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O fim do trabalho invisível do Governo Civil vai ser notado nos próximos tempos

O fim do trabalho invisível do Governo Civil vai ser notado nos próximos tempos

Carlos Catalão, militante socialista, número dois do Governo Civil de Santarém nos últimos seis anos, lamenta o fim anunciado dessa entidade

Foi durante seis anos o número dois do Governo Civil de Santarém, onde se empenhou em áreas como a protecção civil e a segurança rodoviária. Carlos Catalão, 50 anos, militante socialista de há muito, afirma-se nesta entrevista disponível para liderar o PS de Santarém e não poupa a gestão de Moita Flores à frente do município escalabitano.

O que perdeu a região por não ter sido nomeado um novo governador civil?Neste momento ainda não se nota muito essa perda, a não ser um sentimento de desorientação no próprio Governo Civil, em que os funcionários estão numa ansiedade tremenda acerca do que lhes vai acontecer em termos de trabalho. Depois há um conjunto de consequências que vão acontecer nos próximos tempos.Quais?Tem a ver com várias áreas de actuação que não eram muito visíveis. No Governo Civil, ao longo dos últimos seis anos, tínhamos vindo a fazer trabalho a vários níveis, como a protecção civil e a segurança rodoviária, que é muito complicado e que só se consegue fazer com trabalho colaborativo. Essa foi sempre a nossa postura: sentarmos à mesa as diversas entidades para que cada uma contribuísse com o seu melhor para resolver os problemas. Este trabalho não é visível mas podemos comprovar a sua importância com resultados. E isto entronca noutra questão, que é a necessidade de existir uma estrutura intermédia entre a administração central e a administração local para preencher a distância entre esses dois patamares.A Protecção Civil, por exemplo, continua a funcionar normalmente. No distrito de Santarém tivemos uma política de trabalho conjunto, pelo que neste momento não podia ser visível a nossa falta. No distrito de Santarém as estruturas estão criadas, a funcionar em pleno, e temos tido também a ajuda do Verão mais doce dos últimos anos em termos de protecção civil.Mesmo sem a coordenação do Governo Civil…Sim, neste momento. Acredito que não havendo a tal figura intermédia que possa fazer a coordenação (não estou a falar de comando) entre as diversas entidades, colocando-as todas em plano de igualdade a trabalhar, o que vai acontecer é que paulatinamente as “quintinhas” vão aparecer novamente e comprometer o trabalho na área da protecção civil. É desse papel aglutinador de vontades que se vai sentir a falta com a extinção dos Governos Civis?Sim. E vai sentir-se também no acompanhamento. Nos últimos seis anos o Governo Civil de Santarém comparticipou o investimento de qualquer coisa como 5 milhões de euros no equipamento dos bombeiros do distrito, nomeadamente fardamento para intervenção no fogo e aquisição de carros dos bombeiros. Eram investimentos que o Governo Civil comparticipava através das suas receitas próprias que agora vão ser reencaminhadas para outras instituições. No caso dos passaportes, era uma receita própria do Governo Civil. Com a atribuição dessa competência ao SEF (Serviço de Estrangeiros e Fronteiras) será este a arrecadá-las. São instituições que obviamente não vão agarrar nessas verbas e atribuí-las às corporações de bombeiros para seu equipamento.Os Governos Civis não eram estruturas paradas no tempo?São estruturas com 175 anos e que eventualmente poderão estar desactualizadas. Concordo em parte, porque tal como qualquer outra estrutura tem que haver uma capacidade de inovação, de actualização das suas competências e de capacidade de resposta às mudanças. Se a nível do país os Governos Civis tivessem feito o que o de Santarém fez nos últimos seis anos, seriam peças incontornáveis hoje e não se falaria da sua extinção mas da reformulação das suas competências.Que exemplos tem desse trabalho?Podemos medir em termos quantitativos o trabalho feito e o seu resultado, seja na área dos incêndios florestais seja na área dos acidentes rodoviários ou no trabalho feito em termos de inovação e que foi premiado a nível internacional. Orgulho-me muito do trabalho feito, em conjunto com várias outras entidades.Moita Flores considerou há uns tempos que os governos civis eram um porto de abrigo para as clientelas partidárias e que estavam “encharcados de lixeira política”. Sentiu-se ofendido nessa altura?Não fiquei ofendido porque tenho muito orgulho no trabalho feito. O sr. presidente da Câmara de Santarém tem em parte razão naquilo que diz. Estes lugares acabam por ser preenchidos por pessoas com valor mas obviamente, e isso é transversal a todos os partidos, também por pessoas que são aquilo que chamo profissionais da política. Que começaram nas juventudes partidárias e vão fazendo o seu trajecto ao abrigo destas instituições, não sendo o trabalho que desenvolvem consentâneo com as necessidades das instituições. Mas nem tudo pode ser medido pela mesma métrica. Há pessoas boas e menos boas. Revejo-me sim inteiramente numa crónica que o dr. Moita Flores escreveu há uns anos, que foi um elogio muito interessante ao Paulo Fonseca quando este saiu do Governo Civil. Foi um elogio pessoal ao Paulo Fonseca mas foi também um elogio para mim enquanto membro da sua equipa.“Tomar não soube responder aos danos do tornado”A resposta dada pela protecção civil em Tomar após o tornado que afectou esse concelho em Dezembro passado não foi do agrado do Governo Civil de Santarém. Porquê?Essa é uma mágoa que tenho da passagem pelo Governo Civil.O que correu mal nessa resposta?Num primeiro nível o todo distrital injectou meios na área afectada e teve capacidade de resposta. Depois há uma segunda fase, de reposição da normalidade da vida das pessoas. E nessa matéria houve uma diferença entre as actuações dos municípios de Ferreira do Zêzere e de Tomar. No caso de Ferreira do Zêzere as coisas funcionaram muito bem, mérito do trabalho fantástico do sr. presidente da câmara, do comandante dos bombeiros e de um trabalho ao longo do tempo envolvendo um conjunto de entidades e os cidadãos. Há ali uma consciência de protecção civil.E em Tomar o que se passou?Em Tomar, na segunda fase as coisas poderiam e deveriam ter corrido melhor, porque não há essa cultura de protecção civil. O concelho é muito grande, há diversos problemas que provavelmente exigem uma resposta diversa e ampliada.Em termos concretos o que correu mal?Não é aceitável que seja dispensada a ajuda do distrito para essa segunda fase, que é a reposição da normalidade da vida das pessoas.Foi dispensada a ajuda do Governo Civil?Do todo distrital. O Governo Civil era mais uma das entidades. E quem dispensou essa ajuda?O sr. vereador responsável pela protecção civil e o sr. presidente da câmara disseram que não era necessária ajuda e que tinham capacidade para resolver. Aí nós respeitamos o princípio da subsidariedade, em que os diversos patamares ao nível da protecção civil devem obrigatoriamente ser respeitados. Penso que hoje as coisas estarão diferentes, até porque vamos aprendendo algumas lições com o que nos vai acontecendo. É óbvio que não é aceitável, por exemplo, que quando é solicitada uma reunião da comissão municipal de protecção civil e pedido o plano de emergência municipal os responsáveis máximos dessa estrutura não saibam onde andava esse plano.“Paulo Caldas não é uma alternativa para Santarém”As próximas eleições autárquicas em Santarém, sem Moita Flores como candidato, serão menos difíceis para o PS.Não. Se calhar parte tudo da estaca zero. Como houve uma implosão dos aparelhos partidários tradicionais quase toda a gente vai partir em igualdade de circunstâncias. Irá ganhar as próximas eleições quem conseguir convencer a população que tem as melhores propostas.Rui Barreiro foi um erro de casting como presidente da câmara?Não. Acho que Rui Barreiro fez uma obra muito interessante e que o tempo tem vindo a demonstrar. Obviamente que teve erros e eu tive o cuidado de em local próprio os referir. António Carmo tem condições para voltar a ser candidato pelo PS à Câmara de Santarém?Claramente que não. Sendo um bom vereador, não tem perfil para ser candidato a presidente de câmara, pois não tem também evidenciado propostas e capacidade agregadora para que o PS possa ser uma força alternativa nas próximas eleições.O actual presidente da Câmara do Cartaxo disse que seria um desafio interessante ser candidato à Câmara de Santarém. Paulo Caldas podia ser um bom candidato?Claramente não! Tenho uma amizade pessoal pelo dr. Paulo Caldas mas entendo que é necessário fazer uma inversão completa das políticas que têm vindo a ser implementadas em Santarém e que de alguma forma foram copiadas pelo Cartaxo. O dr. Moita Flores acabou por ser o padrinho de algumas soluções que foram levadas para o Cartaxo com resultados completamente desastrosos. Portanto Paulo Caldas não é claramente uma alternativa. Santarém tem nas suas gentes um conjunto grande de personalidades que podem desenvolver aquilo que é importante para o concelho.Pode avançar alguns nomes com esse perfil?Neste momento é prematuro. O PS tem outras prioridades, como ouvir a população e saber o que as pessoas querem para a sua cidade e concelho.É considerado um homem próximo de Paulo Fonseca, actual líder da distrital socialista e também presidente da Câmara de Ourém. Paulo Fonseca não está a tocar muitos burros ao mesmo tempo?Sou amigo pessoal do Paulo Fonseca e revejo-me em quase todas as opções que tomou ao longo dos últimos anos. Quando se candidatou à Câmara de Ourém disse-lhe que era um desafio tremendo. Fez um resultado brilhante num concelho muito difícil para o PS e está a fazer um bom trabalho com uma equipa fantástica. Mas também considero que neste momento, com as preocupações da gestão da autarquia e com a presidência da região de turismo, provavelmente isso não lhe tem permitido dispensar o tempo necessário para o trabalho que a federação distrital do PS necessita. Há um trabalho enorme a fazer.Acha que Paulo Fonseca devia dar o lugar a outra pessoa?Essa é uma ilação que tem de ser retirada pelo próprio. E como Paulo Fonseca é uma pessoa extremamente clarividente, quando chegar o momento em que perceba que é necessário cooptar uma pessoa para o lugar que desempenha fá-lo-á sem qualquer problema.Um homem da contabilidade que gosta do voluntariadoCarlos Catalão nasceu a 21 de Janeiro de 1961 em Santarém, cidade onde sempre viveu. Militante socialista desde os tempos da juventude, foi autarca da freguesia de São Nicolau e na Assembleia Municipal de Santarém e dirigente concelhio e distrital do PS. Actualmente assume-se como “militante de base” mas perfila-se para concorrer à liderança da estrutura socialista de Santarém. Nos últimos seis anos foi chefe de gabinete dos governadores civis de Santarém Paulo Fonseca e Sónia Sanfona.Técnico oficial de contas e sócio de uma empresa de contabilidade, está actualmente ligado, em regime de voluntariado, a uma empresa de inserção social que actua na zona de Santarém. É casado, pai de dois rapazes e de uma rapariga e diz que “tentar fazer bem aos outros através do voluntariado” é uma das coisas que mais gosta de fazer para além da profissão.“As contas da Câmara de Santarém são um caso de estudo” Como técnico oficial de contas gostava de poder analisar à lupa as contas da Câmara Municipal de Santarém?Esta questão das contas dos municípios não é exclusiva da Câmara de Santarém. Tem a ver com o paradigma do financiamento dos municípios, onde há claramente uma sobreavaliação das receitas para poder acomodar as despesas. E isso tem levado a que os municípios tenham um descontrolo económico-financeiro completo, salvo raras excepções algumas aqui na região. As contas da Câmara de Santarém são aquilo que são e se calhar não vale a pena neste momento perder muito tempo com essa ficção, porque isso será feito no final deste mandato.Quem vier a seguir vai ter uma tarefa espinhosa?A equipa que vier a seguir vai ter um trabalho difícil. Porque isto tem a ver com equipas de trabalho e um dos erros neste momento é que existe uma pessoa mediática, muito inteligente, que não tem uma equipa para trabalhar em conjunto. É uma equipa claramente desequilibrada. Quanto às contas, no final do mandato este vai ser um caso de estudo para se saber como se consegue levar uma cidade e um concelho para a desgraça em que estão neste momento e que se vai agravar nos próximos dois anos.O presidente da câmara diz que a herança que recebeu do PS já era muito pesada e que havia dívidas escondidas, que não estavam plasmadas nas contas.Isso acontece em todos os executivos. Há trabalhos que estão em execução, que não têm os valores quantificados nas contas e que transitam de um mandato para o outro. Aquilo que as pessoas de bem e o Estado nas suas várias vertentes terão sempre de fazer é respeitar os compromissos assumidos. É óbvio que quem vier a seguir também vai descobrir contas escondidas, porque são trabalhos em execução e não são fáceis de quantificar no momento da transição entre executivos.O PS em Santarém não tem tido grande actividade nestes últimos tempos.O PS em Santarém ainda não conseguiu ultrapassar um problema que foi a derrota com a vinda do dr. Moita Flores. É um problema que existe e no futuro terá que ser alterada a forma de actuação para que o PS se possa posicionar como uma alternativa credível para as próximas autárquicas. Concordo que podíamos ter feito bem mais do que fizemos nos últimos tempos. A crítica tem sido feita nos devidos lugares, nomeadamente na câmara onde temos dois bons vereadores. E quero aqui destacar o trabalho incansável do Ludgero Mendes, que não tendo vindo da área do PS tem sabido interpretar os valores e as necessidades que o partido tem.Moita Flores diz que Santarém tem vindo a reforçar a sua capitalidade na região.Não concordo. Não é fazendo meia dúzia de festas e aparecendo algumas vezes na televisão a personalidade do dr. Moita Flores que isso se consegue. Veja-se o caso das 7 Maravilhas da Gastronomia. Se olharmos para o custo do evento e para a promoção a nível nacional com a presença em Santarém da televisão, no final veremos que nenhuma mais valia ficará para a cidade. Espero que Almeirim consiga ter resultados bastante mais palpáveis e significativos de um evento que vai ser pago por Santarém. Vamos ter eleições para a concelhia do PS nos próximos meses e o seu nome é falado como um possível candidato. Está disponível?Sou militante do PS há muitos anos e sempre estive disponível para responder aos desafios que o partido me colocou. Desde os 18 anos que ando na política. Desde a Assembleia e Junta de Freguesia de S. Nicolau até à assembleia municipal, e depois como chefe de gabinete do governador civil de Santarém, sempre estive disponível para ajudar o partido. E continuarei com essa postura. Vamos ver se se consegue reunir um conjunto de condições que permitam ter essa disponibilidade.A prioridade da próxima concelhia vai ser reconquistar a Câmara de Santarém?Não. A primeira prioridade é reconstruir o partido, para que seja uma alternativa credível para as próximas eleições.Quer dizer que o PS neste momento está destruído?Está muito enfraquecido. Mérito se calhar também do dr. Moita Flores que conseguiu implodir todos os partidos que tinham alguma representatividade. O próprio PSD está completamente desencantado com a escolha do dr. Moita Flores, como vamos ouvindo informalmente de alguns militantes. O PS já se recompôs da cisão de 2001, protagonizada por Rui Barreiro e José Miguel Noras, que esfrangalhou o partido em Santarém?Houve um caminho que levou à derrota do PS. E essa clivagem entre duas personalidades que representaram o PS, e que em diversas áreas e períodos foram importantes para Santarém e para o PS, teve consequências que permitiram que o dr. Moita Flores chegasse como um D. Sebastião que vinha salvar o concelho. O PS efectivamente ainda não se recompôs dessa cisão.
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