
No meu último dia de trabalho na Ferro chorei
Luís de Almeida, 48 anos, secretário da Junta de Freguesia da Castanheira do Ribatejo, Castanheira do Ribatejo
Luís de Almeida, 48 anos, dedica todo o tempo livre à Junta de Freguesia da Castanheira do Ribatejo, concelho de Vila Franca de Xira, onde desempenha o cargo de secretário, já que está actualmente desempregado. A perda dos pais quando ainda era uma criança obrigou-o a crescer mais depressa. Desde pequeno que gosta de participar em todas as actividades que se vão organizando na terra. Não esconde que um dia gostaria de ser presidente da junta da Castanheira do Ribatejo.
Fiquei órfão quando ainda era criança. Perdi a minha mãe aos 10 anos, vítima de doença terminal. Os filhos tinham de andar de luto durante quatro anos e quando eu me preparava para deixar a roupa preta, morreu o meu pai. O meu irmão ficou como meu tutor. Nestas situações as pessoas costumam dizer que “imaginam como é”. Não imaginamos nada. É muito duro ir para a escola e ter de escrever o nome do pai e da mãe, acrescentando à frente “falecido”. Na quarta classe eu e mais dois terços da turma chumbámos porque não oferecemos uma prenda à professora. Na altura não existia muito dinheiro. Só quando entrei no 5º ano no curso de administração e comércio é que os estudos começaram a correr pior. Era o único rapaz no meio de uma turma de 25 raparigas. Metade puxava-me para jogar matraquilhos e a outra para o snooker. Tinha 18 anos quando fui para o hospital de Vila Franca dado quase como morto. Estava a jogar futebol federado na Juventude da Castanheira e num dos treinos tínhamos de ir a correr com a máxima velocidade e ao apito do treinador começar a correr de costas. Eu apoiei mal o pé e caí. Fui transferido para o hospital de Santa Maria, em Lisboa, e verificou-se que tinha sido apenas um trauma. Fui habituado a dizer poucas vezes “não”. Sempre andei metido em tudo o que acontecia cá na terra. Lembro-me de ajudar a organizar campeonatos de carica, de peão, de basquetebol e mesmo uns jogos olímpicos. Chegámos a criar umas medalhas com caricas onde prendíamos uma fita. Também criamos as matinés, uma espécie de discoteca, onde passávamos música e trocávamos discos. Conheci a minha esposa numa matiné. Tinha 18 anos quando uma amiga em comum me apresentou a Elvira. Ela estava mascarada e eu perguntei-lhe como é que se chamava. Ela não respondeu, escreveu um “L” e virou a folha. Eu não consegui adivinhar o nome, mas fomos logo dançar. Em 1986 acabámos por casar e hoje temos duas filhas.Deliro com óvnis. Quando era jovem não perdia um programa de 15 minutos que passava na rádio sobre óvnis. Gravava os programas e fazia recortes de jornais sobre o assunto. Mesmo hoje devoro tudo o que esteja relacionado com a criação do universo. Penso que a raça humana não pode ser a única a existir para estarem aqui dois seres inteligentes a conversar.No meu último dia de trabalho na Ferro chorei. No dia 30 de Setembro de 2010, quando cheguei a casa e me sentei no sofá senti-me desamparado depois de 30 anos a trabalhar. Entrei na empresa aos 17 anos para trabalhar com computadores e em 2006 já era chefe de secção. De algum modo senti-me traído e percebi que não podemos dizer sempre “sim” a tudo. Devemos ser educados, mas também politicamente incorrectos. Não consegui ainda arranjar emprego e dedico a maior parte do meu tempo à junta, mas sinto falta de um ritmo de vida mais acelerado. Não está afastado do meu pensamento ser um dia presidente da junta. Depois de passar pela comissão de Festas de S. João e de ter sido vice-presidente da direcção da Associação de Promoção Social, convidaram-me em 1997 para entrar na política. Sempre me candidatei como independente e há uns três anos é que passei a ser militante do PCP. Não sei se serei o sucessor do actual presidente, não conversamos sobre isso e eu próprio ainda não pensei muito no assunto. Mas também não posso negar que gostaria de um dia vir a ser presidente, tendo em conta o meu percurso na Castanheira. Um dia quero olhar para trás e pensar que tudo valeu a pena. Os maus momentos que passei tão cedo levaram-me sempre a tentar ajudar os que me rodeavam. Tento sempre fazer com que as outras pessoas estejam felizes. Um dia quero ter a certeza que valeu a pena ter crescido e vivido na Castanheira do Ribatejo. Eduarda Sousa

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