
Desemprego conduziu-a para o volante de um táxi
Donzília Sequeira começou a trabalhar aos 16 anos numa fábrica de confecções que entretanto fechou
Taxista adquiriu viatura para passageiros com mobilidade reduzida para dar melhores condições a cliente que acompanha há sete anos.
Apesar de actualmente ser comum as mulheres conduzirem automóveis ainda existe muita gente que estranha ver uma mulher ao volante de um táxi. Que o diga Donzília Sequeira, 34 anos, taxista e sócia-gerente dos Táxis Glória desde 1997. No entanto, há quem até marque as suas consultas médicas consoante o horário de Donzília Sequeira só para serem conduzidos pela taxista de Glória do Ribatejo, concelho de Salvaterra de Magos. “Algumas senhoras, mais velhas, não vão a lado nenhum se não for eu a levá-las. Este meio é muito pequeno e ainda existe o receio da má-língua por isso preferem que seja eu a conduzi-las”, explica.Donzília Sequeira começou a trabalhar aos 16 anos numa fábrica de confecções. Depois de casar ajudava o marido no seu trabalho de taxista. Donzília já possuía, na altura, carteira profissional de motorista de táxi. Quando a fábrica fechou ficou à frente da empresa de táxis do marido que, entretanto, arranjou emprego como camionista. “Decidimos assim porque quando fiquei desempregada era mais fácil arranjar emprego para homem do que para mulher. Foi a melhor decisão que tomamos”, conta a O MIRANTE.O negócio cresceu. O casal começou com um automóvel e actualmente possui cinco. Até ao final do ano vai chegar mais um para transporte de passageiros com mobilidade reduzida. Donzília diz que quando concorreu ao concurso da autarquia para ficar com um táxi para passageiros com mobilidade reduzida foi a pensar no Tiago. Um jovem da Glória do Ribatejo que sofreu um acidente automóvel aos oito anos e ficou paraplégico. Sete anos depois do acidente continua a ser Donzília quem acompanha Tiago e a família nas consultas médicas. “Levei o Tiago e a família todos os dias à fisioterapia em Alcoitão e às consultas médicas a que precisavam de ir. Quando surgiu esta oportunidade de ficar com este táxi quis fazê-lo pelo Tiago que merece ter mais conforto nas viagens que faz de carro. É uma família que está no meu coração”, confessa.Noventa e cinco por cento dos serviços dos Táxis Glória são para companhias de seguros com quem a empresa trabalha. Pessoas que sofrem acidentes na estrada ou que ficam com as suas viaturas avariadas em viagem accionam o seguro. Se for uma companhia com contrato com a Táxis Glória ligam-lhes e eles levam as pessoas ao seu destino. Viajam por todo o país e até já tiveram que deslocar-se ao estrangeiro. Santiago de Compostela (Espanha) está entre os destinos mas a viagem mais longa foi a Estrasburgo, em França. “Saí daqui à uma e meia da manhã e tinha que estar às três da tarde em Estrasburgo. Foi o mais longe que fui. Foi inesperado e cansativo mas fez-se bem”, recorda.Na Táxis Glória um dia nunca é igual ao outro e é impossível dizer que a agenda não vai sofrer alterações. Na noite anterior Donzília passa os serviços aos colegas mas podem surgir imprevistos que obrigam a alterar toda a agenda. Sempre que levam as pessoas, sobretudo as mais velhas, às consultas médicas ajudam-nas a preencher as fichas e encaminham a pessoa para o piso em que se realiza a consulta. Esperam e no final trazem-nas de volta a casa. “As pessoas sentem-se mais seguras e confiantes se esperarmos por elas”, diz.Donzília Sequeira costuma dizer que os seus táxis são confessionários tendo em conta a quantidade de pessoas que “desabafam” os seus problemas durante as viagens. Mesmo as pessoas que não conhece. Ser taxista não era uma paixão de criança mas, agora, não se imagina a fazer outra coisa. Gosta de conduzir, viajar e comunicar com pessoas. O que menos gosta é de ficar fechada no escritório a fazer as contas da empresa. Em Maio deste ano foi operada à omoplata e teve que ficar vários meses de baixa. Uma ‘tortura’ para quem gosta de andar na rua a trabalhar. A melhor notícia que lhe podiam dar recebeu à pouco tempo: Poder voltar a trabalhar.A empresária diz que o negócio já viu melhores dias mas que o trabalho vai aparecendo, por isso, diz, não se pode queixar. Nota que as pessoas têm mais dificuldades em pagar. “Algumas pagam no fim do mês mas não tenho ninguém que me deva dinheiro”, refere. Nunca teve nenhum problema de insegurança durante o trabalho e à noite é o marido quem faz os serviços que aparecem. No entanto, se a taxista conhecer bem as pessoas não se importa de ir.

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