitos assim tão especiais?De quando em quando tem que se estar com membros do Governo, com membros dos conselhos de administração de outros hospitais, é preciso nessas alturas não só ter cuidados com a atitude, mas também com a forma. Ter cuidados com a forma como nos vestimos e apresentamos. É preciso ter à vontade. É preciso darmo-nos bem com pessoas com as quais não temos muitas afinidades. Não é uma pessoa politicamente correcta? Não sou seguramente politicamente correcto. O facto de ser militante de um partido, o PS, não quer dizer que me obrigue a violentar os meus princípios. Considero-me um homem de trabalho, de acção, de campo.Mas já foi convidado e não aceitou?Sim. Não aceitei porque, pela minha própria formação profissional, tenho algumas desvantagens. Um presidente da administração precisa de ter vastos conhecimentos económicos e financeiros que eu não tenho. Por que não tem um consultório privado como têm muitos dos seus colegas?Tive um consultório em determinada fase da minha vida. Era mais novo, tinha uma maior disponibilidade física. A minha vida pessoal começou do nada. Tive que trabalhar arduamente para conseguir realizar algumas aspirações. A partir do momento que comecei a ter as condições económicas básicas optei por me dedicar de alma e coração à causa pública. Até porque sempre tive pouco jeito para o exercício da medicina privada. Nunca fiz disso um meio para ser rico. E como é que vê os outros médicos a exercerem medicina no público e no privado em simultâneo?Não acho que seja um crime exercer no público e no privado. Sobretudo se estiverem preenchidas as condições que considero essenciais para um bom exercício das duas e para que nos possamos apresentar de cara lavada em todo o lado. Ou seja, observar os horários no hospital público e ter o mesmo tipo de tratamento em relação aos doentes. É preciso haver uma separação nítida das actividades. E essa separação acontece?Nem sempre é fácil, nem sempre é verdadeira. Por muito bem intencionado que o médico seja introduz alguma distorção no Serviço Nacional de Saúde e na prática nos dois campos. Por muito que nos esforcemos, o atendimento do doente no hospital público pelo médico que o consultou no privado acaba por ser sempre um pouco preferencial.Isso choca-o ou convive com isso naturalmente?Uma das grandes aspirações da minha vida em relação ao Serviço Nacional de Saúde foi contribuir e conseguir que todos tivéssemos o tratamento adequado e no momento certo, independentemente da situação clínica e da condição social. Tudo o que possa perturbar esta ideia não é muito bem compreendido por mim.As pessoas recorrem à medicina privada porque não conseguem ver satisfeitas as suas expectativas no sistema público? Todos gostaríamos de ter o serviço de urgência à nossa porta. Isso é impossível. Como é impossível atender em cada dia todos os que afluem às urgências com a brevidade desejável. Mas nem todas as valências de um hospital estão disponíveis 24 horas por dia durante todo o ano. Nalgumas especialidades temos dificuldades e temos grandes dificuldades em responder com a brevidade que nos é exigida legalmente ou que a gravidade clínica nos exigiria. Como a cirurgia vascular, a urologia, a dermatologia, onde o número de profissionais existente não permite marcar consultas com a brevidade que as pessoas necessitam. Essa será a razão fundamental que leva as pessoas a recorrer ao privado. As urgências hospitalares são o último recurso de um sistema de saúde com muitas limitações…As urgências ainda hoje atendem 30 a 40 por cento de utentes que a elas não devia recorrer porque as pessoas não têm resposta nos cuidados primários (centros de saúde). Também é a área onde se faz sentir mais a falta de médicos. Mas também por insuficiência das consultas externas dos hospitais. As pessoas não têm outro local para resolver os problemas clínicos. Diz-se que há uma justiça para ricos e uma justiça para pobres. Isso também se pode aplicar à saúde?Em relação à medicina de urgência posso garantir que o serviço é idêntico para todos. Nunca tive conhecimento que deliberadamente um serviço de urgência deixasse de tratar alguém porque é pobre, desconhecido ou socialmente pouco avalizado. Em relação à medicina programada posso admitir que possam existir algumas distorções. Apesar de tudo, a diferença de atendimento entre pobres e ricos na saúde está muito menos evidenciada do que na justiça. Considera justo que um doente pobre pague o mesmo de taxas moderadoras que um com mais recursos financeiros?Nada cai do céu aos trambolhões e nada se faz sem dinheiro. A taxa moderadora não é o pagamento de um serviço, é uma forma de regularizar a utilização de um serviço. Com essa finalidade, admito que possa ser idêntica para todos os utilizadores, até porque existem outras formas de diferenciação, como os impostos que pagamos, o contributo que damos para o Serviço Nacional de Saúde. O médico que não mete cunhas José Marouço nasceu em Arronches, distrito de Portalegre, a 10 de Novembro de 1950. “Sou um alentejano já com uma enxertia de ribatejano que já deu filhos ribatejanos. Apesar de as minhas raízes estarem no Alentejo sinto-me ribatejano de corpo inteiro”. Homem simples, que se veste de forma casual, foi para medicina com a perspectiva de ajudar os outros, sensibilizado com o que lhe aconteceu em criança. Aos 17 meses teve poliomielite que lhe deixou sequelas físicas e lhe limitou a mobilidade e isso foi uma das razões fundamentais para enveredar por essa profissão. Quando foi estudar medicina para Lisboa nunca tinha visto o mar nem nunca tinha telefonado. “Foi uma fase muito interessante da minha vida”, recorda. Veio para Santarém em 1977 depois de terminar o curso. Para o antigo hospital. Foi viver para Almeirim em 1979 e casou um ano depois com a médica Maria José, que conheceu no hospital e que foi directora do centro de saúde da cidade. Quando chegou à capital de distrito o que mais o impressionou foram as condições “precárias” do hospital na altura. Havia uma enfermaria com camas ao lado umas das outras sem o mínimo de privacidade, com uma casa de banho com um lavatório e um buraco no chão para fazer as necessidades. Em 1977 ainda se vivia a euforia da revolução do 25 de Abril. Ficou com a ideia que as pessoas desta região não eram o espelho do país, porque não viviam tão mal como noutras zonas. É um homem de esquerda por formação, “que aspira a que todos consigam viver com dignidade”. Chegou a ter dúvidas sobre a militância partidária. Chegou a pensar ir para o PCP, mas foi o PS o seu caminho. Filiou-se porque queria contribuir para a vida política e porque “não há que ter medo de participar activamente nos partidos”. Está a pensar reformar-se em breve, porque está cansado. Mas também porque já teve mais a ilusão de que era capaz de mudar o mundo. “O trabalho que até há bem pouco tempo era um prazer começa a ser em alguns momentos, não digo um martírio, mas uma coisa menos agradável”, desabafa José Marouço. Quando deixar de exercer medicina e o cargo de director clínico do Hospital Distrital de Santarém, vai tentar concretizar os sonhos adiados sucessivamente. Nos últimos dois anos teve dois problemas de saúde com alguma gravidade e isso despertou-o para a necessidade de pôr um travão ao ritmo a que tem vivido. Na reforma, actividades não lhe vão faltar. Quer aprender música, sobretudo aprender a tocar viola. É columbófilo há 20 anos e nunca foi campeão com os seus pombos. Por isso quer agora dedicar-se a treinar as aves. Tem sido um ajuntador de selos e quer concretizar o sonho de ser coleccionador a sério. Está a considerar fazer uma licenciatura para melhorar os conhecimentos na área da matemática. Quando está doente procura os colegas do sector público. Mas já teve que recorrer ao privado porque não havia a especialidade de neurocirurgia no hospital onde trabalha. Tinha duas hérnias na coluna cervical e confessa que no público, e sem cunha, estaria seis a nove meses, na melhor das hipóteses, à espera de ser operado. Aproveita para dizer que nunca meteu cunhas para benefício próprio. Não gosta de esbanjar dinheiro, mas também garante que não é forreta. “Não corro atrás do dinheiro, nem a minha vida é determinada em função disso”.Regressou à política porque sentiu que a situação tinha ido longe demaisPorque é que esteve tanto tempo afastado da concelhia do PS de Almeirim e da política activa?Nunca deixei de ser militante do partido. E tive sempre o cuidado de estar presente quando havia grandes decisões para tomar. Mas durante muitos anos não tive disponibilidade para contribuir para as soluções. Era só uma questão de disponibilidade?Tive uma primeira experiência não muito bem sucedida. Tinha até resolvido não voltar à vida política activa. No entanto achei que aquando das últimas eleições autárquicas a situação tinha ido demasiado longe e que era hora de novamente encontrar disponibilidade para ajudar o partido e a cidade. Está a falar das guerras políticas à volta do presidente da câmara. Tinha motivos mais que suficientes, com um pequeno prejuízo da minha vida pessoal, para voltar a dar o meu contributo. Ainda não disse o que o fez estar afastado.Fundamentalmente foram questões pessoais. Entre militantes?SimE como é que via os momentos de grande tensão no executivo municipal e na assembleia municipal, com o debate político a resvalar muitas vezes para ataques pessoais?Foi com alguma mágoa e preocupação que fui assistindo às situações. Não me pareceu em determinada altura que as coisas fossem dignificantes para alguma das partes. Houve uma razão fundamental, crucial, que foi ter a sensação que estavam a enterrar politicamente o presidente Sousa Gomes, com ele ainda bem vivo. A sua integração nas listas do PS e a sua eleição para presidente da assembleia municipal foi importante para acabar com as confusões?Tenho a noção que posso ter contribuído alguma coisa para que as relações políticas, não só internamente, mas com os outros grupos partidários, se possam fazer de uma maneira mais saudável, mais democrata, mais clara. No entanto também tenho a noção de que alguns de nós andamos um pouco nisto a pensar mais exclusivamente nos interesses partidários que nos interesses do órgão a que pertencemos. Votava contra uma proposta do seu partido?Há questões em que não violo a minha consciência. Há outras em que acabo por me lembrar sempre do antigo líder do PCP, Álvaro Cunhal, que teve que fechar os olhos para não ver onde estava a pôr a cruz. A violação da consciência depende das circunstâncias, do momento. Há princípios fundamentais em relação aos quais nunca violentarei a minha consciência. A lealdade é um deles. Outro é que nunca serei capaz de tentar obter benefícios pessoais com o exercício da política. Volta a ser candidato em próximas eleições?Quando decidi integrar as listas à assembleia municipal foi por um acto de solidariedade com o Dr. Sousa Gomes e com o PS, que atravessava um momento de algumas dificuldades. Muito provavelmente não serei candidato nas próximas eleições. Mas nunca devemos dizer nunca. Pedro Ribeiro dá algumas garantias para suceder a Sousa GomesQuem será o sucessor de Sousa Gomes?O PS tem tido alguma dificuldade, até porque não tinha tido necessidade até agora disso, de arranjar um sucessor para o Dr. Sousa Gomes. E descurou um pouco essa situação. No entanto acho que existe alguém que tem feito um investimento importante na gestão autárquica e provavelmente constituirá uma péssima medida de gestão não aproveitar esse activo. De quem está a falar?Do vice-presidente Pedro Ribeiro. Já demonstrou capacidades e aptidões para poder vir a ser o candidato, ou um dos candidatos, à sucessão do Dr. Sousa Gomes. Esta situação não está, que saiba, por agora equacionada a nível do partido. E esta é uma opinião pessoal porque acho que Pedro Ribeiro me dá algumas garantias. Porque respeita o ideal socialista e porque é porventura a pessoa melhor colocada por ser a que mais experiência tem na gestão camarária.O PS em Almeirim sempre esteve muito concentrado na figura de Sousa Gomes…Houve também, por culpa da estrutura do partido, um adormecimento à sombra da bananeira. Havia a certeza que o presidente se recandidatava e isso levava a que não se pensasse em alternativas. Houve também algumas pessoas com responsabilidade no partido a fomentar isso mesmo, porque porventura poderiam ter pensado em alguém estranho ao partido e ninguém de dentro. Há pessoas que só se sentem bem quando realizam aquilo que pensam e da forma que pensam.Serviço de Urgência Básico de Coruche não é essencial neste momentoSe existissem três hospitais a sul do distrito como existem a norte, o que seria diferente?Neste momento temos que pensar na sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde. Se houvesse três hospitais nesta zona teríamos piores condições de sustentabilidade do serviço a nível distrital. E quase que seguramente também pior assistência. Ter muitos serviços ou muitos hospitais não significa que as pessoas sejam melhor atendidas. Foi um erro de estratégia?O lobby autárquico e regional tem sido muito poderoso e a existência de três hospitais no norte do distrito é fruto disso. Às vezes é muito difícil não cometer erros. E sob pressão é mais fácil cometer erros. E a sul é mesmo necessário um segundo hospital, como já foi reivindicado?Neste momento não é crível nem necessário um segundo hospital. O de Santarém é suficiente. Sobretudo porque temos vias rodoviárias que permitem a chegada ao hospital em tempo útil. E o Hospital de Santarém tem feito melhoramentos que o adequarão para continuar vivo, útil e capaz nos próximos 20 a 25 anos. Quando se falou que era importante mais um hospital para esta região já não concordava?Concordava com a existência de um serviço de urgência básico na zona do Biscainho (Coruche). Isto antes da Auto-Estrada 13 estar feita.Entretanto foi criada uma unidade básica em Coruche que não tem funcionado por falta de profissionais. Será que faz sentido avançar com este projecto? Não me parece que seja crucial para a saúde da população a sua abertura. A unidade de Coruche acabou por pagar em função da época em que veio ao mundo. Não há recursos humanos médicos e também não será o momento financeiro ideal para a sua abertura. Não é portanto um equipamento de grande necessidade?Estruturas de proximidade foram coisas que andámos a distribuir durante anos, desde quase o 25 de Abril de 1974. Agora, e dado que temos que repensar o Serviço Nacional de Saúde tendo em conta a sustentabilidade e a racionalidade de recursos humanos, não é no momento uma estrutura que seja essencial para o distrito.
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