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“Construir escolas novas não chega para conseguir melhores resultados”

“Construir escolas novas não chega para conseguir melhores resultados”

Helena Rodrigues defende uma política que ajudasse os pais a acompanhar mais os filhos

Helena Rodrigues, professora de educação especial e de infância, coordenadora do projecto no âmbito do “Comenius” que está a ser desenvolvido pelo Jardim de Infância e Escola do 1º Ciclo do Bairro do Paraíso, em Vila Franca de Xira, (ver texto ao lado) e adjunta da direcção do Agrupamento de Escolas Dr Sousa Martins, considera que não basta ter boas escolas para que se consigam obter melhores resultados. Entende que as escolas têm de cativar os alunos face ao mundo de informação e confessa que não é positivo quando os professores conversam com os pais por e-mail. A escola não é um “assistente social” e por isso concordaria com uma política que ajudasse os pais a passar mais tempo com os filhos.

Edição de 08.06.2011 | Sociedade
Os milhões de euros gastos na renovação do parque escolar do concelho têm sido um bom investimento?Estas intervenções têm sido muito positivas porque as nossas escolas, tanto do 1º ciclo como do 2º, 3º ciclo e secundário, estavam muito degradadas. Trata-se de dar aos alunos e professores condições físicas para fazer um bom trabalho ao nível da educação. É óbvio que só isto não chega para fazer dos nossos alunos os mais brilhantes da Europa. Se calhar também não temos condições para fazer a manutenção de escolas desta dimensão. Por exemplo, o consumo de electricidade aumenta porque as salas têm ar condicionado. O mesmo acontece com os gastos nos produtos de limpeza. Aumentam porque o espaço é maior. O que falta para estimular mais os alunos para a escola?A escola não pode matar a criatividade dos alunos. As escolas precisam deixar os alunos expressar-se livremente, participar em experiências e actividades que os computadores não lhes dão. Os alunos têm de fazer coisas das quais tenham orgulho, não apenas ouvir um professor a debitar matéria. Os intercâmbios também são importantes. Estamos num paradigma completamente diferente. As instalações são muito importantes para o sucesso mas têm que estar de braço dado com a atitude e a parte humana dos professores e alunos. Hoje em dia muitos professores comunicam com os pais por e-mail por falta de tempo para ir à escola...As tecnologias podem ser uma mais-valia para os pais que estão mais longe da escola. É uma ferramenta que podemos usar como estratégia para nos aproximar mas de maneira nenhuma deve substituir o contacto na escola com o professor. Tudo isto tem a ver com a conjuntura social em que vivemos. É importante perceber o que se passa com as famílias. São tempos muito difíceis e a escola não tem que criticar o pai que não pode vir à escola. A escola não pode ser um assistente social mas cabe-nos ter uma postura humana. Porque motivo as escolas não ficam abertas até mais tarde?Está a pedir-se muito à escola. A escola não existe para dar resposta às necessidades das famílias. Estamos aqui sobretudo para formar pessoas. Deveriam ser implementadas sim medidas políticas para permitir aos pais poder sair mais cedo dos empregos para estar com os filhos, o que é muito importante nos primeiros anos de vida. A educação é trabalho dos pais...A educação vem do berço e não do facto de se frequentar o melhor colégio. Mesmo numa família humilde se passam valores importantes no processo de socialização e isso vale muito. Os pais são os melhores pais que sabem ser e nas condições que conseguem ter. Dar mais autoridade aos professores seria uma mais-valia?Penso que sim mas não é por regulamento e decreto-lei que se vai conseguir repor essa autoridade. A autoridade tem muito a ver com a criança deixar-se orientar por quem está à frente e para isso tem de haver confiança. Ao nível da autoridade perderam-se muitos valores. Hoje os alunos raramente vêem o professor como autoridade. Não me preocupam os alunos que vêm de meios socio-económicos médios e baixos porque a esses nós conseguimos dar algo diferente na escola e eles bebem tudo o que temos para oferecer. Os alunos de famílias de classe alta, que têm tudo em termos materiais, são normalmente os que têm atitudes de desafio à autoridade do professor. Às vezes há ameaças de morte nas salas de aula. Isso aconteceu com alguns colegas meus professores. Sente um agravar das dificuldades económicas das famílias?Muito. As candidaturas à acção social escolar aumentaram imenso. No primeiro ciclo, ao qual estou mais ligada em termos de direcção, os pedidos de ajuda aumentaram bastante. Temos situações de famílias em situação dramática.Como analisa as iniciativas no âmbito da educação que têm sido feitas no concelho?O concelho tem tido algumas iniciativas mas poderão surgir muito mais. Existem imensas escolas no concelho e junto de cada escola pode haver um intercâmbio promovido pelo município, de práticas pedagógicas para que nos possamos mostrar uns aos outros. Acho que isso é importante. Haver uma partilha de conhecimentos e projectos. Estamos numa altura em que faltam muitas coisas nas escolas e ao nível dos professores poderiam ser promovidas formações que potenciassem as qualidades individuais. Há potencial em Vila Franca de Xira. Só falta divulgá-lo.Filho de 15 anos estava no Japão quando o tsunami arrasou parte da ilhaO episódio que mais marcou a vida de Helena Rodrigues foi o medo de perder o filho de 15 anos que estava em visita de estudo ao Japão aquando do último terramoto e tsunami que assolou a ilha, em Março. “O meu filho foi um dos 16 alunos de um externato de Arruda dos Vinhos que estava em Tóquio numa visita. Uns dias depois dele chegar ao Japão aconteceu o terramoto. Vivi horrores porque durante um tempo as comunicações estiveram cortadas”, recorda. Natural de Vila Franca de Xira, onde reside, Helena Rodrigues, 44 anos, estudou na Escola Reynaldo dos Santos e na Escola Superior de Educação Jean Piaget em Almada. Há 21 anos que se dedica à educação. Fez parte de uma equipa de intervenção precoce em Alenquer e, mais tarde, acabou por vir dar aulas para Vila Franca sendo depois convidada para exercer o cargo de gestão que hoje ocupa na direcção do agrupamento Sousa Martins. Tem à cabeceira “Código da Inteligência” de Augusto Cury e Beethoven no leitor de CD. Preenche os tempos livres com caminhadas, bodybalance e pilates. Autonomia, confiança e motivação são, na sua opinião, os principais atributos que os alunos devem ter para vencer.
“Construir escolas novas não chega para conseguir melhores resultados”

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