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Uma mulher de coragem que quebrou o domínio dos homens na política

Uma mulher de coragem que quebrou o domínio dos homens na política

Maria Elisa Raimundo foi a primeira mulher a integrar a Assembleia de Freguesia de Alverca e um executivo da junta

Maria Elisa Raimundo começou por integrar uma comissão de trabalhadores da OGMA em Alverca na altura em que as reivindicações e protestos se faziam no masculino. Depressa deu um salto para a política, onde também quebrou a hegemonia dos homens ao ser a primeira mulher a integrar a Assembleia de Freguesia de Alverca, concelho de Vila Franca de Xira e depois a pioneira no executivo da mesma junta. Saiu quando entendeu que já tinha dado o seu contributo e que havia outras pessoas que podiam fazer melhor. A sua vida de 76 anos está carregada de simbolismo, a começar pelo episódio em que foi castigada por não revelar quem tinha participado num plenário na OGMA. Interessada pelas causas sociais, integrou a direcção dos Bombeiros Voluntários de Alverca. Recentemente esta mulher que sempre gostou de lutar por melhores condições de vida para todos e que nunca quis filiar-se num partido político foi homenageada com o Galardão de Mérito Autárquico da Freguesia de Alverca.

Edição de 03.08.2011 | Entrevista
Foi a única mulher eleita para a primeira Assembleia de Freguesia de Alverca em 1976 e a primeira a integrar um executivo da junta em 1979. Sentiu o peso de ser pioneira?Nunca senti esse peso! Nunca estive filiada em nenhum partido político, concorri sempre como independente e o que mais me custava eram as sessões de esclarecimento. Não gostava nada de andar a apelar ao voto, pedia sempre para todos fazerem as coisas de acordo com a sua consciência. Comecei por concorrer nas listas da Frente Eleitoral Povo Unido (FEPU) para a Assembleia de Freguesia e depois nas listas da Aliança Povo Unido (APU) para o executivo da Junta. Sempre tive tendência para a esquerda. E como é que se deu essa entrada na política?Foi quase por acaso. Eu era a única mulher que integrava a Comissão de Trabalhadores na OGMA (actualmente Indústria Aeronáutica de Portugal), em 1974. Ainda hoje quando olho para trás não sei explicar muito bem porquê. Mais tarde um grupo de amigos convidou-me para concorrer à assembleia de freguesia e depois à junta. Uma coisa acabou por levar à outra.Na altura em que fazia parte da comissão de trabalhadores da OGMA em Alverca esteve envolvida numa manifestação dos trabalhadores. Como se estava num período quente isso não lhe trouxe complicações?Foi uma situação que me valeu uma reprimenda… Na altura já nem pertencia à comissão de trabalhadores e os meus colegas resolveram fazer um plenário durante a hora do expediente porque muitos moravam longe e tinham de sair a horas para apanharem os transportes. Estava na altura a chefiar a Secção de Publicações Técnicas e da Biblioteca e disse a todos que poderiam participar no plenário enquanto eu ficava a assegurar a secção. No dia seguinte o meu chefe queria saber quais eram os funcionários que tinham participado no plenário e eu respondi-lhe que não sabia porque tinha sido a primeira a sair e não tinha reparado nos que vinham atrás de mim. Fui a única da secção a ser castigada com dez dias de suspensão. Não devia ser muito comum ver uma mulher nessa época a fazer parte de comissões de trabalhadores e a lutar pelas condições de trabalho. É verdade que sempre tive alguma coragem. Nunca consegui estar parada quando a consciência me ditava para agir. Como é que viveu o regime ditatorial do Estado Novo? Só senti verdadeiramente na pele o medo e a repressão depois de já estar na OGMA. No dia em que eu e o meu futuro marido fomos comprar a mobília para podermos casar, houve uma greve na OGMA. No dia seguinte, todos os que tinham estado ausentes do trabalho foram despedidos. Depois de explicarmos que não tínhamos feito greve mantiveram os postos de trabalho mas não nos livrámos de ter a PIDE (polícia política do Estado) a vasculhar a nossa vida em Lisboa, onde morávamos, junto dos comerciantes e dos vizinhos. Era fácil conciliar a vida profissional, a actividade política e a vida familiar?Lá ia conseguindo gerir as coisas. Durante a semana trabalhava e à noite costumava ir para a junta. Os sábados também eram todos ocupados na junta porque costumávamos levar os mais idosos para passeios. Em casa o meu marido dava sempre uma ajuda. Os meus dois filhos neste período já andavam num colégio e também contava com a ajuda de pessoas amigas para tomarem conta deles e com uma empregada para ajudar em casa. Sem estas ajudas jamais conseguiria ter-me envolvido nestes projectos. Eu, o meu marido e os meus filhos continuamos a comer muito depressa por causa do ritmo de vida que tivemos naquele tempo (risos). Na Junta de Freguesia de Alverca foi responsável pela acção social. É uma área em que a sensibilidade feminina pode fazer a diferença?Sem qualquer dúvida. No Natal oferecíamos sempre um cabaz de compras e eu tinha o papel de seleccionar as famílias que realmente precisavam porque o dinheiro da junta era muito pouco. Nunca tive qualquer problema. O facto de ser mulher ajudava muito porque o cuidado que temos a lidar com estes problemas costuma ser maior. Quais eram os problemas sociais da altura?Lembro-me de lidar com dois casos muito graves de famílias num estado de pobreza limite. Esse era o maior problema que encontrava. Desde essa altura a sociedade mudou muito. Como vê hoje a realidade social em comparação com o tempo em que era autarca?Não consigo dizer porque agora já não ando no terreno para me aperceber das principais diferenças. Os casos de pobreza e famílias desestruturadas continuam a existir, como é do conhecimento geral. Depois da minha saída foi para a junta uma assistente social que deu uma grande volta ao estado das coisas. Eu fazia tudo por intuição e tirava uns apontamentos à minha maneira porque não tinha formação na área.“As mulheres estão mais motivadas para entrar na política”Naquela altura a sua decisão de integrar um executivo da junta de freguesia, onde a política era dominada quase na totalidade pelos homens, foi uma forma de provocação?Não! Aqueles eram tempos de mudança em que os jovens ainda fervilhavam com a revolução do 25 de Abril de 1974. Nem sequer fui colocada de lado por ser mulher. Na comissão de trabalhadores quase que posso dizer que andavam comigo ao colo e não me deixavam fazer nada, nem sequer pegar numa vassoura para varrer a sala onde nos costumávamos reunir. E na política também andava com mais mulheres durante a campanha e a aceitação sempre foi muito boa. Actualmente já se encontram mulheres nas presidências das câmaras, das juntas, no Governo, isso deve-se à capacidade de afirmação das mulheres?Houve uma evolução grande ao nível da educação. Hoje existem cada vez mais mulheres a assumirem lugares de destaque em várias áreas da sociedade, ultrapassando mesmo os homens. Considero que as mulheres estão mais motivadas para entrar na política, mas também ainda existem muitos hábitos enraizados que não desaparecem de um dia para o outro.Acha que a sociedade fomenta a culpabilização feminina, quando uma mulher não está totalmente disponível para a família por causa dos cargos públicos que exerce?Isso já só acontece em meios mais pequenos ou quando a mulher tem um marido machista. Mas os homens também evoluíram e são cada vez mais os que ajudam em casa. O sistema de quotas vem ajudar a que mais mulheres tenham acesso à política e à governação?Não concordo nada com o sistema de quotas. As mulheres devem entrar na política se tiverem vontade e disponibilidade. Convidar alguém sem qualquer valor só para preencher um lugar e cumprir as quotas não vale a pena. À frente da Câmara de Vila Franca de Xira está uma mulher. O que acha da presidente da câmara Maria da Luz Rosinha?Tenho muita boa impressão da presidente. Tem tratado dos assuntos mais importantes do concelho. É claro que as pessoas podem apontar muitas coisas que não estão feitas, mas o dinheiro não chega para tudo. Vejo-a a trabalhar dia e noite, fins-de-semana e feriados. Nem se compara com o tempo que eu dedicava à política. Pelo menos tinha o domingo para descansar. Nunca pensou ser presidente da câmara?Não. A minha experiência pela assembleia de freguesia e pelo executivo da junta chegou-me. Depois do mandato na junta terminar, em 1982, candidatei-me num lugar não elegível pela APU. Sentia que já tinha cumprido a minha missão. E existia muita mais gente que tinha capacidade para desenvolver um trabalho ainda melhor. Como avalia a actual governação local?Não tenho uma má impressão... Mas como também passo muito tempo fora não me sinto em condições para poder avaliar o trabalho que tem vindo a ser desenvolvido.Uma mulher que não é tão boa dona de casa como gostariaMaria Elisa Raimundo nasceu em Camões, freguesia de Lisboa, a 2 de Novembro de 1935. Filha única, não teve uma infância muito tranquila devido à separação dos pais. Lembra-se de andar no liceu e de ainda se colocar em frente ao toucador da mãe para brincar. Estudou sempre em colégios particulares porque a mãe trabalhava na Companhia Portuguesa de Higiene e o pai, sargento enfermeiro, viveu sempre no quartel. Depois de completar o liceu, passou pela revista do Aeroclube de Portugal, onde trabalhava como administrativa. Chegou a trabalhar por um período de tempo muito curto na Secretaria de Estado da Aeronáutica. Manteve-se durante 32 anos na OGMA (na altura Oficinas Gerais de Material Aeronáutico e hoje designada por Indústria Aeronáutica de Portugal), onde dirigiu a secretaria do Gabinete de Apoio Técnico, que acumulou à chefia da Secção de Publicações Técnicas e da Biblioteca até à altura em que se aposentou, em 1987.Foi uma das fundadoras da Associação Coral Ares Novos, onde desempenhava o papel de contralto. Em 1988 integrou a Direcção dos Bombeiros Voluntários de Alverca, sendo a responsável pela instituição das festas do Natal na corporação. No dia 13 de Julho deste ano foi homenageada com o Galardão de Mérito Autárquico pela Junta de Freguesia de Alverca. “Parar” é palavra que não entra no vocabulário de Maria Elisa Raimundo. Nos tempos livres ainda se dedicou aos tapetes de Arraiolos e tirou alguns cursos de cerâmica e pintura de azulejos. Em casa não é tão perfeita como gostaria. Não é uma exímia passadora de ferro e só quando tem visitas é que se esmera na cozinha. Tenta viajar o mais que consegue com o marido, companheiro de toda uma vida. Os quatro netos são o seu orgulho. A leitura é a companhia indispensável.Quando a viagem de comboio entre Alverca e Lisboa demorava quatro horasJá trabalhava na OGMA quando decidiu vir morar para Alverca em 1958. Porque decidiu sair de Lisboa? Eu e o meu marido ainda enfrentámos o problema de electrificação da linha de comboio. Chegávamos a sair do trabalho em Alverca às 17h00 e chegávamos a Lisboa às 21h00 porque o comboio estava sempre a ir para desvios para deixar a linha livre para os mais rápidos. Passávamos um inferno naqueles comboios velhos e que ainda funcionavam a carvão. Decidimos que seria mais vantajoso morar em Alverca não só pelo tempo como também pelo dinheiro que pouparíamos. Depois também existiam muitas casas novas, a acabarem de ser construídas. Quais são as maiores diferenças que encontra entre a Alverca de há 53 anos e a cidade que é hoje?Não existe sequer comparação. Alverca não tinha nada. Existia um mercado, um cinema na Filarmónica duas vezes por semana e pouco mais. No dia de cinema tocavam sempre música e deitavam foguetes. A nossa vida também era de tal modo preenchida que não restava tempo para muito mais. Hoje deixámos de ter o cinema mas ganhámos escolas, piscinas e até temos um comboio que demora 15 minutos a chegar a Lisboa. Alverca cresceu imenso. Qual é o maior problema que gostaria de ver resolvido na cidade?Precisávamos urgentemente da construção da variante para retirarmos o trânsito de dentro da cidade.
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