Uma freguesia com oito séculos que continua à espera do progresso
Paróquia de Espite, que deu lugar à freguesia, foi criada há 800 anos
Oitocentos anos é muito tempo mas não chegaram para Espite apanhar o comboio do desenvolvimento. A freguesia do concelho de Ourém já integrou três municípios e sempre teve uma localização periférica. Longe dos centros de poder, sofreu com o êxodo dos seus filhos que procuraram uma vida melhor noutras paragens. A celebração dos oito séculos sobre a fundação da paróquia que deu origem à freguesia é vista como um incentivo para o virar de página da sua já longa história.
A freguesia de Espite, no concelho de Ourém, está escondida no meio de um vale, rodeada por mato e pinhais, vinha abandonada, repartindo-se por 35 lugares e com cerca de 1200 habitantes. O que a distingue de muitas outras freguesias rurais são os 800 anos de história, desde a criação da paróquia em 1211, no ano em que morreu D. Sancho I “O Povoador” e assume o trono D. Afonso II “O Gordo”. Nasceu quando a nação começava a consolidar-se e já fez parte de três concelhos, sobrevivendo sempre na periferia. Terra de agricultores de subsistência, viu o desenvolvimento ser limitado pelo isolamento, pelas invasões francesas, pelos fogos e, por fim, pela desertificação. No ano em que se comemoram os seus 800 anos, Espite continua à espera do progresso e os objectivos até parecem singelos: aumentar o lar de idosos e o cemitério e manter aberta a última escola primária da freguesia. Para quem nunca teve muito, o pouco faz muita falta.No domingo passado, 120 pessoas participaram num passeio pedestre integrado nas comemorações dos 800 anos de Espite organizadas pela junta de freguesia. A iniciativa serviu para alguns conhecerem a freguesia, localizada a cerca de 20 quilómetros de Ourém. “Espite foi sempre uma desgraçada”, comenta Jaime Gonçalves, um interessado em História que está a escrever um livro de 800 páginas sobre a freguesia, a ser apresentado em Agosto. O estudioso não poupa nas palavras: “É o exemplo acabado da periferia, do isolamento periférico. Espite foi periférico de tudo e de todos. Periférico de Leiria, periférico de Pombal, periférico de Ourém. Quando Espite foi para Ourém não havia nem um caminho de cabras. Uma freguesia completamente isolada. Na época da explosão da emigração, nos anos 60, pensava-se que a remessa de emigrantes ia significar uma nova vida para Espite. Mas os emigrantes trouxeram o dinheiro mas não investiram e Espite continuou no seu marasmo”.O primeiro registo da paróquia rural de Espite data do Compromisso de 1211, celebrado entre Santa Cruz de Coimbra e os Clérigos de Leiria. Ligada desde a sua fundação a Leiria, Espite passa para o concelho de Pombal em 1836, no qual se mantém apenas 19 anos. A 24 de Outubro de 1855 é adicionada a Vila Nova de Ourém, em compensação por aquele concelho ter perdido a Sabacheira para Tomar. A freguesia é arrasada pela terceira invasão francesa, à semelhança do resto da região. Os fogos e o êxodo da população têm marcado as últimas décadas. “Daqui nunca saiu nada de novo. O único que teve alguma saliência apenas casou aqui. Foi Carlos Lopes, presidente da Câmara de Ourém. Teve alguma influência”. A seu lado figura ainda o padre António Pereira Simões que em 1897 tomou conta da paróquia. Impulsionador da instrução, construiu do seu bolso escolas por toda a freguesia que entregou depois ao Estado. Inicialmente de grande dimensão (estendia-se até à zona das portagens de Leiria), foi perdendo localidades ao longo das décadas. Primeiro a Caranguejeira, em 1529. Depois as freguesias de Cercal e Matas, ambas do concelho de Ourém, em 1984. “Espite é o reflexo do seu passado”Filipe Baptista ganhou a junta de freguesia de Espite em 2009 e afirma que a experiência está a ser “engraçada e gratificante”, ainda que reconheça que o mundo da política não o fascina. Do antecessor herdou uma pequena dívida, que está controlada, e são muitos os projectos que gostaria de ver desenvolvidos na sua terra. Atrair a população jovem e combater a desertificação estão entre as prioridades, sobretudo para quem vê ir embora muitos dos amigos numa nova vaga de emigração.Espite é hoje o reflexo do seu passado, comenta. Apesar de um pequeno crescimento na década de 2000, os Censos vão confirmar que a população jovem diminuiu. “Em Ourém, Espite é a freguesia com a população mais envelhecida, ao lado de Formigais, e vai continuar. As pessoas vão voltar à emigração. Não há trabalho”.Entre o reformado que trabalha a sua terra ou o jovem que trabalha fora, é pouco o movimento pelas ruas. Espite é uma das freguesias do país com mais emigração e no percorrer das suas localidades é fácil encontrar casas fechadas. Ainda assim, a freguesia tem um lar de idosos, uma extensão de saúde (com médico três vezes por semana), uma escola de 1º ciclo, uma secção de bombeiros, duas associações e as tradicionais comissões de igreja. “Temos uma zona industrial muito pequena. Em termos económicos, há dinheiro. Tendo sido uma zona de forte emigração, sobretudo nas décadas de 50 e 60, toda a gente fez um grande pé-de-meia. Não há é quem o invista cá”, comenta Filipe Baptista. E dá um exemplo: “Há uns anos alguém quis montar aqui uma empresa de tecnologia de ponta para aviões, uma vez que era aqui de Espite. Mas não conseguiu arranjar um terreno porque pediam uma fortuna”.O grande problema reside ainda hoje no isolamento, comenta o autarca, e nas fracas condições de acesso, por caminhos sinuosos e nem sempre em bom estado. Uma das necessidades da freguesia é a requalificação da Estrada da Ribeira, que conduz a Leiria. A requalificação da zona industrial é outros dos pontos por onde terá que passar a promoção da freguesia. A escola primária está no limite do número mínimo de alunos para se manter aberta e este ano mais casais emigraram, reduzindo o número de crianças. O lar de idosos necessita de ser ampliado, assim como o cemitério. Há lugares com dois ou três habitantes. O panorama é cinzento, mas Filipe Baptista vê na celebração dos 800 anos um marco na viragem do destino da freguesia. “Para a repovoação e para olharmos para nós próprios”, diz. Comenta que a relação com a Câmara de Ourém tem sido “cordial” e vê com bons olhos a falada unificação de freguesias. “Se calhar estamos a pagar por alguns erros do passado com a desintegração de muitas delas. Sou completamente a favor da reunificação de freguesias, até para terem mais poder político”.A terra dos caçadoresA Associação de Caçadores de Espite é a única colectividade activa na freguesia, já que o clube desportivo se encontra “estagnado no tempo”, diz o presidente da junta. A associação nasceu da paixão da caça, em 1991, tendo sido reactivada em 2004. São 102 sócios, a maioria com mais de 60 anos, com apenas um adolescente prestes a completar 16 anos. São os caçadores que estão a dar nova vida à desactivada escola primária de Freiria, na freguesia, encerrada há vários anos. O balcão já está montado e o presidente, Vítor Rodrigues, espera poder criar ali um espaço associativo, com bar ao fim de semana e uma sala para reuniões, dando assim um rosto à associação.Os sócios caçam entre as freguesias de Espite e Matas, numa zona de caça municipal. Criar uma zona de caça associativa seria o ideal para esta associação, mas na área existem mais de 3 mil proprietários, a grande maioria desconhecidos. “Só se mudar a legislação”, reflecte Vítor Rodrigues, explicando as condições necessárias à caça associativa.Caçam coelhos, perdizes, faisões, rolas, pombos e a raposa no mês de Fevereiro. É uma actividade que vale pelo convívio, pela camaradagem, que lhe dá ânimo para se levantar de madrugada para participar numa caçada. Uma associação, por enquanto, só de homens, mas aberta a qualquer caçadora que esteja disposta a integrá-la. “Espite é uma zona razoável para caça, calma, o problema é mesmo o mato”, comenta Vítor Rodrigues. Como a maioria dos sócios é idosa, os praticantes reduzem-se a cerca de sessenta. Jovens há poucos e não mostram interesse. Este desporto “está a ficar caro e nem sempre se pode ter o equipamento necessário”, justifica.
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