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“A política não pode estar só nas mãos dos partidos”

“A política não pode estar só nas mãos dos partidos”

Pedro Marques, ex-presidente da Câmara de Tomar, hoje vereador da oposição por um movimento independente, fala do passado, do presente e do futuro

Autarca diz que a coligação PSD/PS que gere a Câmara de Tomar é “contranatura” e nascida para servir interesses pessoais, discorda da existência de vereadores a tempo inteiro com apenas um pelouro referindo que é um desperdício de recursos e afirma que, se fosse o actual presidente da autarquia, o vereador socialista Luís Ferreira tinha ficado sem pelouros após o “caso Lobo Antunes”. Sem papas na língua, Pedro Marques explica que o quiseram tramar e garante que não regressou à vida autárquica para limpar a sua imagem, porque não há nada para limpar.

Edição de 03.08.2011 | Entrevista
Depois de oito anos na cadeira do poder, regressar à Câmara de Tomar para a oposição e sem pelouros não deve ter sido fácil.A vida autárquica nunca é fácil. Recuso a tese mais comum de que há poder e oposição, porque nós na câmara não temos competências delegadas mas não deixamos de defender a todo o momento aquilo que achamos melhor para o concelho. A nossa postura é empenhada e de serviço público.Mas deixou de ter poder de decisão…Deixámos de ter poder de decisão, mas quando somos chamados a tomar decisões partilhamo-las, quando são correctas. E quando achamos que não são correctas damos alternativa. Uma nota objectiva do nosso empenhamento é que estou nestas funções desde 2005 e nunca faltei a uma reunião de câmara, às vezes com prejuízo da minha vida profissional. Em primeiro lugar está o serviço público a que me obriguei perante a população. Essa foi também a razão para levar o meu mandato como presidente da câmara até ao fim e não ter alinhado com quem queria que eu saísse a meio do segundo mandato para me meterem na lista de deputados do PS em 1995.Fizeram-lhe essa proposta na altura?Sim. Desde o início que recusei essa situação porque entendi que devia acabar o meu mandato.Não tem pelouros neste mandato porque não lhe os propuseram ou porque não os aceitou?Nem uma coisa nem outra. Nunca se colocou a questão. O dr. Corvêlo neste mandato, antes de fazer coligação com o PS, falou comigo várias vezes. Eu disse-lhe que não valia a pena estarmos a falar porque o PSD e o PS já se tinham entendido. Sempre dissemos que esse entendimento teve a ver apenas com interesses pessoais.De quem?O primeiro interesse deles era não dar poder a Pedro Marques. Isso para mim era objectivo. Mas havia também interesses pessoais. Era os vereadores do PS terem pelouros a tempo inteiro. E eu já disse que é uma vergonha ter um vereador a tempo inteiro na Protecção Civil, com um secretário…É um desperdício de recursos?Claramente. No meu tempo isso não acontecia. Cheguei a tirar pelouros a um vereador que tinha a tempo inteiro e que era do PS. Quando as pessoas não cumprem… Faltou coragem política ao presidente da câmara para retirar todos os pelouros ao vereador do PS Luís Ferreira depois do caso “Lobo Antunes”?Não sei se faltou coragem política ou se ele está dependente do partido e este entendeu que não devia fazer-se isso. O que digo é que se fosse eu tinha tirado. Não tenho dúvidas sobre isso.Voltando um pouco atrás. Que outros interesses pessoais estão na génese desta coligação?Também se quis garantir que o Luís Vicente, que na altura era o presidente da concelhia de Tomar do PSD, se mantinha à frente dos SMAS (Serviços Municipalizados de Águas e Saneamento) e que o Miguel Relvas continuava à frente da assembleia municipal. Não tenho dúvidas que foram esses interesses que estiveram por detrás desta coligação. Tanto mais que se olharmos para a coligação, vemos que não tem objectivos.É por isso que diz tratar-se de uma coligação contranatura?É contranatura porque PSD e PS são dois partidos de poder e coligarem-se é algo contranatura. Não sou só eu que o digo. Até a nível nacional se entende que sendo alternativas um ao outro estarem coligados não faz grande sentido. Não é por acaso que PSD e PS apenas têm coligações em Tomar e Matosinhos.Não gostou de não ser englobado nessas negociações para partilha do poder?Nós nunca procurámos isso. Estamos sempre disponíveis para colaborar. Dou as minhas opiniões em reunião de câmara, estou sempre disponível para falar com o dr. Corvelo. Aliás nunca levamos nenhum assunto algo polémico a reunião de câmara sem primeiro falar com ele e tentar respostas. Quando elas não vêm então pomos a situação publicamente. “Há pessoas sem competência para determinados pelouros”A Câmara de Tomar era ingovernável sem este acordo de coligação?Não. No meu primeiro mandato também não tive maioria absoluta e nunca tive problemas. Por uma razão muito simples: a gestão era aberta e transparente, os projectos eram abertos a toda a gente. Não me lembro de ter perdido qualquer votação quer na câmara quer na assembleia municipal. Curiosamente, as maiores dificuldades que tive foi com maioria absoluta, porque havia quem pensasse que os assuntos não deviam ser discutidos com a oposição. Tive vereadores do PSD com pelouros sem problema nenhum. São todos eleitos, portanto têm a mesma legitimidade.Mas na lógica politico-partidária, de concorrência entre partidos, isso não é tido em conta.Não é tido em conta e eu acho que erradamente.Isso é o pensamento de um cidadão que não é filiado num partido.Deve-se pensar na qualidade das pessoas. E há pessoas que não têm as competências nem sequer a sensibilidade devida para determinados pelouros.Isso acontece na actual vereação da Câmara de Tomar?Acho que sim e o próprio PSD já assumiu que isto é para mudar no próximo mandato. O que eu pergunto é: por que não mudar antes? Sou daqueles que defendem a estabilidade e tem-se sentido algum divórcio entre o PSD e o executivo. Não é possível estar-se numa coligação e os partidos não se entenderem e nunca terem dialogado.Acredita que a coligação vai chegar até final do mandato?Não sei. O PSD e o PS não têm estratégia e estão a afundar o concelho, mas se o único leit motiv deles é os interesses pessoais a coligação poderá chegar até ao fim. Mas penso que se o PSD mantiver isto, o PS mais tarde ou mais cedo acabará por saltar fora, para se demarcar, chegar às eleições e dizer que não teve nada com isto. Mas teve.É difícil ter um pé no poder e outro na oposição.Como é óbvio e é o que eles pretendem. Têm que se assumir como tal. Nesse aspecto acho que quem anda mais atento não percebe como esta coligação se mantém.Os desafios são para levar até ao fimPedro Alexandre Ramos Marques, 55 anos, é advogado com escritório na Avenida Cândido Madureira, em Tomar. Foi numa sala junto ao seu gabinete que decorreu esta conversa. De camisa e gravata, recebe-nos de braço esquerdo ao peito, fruto de ter partido o dedo anelar na sequência de uma queda que deu nas mesmas escadas que nos conduziram até si. Natural de Santa Marinha, concelho de Seia, nasceu a 9 de Agosto de 1955. Veio viver para Tomar com três anos. Foi aluno do Ex-Colégio Nun’Álvares e, aquando do 25 de Abril de 1974, frequentava a Escola Secundária Jácome Ratton (antiga Escola Industrial e Comercial), onde fez parte do Conselho de Alunos e Professores que geria a escola, participando em manifestações estudantis. É casado e tem três filhos, dois biológicos e uma menina adoptada. Licenciou-se em Direito na Universidade de Coimbra como trabalhador-estudante. Em 1975, emigrou algum tempo para França com a intenção de trabalhar num banco. Como não conseguiu a documentação necessária e a esposa encontrava-se grávida do filho mais velho, acabou por forçar o regresso. Fecha-se uma janela, abre-se uma porta. Na viagem de regresso, encontrava-se na estação do Entroncamento para apanhar o comboio para Tomar quando, através do jornal, constatou que tinha feito um 13 no Totobola. Ganhou 17 contos e tal. Investiu parte do dinheiro num curso de programação de computadores Cobalt, que fez em Lisboa, a pensar em ingressar numa empresa privada em Tomar. Nova porta fechada acaba por ir trabalhar para o grupo Mendes Godinho onde trabalhou na informática, como escriturário nas Rações Sol e na direcção de pessoal e, após terminar o curso de Direito, no contencioso. “Foi o único patrão que tive e tive muita sorte porque era uma empresa que apoiava muito os trabalhadores estudantes”, atesta. Foi no grupo Mendes Godinho que trabalhou até à manhã do dia em que tomou posse como presidente da câmara, em 5 Janeiro de 1990. Quando chegou avisou logo que não queria “yes men” em seu redor, considerando que neste capítulo há que mudar mentalidades. Foi também professor, jogador dos juniores do União de Tomar. Confessa que não tem muito tempo livre para hobbies mas que, com organização, sempre conseguiu conciliar várias actividades ao mesmo tempo. Quando concorreu à Câmara de Tomar, em 1989, era presidente do U. Tomar. Fala com acentuado orgulho dos filhos. O mais velho, seu homónimo, tem 35 anos e formou-se em Gestão, é professor e director do curso de Auditoria e Fiscalidade no Instituto Politécnico de Tomar e o mais novo, Nuno Marques, 30 anos, é jogador de futebol de carreira internacional, passando pela Suiça e Suécia e, de há sete anos a esta parte, no campeonato da Noruega. O seu lema de vida é: “ou se faz ou não se faz”. Por isso, quando encara um desafio sabe que é para ser levado até ao fim.“O que Tomar precisa é que se dêem as mãos”Pensa voltar a candidatar-se em 2013?Não sei. Está gente a aderir ao movimento, que se vai renovando naturalmente. Nas três freguesias que os independentes lideram as coisas correm bem e ninguém é excluído de participar.Existe a imagem que os movimentos independentes geralmente nascem de querelas ou dissidências partidárias. O fundo de verdade que isso pode ter relaciona-se com o facto dos partidos não darem resposta às necessidades da sociedade civil. E as pessoas obrigam-se a procurar outras alternativas. A política não pode estar só nas mãos dos partidos?Não, porque a gente sabe que quando está nas mãos dos partidos, está nas mãos de dois ou três. O caciquismo ainda funciona muito. As regras ainda não são iguais para os partidos e para os movimentos independentes, no que toca a candidaturas a eleições. É uma dificuldade de afirmação acrescida?É óbvio. Veja-se a questão do símbolo, que devia ser devidamente regulamentada para que cada movimento tivesse um símbolo e não um número romano que é conhecido apenas 15 dias antes das eleições. Assim como na campanha eleitoral os partidos não pagam IVA e os movimentos independentes pagam. Qualquer campanha eleitoral para nós custa mais 23% do que a qualquer partido. Isto não é correcto e deve ser alterado.Ficou “escaldado” com os partidos após essa experiência como presidente da câmara pelo PS?Não. Eu percebo os partidos e são essenciais à democracia. Agora, tal como estão e com a postura interna de algum caciquismo, de não procurarem os interesses das populações e fecharem-se em si, aí perdem muito da sua função.Revia-se no Partido Socialista na altura?Era uma questão de alguns princípios e valores. Quando concorri, em 1989, o PS na câmara tinha um vereador em sete. E eu ganhei a câmara. Depois a falta de experiência e falta de conhecimento aprofundado da realidade levaram-me a cometer algumas injustiças para com os meus antecessores. Porque quando não se está dentro disto é fácil falar. Lá dentro é completamente diferente. Fez inimigos na política?Não tenho inimigos. Haverá algumas pessoas que me consideram como tal. Tenho algumas pessoas com quem não falo, duas ou três, porque quando há ataques pessoais sem fundamento e com objectivo de prejudicar eu não posso aceitar.Considera que na altura lhe tentaram tramar a vida?Não tenho dúvidas. O jornal Templário na altura foi um veículo para esse efeito. Todas as semanas eu era primeira página, com razão ou sem razão. Na altura enviaram para a Procuradoria Geral da República, através da assembleia municipal, um conjunto de primeiras páginas desse jornal. E mais surpreendente é que o próprio PS propôs isso na assembleia municipal e tínhamos estado todos antes. Quando lá cheguei deparei-me com isso. Mas tudo bem. Na altura falei com o procurador geral Cunha Rodrigues e disse que estava à disposição para todos os esclarecimentos. Houve um processo que correu na Procuradoria, houve uma inspecção, a PJ fez alguns inquéritos e em Fevereiro de 1997 concluíram que não havia sequer indícios que pudessem ser considerados relevantes.Este seu regresso à política foi também uma forma de limpar a sua imagem?Não teve nada a ver com isso. A minha imagem estava limpa. Inclusivamente o jornal e uma pessoa acabaram por pedir desculpas públicas em tribunal após processo que lhes movi. A razão para regressar foi passar a viver em Tomar novamente e aperceber-me do caminho que o concelho levava.Esteve fora de Tomar muito tempo?Algum. Um dos meus filhos foi estudar e praticar desporto para Lisboa, era guarda-redes dos juniores do Benfica, e eu acompanhei-o. Foi para lá em Agosto de 1997 e eu fui após cessar funções na câmara, em15 de Janeiro de 1998. Tive lá escritório mas nunca perdi o fio à meada do que se ia passando em Tomar. Vinha cá todas as semanas.Quando decidiu regressar?Houve uma altura em que falei com o Rosa Dias e decidimos constituir o movimento de cidadãos independentes para poder ser uma alternativa e tivemos a votação que tivemos. Penso que foi uma lufada de ar fresco. O que é que Tomar pode ganhar tendo Miguel Relvas como ministro?Miguel Relvas não é ministro de Tomar. Mas obviamente que estas situações têm influência. Basta percebermos o que aconteceu há 20 e tal anos com o plano rodoviário nacional, em que a auto-estrada A1 deixou de passar em Torres Novas e em Tomar para passar por onde passa por influência de muita gente. Só tenho pena que aqueles que foram deputados por Tomar não tenham feito mais e que quando o são não tenham dado as mãos. Porque o que Tomar precisa é que dêem as mãos. Mas não, Tomar tem trabalhado sempre na inveja e no protagonismo. Isso não é positivo. Se não nos entendermos nada a fazer. A nossa postura foi sempre essa.Tomar tem perdido protagonismo no contexto regional?Tem, claramente. Se olharem para o meu programa de 2005, dizíamos claramente que Tomar tinha que se afirmar no contexto regional e ganhar população. O último grande investimento em Tomar foi o novo hospital.Qual é a questão que mais o preocupa como vereador?Em termos estratégicos é não haver uma estratégia para o desenvolvimento económico. Não é por acaso que apoiámos a reestruturação orgânica da câmara, porque obrigámos a que fosse introduzida uma divisão de desenvolvimento económico e de apoio às empresas. Mas só ficou no papel, na prática não avançaram com nada. E depois é a área social.Que é ainda mais pertinente em época de crise.Não vale a pena fugirmos à realidade, vai ser cada vez mais um problema em Tomar e há que definir bem as prioridades. Tem que se fazer contenção de despesas noutras áreas para se acudir a essa. E até agora não tem acontecido. A todas as reuniões de câmara vão pedidos de subsídio que são um exagero, que não se justificam. Chegamos a uma altura em que as instituições de Tomar têm de se convencer que os meios são mais escassos. E não se pode fazer tudo a pensar que a câmara vai ser o parceiro que vai subsidiar.
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