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O químico das palavras

O químico das palavras

Carlos Frias de Carvalho, poeta natural de Seiça (Ourém) radicado em Lisboa, fala a O MIRANTE da sua “vida complicada” e da relação com a terra natal

Carlos Frias de Carvalho é o poeta dos sete elementos, o químico das palavras, que procura na simplicidade e na síntese dos seus poemas a essência do Cosmos. Nasceu em Seiça, Ourém, e refere ter sido marcado pela sua ribeira, pelo seu apeadeiro, pelo comboio, pelos pinhais e pela espiritualidade que marca toda a região. Seiça está um pouco por toda a sua obra, ainda que afirme preferir amar a sua terra à distância, a partir de Lisboa onde tem uma galeria de arte contemporânea. Ourém não o atrai e refere que o concelho vive amarrado ao conservadorismo e a uma pobreza cultural sem chama. Afirma-se ribatejano e é no Ribatejo que identifica a sua terra natal.

Edição de 26.01.2011 | Entrevista
Entra sem pressas mas apressado, pois o dia é cheio e nem sempre o tempo chega para tudo. De estatura média e olhar tranquilo, mostra entusiasmado os preparativos para a próxima exposição da sua galeria, na rua Joly Braga Santos. No escritório amontoam-se os livros, de poesia e arte. Com saudosismo vai recordando a infância, lembrando os pormenores que marcaram para sempre o seu trabalho. Sorri mesmo nos temas menos fáceis, lembrando a memória da filha Débora, que morreu num acidente. É o homem dos sorrisos, um contador de histórias e um poeta solitário, que procura no universo a essência das coisas. Nasceu em 1945 em Estremadouro, freguesia de Seiça, no limite do concelho de Ourém com Tomar. A 13 de Junho, data de nascimento de Fernando Pessoa, personagem a partir do qual também se define pela forma como este se dividiu nos seus poemas. Da infância guarda a memória dos ferroviários, da tuberculose, dos passeios pela linha-férrea, da paixão que aos 12 anos lhe abriu as portas da poesia, da tia madre superiora, do avô que pouco dizia e do avô contador de histórias.Eram dois homens bastante diferentes, dois lavradores. “O Joaquim de Carvalho era quase mudo, não falava quase nada, e o Joaquim de Frias era um contador de histórias como eu. O Joaquim de Frias tinha um alambique e era o que fazia o peditório para as missas e aquilo tudo. Havia sobre ele várias prosas, ele é que fazia as enxertias nas quintas. Sabia escrever e ler, era um intelectual do seu tempo. A irmã, a minha tia-avó, era Laura de Frias, Irmã Maria das Chagas, foi directora do Convento de Vila Nova de Cerveira”.Da família conhece muitas histórias, que aguardam por uma oportunidade de serem desenvolvidas literariamente. O avô Joaquim Frias, recorda, “perdeu os pais, viveu num curral em Fontainhas, pois os tios eram pobres. O avô Carvalho era um homem muito austero. Dizia-se: «o Joaquim Carvalho disse…» e era sagrado o que ele dizia. O Joaquim de Frias era um contador de histórias, abandonava-se, entregava o alambique a toda a gente, era um generoso. Tive dois avôs completamente diferentes cujas casas distavam 50 metros”. Os pais eram vizinhos, um ferroviário amante da terra, José da Silva Carvalho, e uma dona de casa muito talentosa no desenho, Júlia das Neves de Frias. “Os meus pais eram muito diferentes. Havia muitas vezes desarmonia. O meu pai amava a terra profundamente, muito ligado à natureza. A minha mãe gostava muito de estar com as outras pessoas, de contar histórias. O meu pai era mais temperamental, mais Shakespeare”, recorda.A infância ficou marcada pela tuberculose do pai, que contagiou os três filhos. “Eu fui o menos afectado. Mas foi uma infância feliz, tínhamos os pinhais, tínhamos a natureza, os pássaros, havia todo um mundo à nossa volta fascinante”.Um mundo representado também pela presença do apeadeiro e do comboio, que fabricava na cabeça dos mais novos todo o género de sonhos. “Era a aventura, era o sonho, era a companhia, era a procura de coisas que os comboios deixavam. O comboio era a ligação com o mundo, o cheiro do óleo, da creolina, os aromas, o cheiro a carvão, a viagem permanente. O comboio tinha todos os sentidos. Nós andávamos pela linha, atravessávamos a ponte (ponte do apeadeiro de Seiça). O comboio era um mundo fantástico”. Um maço de cigarros amachucado no qual alguém esquecera um cigarro, uma carica de uma marca desconhecida significavam achados incríveis. Guardados como tesouros por aquele pequeno diabrete do Estremadouro, que sabia tudo da catequese mas que cometeu todo o género de loucuras. A poesia, o futebol e a fuga à tropaAos 12 anos, apaixonado por uma prima, descobre a poesia. Começa a escrever para os jornais, assinando com nomes diferentes no Notícias de Ourém consoante lhe ditava a inspiração. “Senti que era poeta, que era predestinado”.Foi jogador de futebol no Caxarias, mas a sua vida passaria pela carreira militar. Formou-se em Engenharia Química, tendo sido professor do ensino técnico em Vila Franca de Xira e trabalhado na indústria alimentar na área da química laboratorial. Desertou da tropa em Tancos e exilou-se em França durante cinco anos, entre 1969 e 1974, colaborando aí na revista “O Imigrado Português”. “Eu era contra a guerra colonial nos termos em que estava a ser desenvolvida”, explica. Após o 25 de Abril foi integrado nas Forças Amadas.“Vim com um grande entusiasmo, havia muito movimento, as pessoas interrogavam-me. Estava nas Forças Armadas, no cerne da revolução, e portanto representei muitas vezes o próprio Presidente da República. As pessoas solicitavam-me muito e sempre que ia à terra era uma grande festa. Era entendido como uma pessoa diferente, um intelectual”. Hoje afirma-se apartidário, votando consoante lhe parece ser a melhor opção.Ourém é um concelho com uma cultura e uma mentalidade pobresOlha o concelho de Ourém à distância e, apesar de amar toda a paisagem da sua terra, não pensa regressar. “É um concelho muito pobre, do ponto de vista mental e intelectual. Quando querem juntar Ourém a Leiria, eu sou contra. Já chega Fátima. Nós somos ribatejanos, a nossa ribeira de Seiça corre para o Tejo, nós somos a última raiz do Ribatejo. Acredito e quero ser do Ribatejo”.E reforça: “Eu não quero ser de Leiria, eu quero ser de Santarém e ribatejano. E isso é político também, porque ali Leiria, Ourém, é muito mais conservador, muito mais reaccionário, mais status quo. Tem a Igreja com um poder negativíssimo muito grande. Eu, não sendo anti-clerical, anti-Igreja, não quero ser de Fátima e quero que Fátima seja de Ourém”.A mudança do executivo municipal para o PS nas últimas eleições foi um sinal positivo, da necessidade de mudança. Mas “vejo um concelho culturalmente muito pobre, sem tradições culturais, não tem nada. É uma terra sem nada, sem chama, está amortecida pela Igreja, pelas Fátimas. Está abençoada, mas aqui a bênção é uma espécie de anestesia. E isso eu vejo com preocupação”. Sobretudo quando “vemos que as pessoas daquele partido que devia ser da revolução, das ideias novas, do descontentamento, são os do conservadorismo que é mais retrógrado…o discurso é sempre o mesmo”. “Já pensei fazer um dia uma galeria de arte contemporânea. Temos umas coisitas, mas falta chama naquela terra. Amo com grande emoção aquela paisagem, mas amo-a mais estando cá. Gosto das pessoas, mas falta-lhe chama”, afirma ainda.O poeta dos sete elementosÁgua, Ar, Terra, Fogo, Vida, Morte, Amor. São estes os sete elementos que definem a poesia de Carlos Frias de Carvalho, com cerca de uma vintena de livros publicados, assim como contos para crianças ou artigos sobre arte contemporânea. Um deles é “Ribatejo e Além”, obra inicialmente começada como homenagem a Manuel Alegre, mas que se afastou desse propósito. Nele, como em várias das suas obras, fala da ribeira, das lendas oureanas, dos pinhais. Uma poesia de versos simples, reduzida ao mínimo nas palavras. Pois, conforme afirma, “as palavras são o vazio molecular da substância”.É o químico que fala em muitas das suas manifestações poéticas, procurando a essência do mundo e das coisas no sentido profundo das palavras. Conforme refere, o poeta “é um grande cantor, não é um escritor”, porque o poeta “transforma a miséria e a dor em canto”. “O poeta é um ser especial, ele toca a alma da mulher como ninguém. É a palavra – música, a imagem”, considera.Debruça-se hoje sobre uma poesia mais espiritual, de “ascese”, pois “a inquietação é outra, as hormonas já são outras também. Há uma sabedoria que se vai adquirindo. Hoje a minha poesia está mais depurada, mais cristalina, mais essencial. No fundo é a procura do cerne, da essência”.Com vários livros na calha e outros tantos por iniciar, falta-lhe o tempo para escrever. “Há pessoas que se sentem predestinadas. Sempre acreditei que teria uma vida complicada e de facto tem sido muito complicada, com a perda da minha filha ou o exílio”, conclui.
O químico das palavras

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