
Ceboleiros das Caldas mantêm tradição da FRIMOR
Rio Maior recebe há muitos anos a Feira Nacional da Cebola mas produtores vêm todos do concelho vizinho
“Se a menina conseguir encontrar aqui um ceboleiro de Rio Maior, eu ofereço-lhe isto tudo!”, comenta José Marques, em tom de brincadeira, apontando para o monte de cebolas que tenta, com algum custo, vender na Feira Nacional da Cebola, em Rio Maior. O certame, que se realizou entre 31 de Agosto e 4 de Setembro, voltou a animar a cidade com música, tradição, comércio e artesanato colocando, mais uma vez, a cebola no lugar de rainha. A cebola mas não a de Rio Maior.“Há 44 anos que vendo nesta feira e há pelo menos 25 que não há ceboleiros de Rio Maior. Aliás, mesmo antes disso contavam-se pelos dedos de uma mão”, acrescentava o habitante de Alvorninha, concelho das Caldas da Rainha, afirmando, com toda a certeza, que os vendedores provêm todos dessa zona. “Na verdade nós é que vamos mantendo isto!”, refere José Sedas, também ele natural da freguesia caldense.Um breve passeio pelas bancas dos produtores de cebola provaria a qualquer um, com relativa facilidade, que José Sedas tinha razão. Entre 36 ceboleiros nenhum pertence ao concelho de Rio Maior e, muito embora não exista falta de produto para venda, ao quilo ou em sacas, Alvorninha é a legitima “terra da cebola”.Para a organização da FRIMOR 2011 tal facto não é estranho ou sequer condicionante. “A cebola continua a ser a rainha da feira, será sempre o mote para o evento”, explica Armando Monteiro, que há mais de 25 anos participa activamente na construção do certame. Para o funcionário da Câmara de Rio Maior as expectativas foram superadas este ano. “O número de feirantes e de inscrições para os stands aumentou e, para além disso, recebemos a visita de muita gente!”, conclui. À tradicional venda de cebola e aos espaços ligados às actividades económicas do concelho, a FRIMOR juntou este ano, por exemplo, tabernas típicas, exposição de cavalos e mostras de carnes e vinhos. A animação assumiu, também ela, papel central na feira. Toy, Chave d’ouro ou Canta Brasil alegraram as noites, garantindo o espírito da festa. “A feira tem cada vez mais dinamismo” acrescenta Armando Monteiro, garantindo que a câmara continuará a tentar “levar a feira às pessoas, à cidade.” “A tradição já não é o que era!”Com mais de 200 anos de existência a Feira da Cebola representa, para a cidade de Rio Maior, tradição. Há mais de um ano que Ricardo Rosário analisa/pesquisa a origem e as características do evento e, com base nisso, afirma que o evento mudou completamente ao longo dos tempos. “Na época, o certame tinha o nome de Grande Feira Anual e era espalhado por toda a, na altura, vila, abrangendo múltiplos sectores económicos”. Desde tecedeiras a vendedores de gado ou sal, tudo tinha o seu lugar na feira anual.Apesar dos seus trinta e poucos anos, Ricardo parece conhecer a antiga feira como poucos. A véspera do certame, conta, era um dos dias mais importantes. “Chegava gente de todo o país, que acabava por pernoitar perto da vila. Os habitantes de Rio Maior iam receber os recém-chegados e essa era uma noite de festa”. A cebola, explica ainda, não era elemento central, mas foi o que resistiu ao tempo, até porque “muito do comércio dessa altura hoje não faria qualquer sentido”.Entre ceboleiros, mais que vender, recordam-se esses outros tempos. “Era tudo tradicional mas escoava-se muito mais produto, as pessoas tinham orgulho de vir à feira de Rio Maior, ficavam felizes por comprar aqui as suas cebolas”, refere a filha de um dos comerciantes. “As barracas eram feitas com sacos de linhagem e dormíamos em palha de ervilha. Era tudo muito diferente!”. Também José Sedas, 71 anos, partilha dessa opinião. “Já venho à FRIMOR deste pequenino, com o meu pai. São pelo menos 60 anos de Feira da Cebola! Nessa altura era muito melhor, vendia-se de tudo e havia gente de todo o lado. Foram acabando com isto aos poucos”, lamenta.Carlos Vieira, habitante de Rio Maior, partilha o sentimento de saudade. Aos 63 anos, conhece bem a sua cidade e melhor ainda a FRIMOR, certame que acompanha desde jovem. Entre risos trocam-se dois dedos de conversa e, se no que toca a política ou futebol não existe unanimidade, o mesmo não acontece em relação à Feira da Cebola. “Está tudo completamente diferente! A feira hoje não tem nada a ver com o que era! Havia comércio por toda a cidade e hoje nem um recinto para a feira existe. A FRIMOR juntava a feira do sal, da madeira, do gado… Havia um pouco de tudo: faqueiros, trabalhos de olaria, venda de roupa em segunda mão. A feira era interessante e agora já não o é”.

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