
Meio século de trabalho na arte de cortar e vender carnes
Joaquim Silva tem quase 50 anos cumpridos a trabalhar em talhos, 33 dos quais no Talho Mimo, em Pernes
Há 12 anos criou uma sala de salsicharia para fazer os seus próprios enchidos que expõe em vitrinas frigoríficas.
Quem entra no Talho Mimo, instalado numa das lojas do mercado semanal de Pernes, concelho de Santarém, não sai defraudado com o que espera encontrar num estabelecimento de venda de carnes diversas. A primeira sensação é a do cheiro característico das carnes e enchidos que invade quem passa a porta de entrada, ao contrário da característica inodora dos talhos de grandes superfícies. Atrás do balcão está Joaquim Silva que com a mulher, Graciete Silva, abriram o Talho Mimo há 33 anos. Mas o cortador de carnes verdes, como prefere ser chamado em vez do oficial “manipulador de carnes verdes”, trabalha em talhos há quase 50 anos.Joaquim Silva cumpriu a escola até aos 11 anos mas sempre disse à família - de mais três irmãos e o pai padeiro e a mãe doméstica - que queria trabalhar no comércio. Dito e feito, começou a trabalhar numa mercearia de Outeiro da Alfazema onde não ficou muito tempo. A primeira experiência num talho ocorreu aos 13 anos em Pernes, no Talho Central, pertença da família Sequeira. “Limpava, matava borregos e outros animais e ia começando a atender alguns clientes”, recorda Joaquim Silva, lembrando que só lhe fazia mais confusão matar cabritos com um “choro” parecido ao de bebés. “Aprendi a dar um golpe para que não fizessem barulho”, acrescenta. Estava lançada a vida de Joaquim Silva ligada aos talhos. Ali permaneceu quatro a cinco anos mas acabou por ir trabalhar para o talho da praça de Santarém. Permaneceu aí durante dois anos mas o filho do talhante estabeleceu-se em Pernes e convidou-o para trabalhar com ele. Não pensou duas vezes e voltou à terra, onde passou a dormir numa pensão. Foram 12 anos de trabalho, até aos 30, quando Joaquim Silva decidiu estabelecer-se por conta própria com o talho do mercado. “Passado este tempo todo tenho de agradecer à família Sequeira que me ensinou a ser um pouco de tudo no que diz respeito ao trabalho num talho”, reconhece Joaquim Silva, que aos 19 já tinha tratado do casamento com a mulher, então de 17.Com a experiência de vários anos a trabalhar em talhos, Joaquim Silva foi ganhando o seu espaço no comércio local. Há 12 anos criou uma sala de salsicharia para fazer os seus próprios enchidos, que expõe em vitrinas frigoríficas. Nos restantes balcões de frio há carne de vaca, porco e borrego, com uns salpicos de carnes de caça. Uma prateleira junta temperos e condimentos. Joaquim Silva desmancha peças de carne, corta e atende clientes. Hoje em dia, devido ao cansaço de 62 anos de vida, procura o conforto de uma cadeira sempre que os clientes dão uma folga. “Tudo somado são umas 13 horas por dia de pé. Nesta idade já é muito violento para os meus joelhos”, conta. Joaquim Silva levanta-se diariamente por volta das 06h30 para tratar da salsicharia numa sala que tem junto à sua residência. Trabalha com a ajuda da mulher e mais três pessoas uma vez por semana, às segundas-feiras, com 180 a 200 quilos de carne.À terça-feira o talho recebe as carnes que vão sendo desmanchadas à medida das necessidades. Funciona diariamente até à tarde de sábado. Depois das 20h00 é tempo desmanchar as carnes, fazer a limpeza diária do talho e levar as encomendas recebidas de fora. No talho, Joaquim Silva possui os instrumentos necessários ao seu trabalho. Em dezenas de anos a lidar com lâminas afiadas só uma vez o homem do talho “ceifou” três pontos num dedo. “O bom cortador sabe tirar partido das peças de carne que tem. E também tenta saber junto do cliente o que este pretende. Muitas vezes a pessoa quer uma carne para cozer e pede uma que é melhor para assar, por exemplo. É nessa altura que lhe dou o meu conselho”, refere Joaquim Silva.No tempo livre, aos domingos, Joaquim Silva gosta de se levantar cedo e ir tomar o pequeno-almoço ao café e dar dois dedos de conversa com pessoas amigas. Noutras ocasiões aproveita para ir à caça ou a corridas de touros para descomprimir. Domingo à noite é hora de jantar familiar com os filhos Miguel e Mónica, em cujos nomes próprios as duas letras iniciais deram origem ao nome do talho.

Mais Notícias
A carregar...