uma parceria com o Jornal Expresso

Edição Diária >

Edição Semanal >

Assine O Mirante e receba o jornal em casa
31 anos do jornal o Mirante
“Prefiro não saber para já se sou o candidato para evitar a pressão”

“Prefiro não saber para já se sou o candidato para evitar a pressão”

João de Carvalho disponível para encabeçar lista da coligação e conquistar Câmara de Vila Franca de Xira

João de Carvalho está disponível para ser candidato à Câmara Municipal de Vila Franca de Xira pelos partidos da Coligação Novo Rumo (PSD, CDS-PP, MPT e PPM) nas próximas eleições autárquicas. Para evitar a pressão foge a uma campanha eleitoral antecipada. Diz que a sua nunca será uma candidatura de direita. É uma proposta diferente para Vila Franca de Xira a pensar nas pessoas e na cultura porque o tempo do cimento já lá vai. Vive em Alverca há 27 anos, é casado e tem dois filhos. É vereador da cultura a tempo inteiro, uma pasta que criticou duramente na última campanha eleitoral. Gere-a de mãos dadas com a maioria socialista. É um actor que está a aprender a ser autarca. Por isso esta é uma entrevista que está longe de ser politicamente incorrecta.

Está disponível para ser o candidato do PSD à Câmara Municipal de Vila Franca de Xira nas próximas eleições autárquicas?Estou disponível tal como tinha prometido às pessoas na primeira eleição. Isto caso os partidos [da Coligação Novo Rumo (PSD, CDS-PP, MPT, PPM)] assim entendam. Está disponível ou é o candidato?Sinceramente prefiro não o saber. Pelo menos para já. Isso obrigaria a uma grande pressão. Foi uma das coisas que me custou muito nas últimas eleições autárquicas. Preciso de trabalhar sem estar preocupado com questões eleitorais e com entrevistas sobre como fazia ou deixava de fazer. Prefiro estar neste limbo e até pedi aos partidos que não o anunciassem. Mas tem noção de que um presidente de câmara está sujeito a uma grande pressão.Se se der o caso de ser candidato e de as pessoas acharem que posso fazer um bom presidente de câmara só tenho que estar preparado. Tenho muita coisa que aprender. Tenho aprendido muito ao longo dos últimos dois anos. Se for eleito darei tudo o que tiver. Também já disse que nunca farei promessas vãs. É um ensinamento do meu pai: não prometas aquilo que não sabes se podes cumprir. Como é que vai fazer campanha eleitoral sem prometer?Há coisas que tu podes prometer às pessoas.Por exemplo?Quero dar prioridade à cultura. As cidades e vilas que optaram por um incremento das actividades culturais acabaram por ter um incremento económico. E já não estou a incluir as grandes empresas. Nos próximos anos temos que fazer acontecer coisas que não custem balúrdios de dinheiro porque não o há mas que sejam atractivas. É preciso que aconteçam coisas na rua. É preciso que uma pessoa esteja no café e veja uma banda tocar. Em Vila Franca de Xira existem museus de dimensão nacional e no entanto esgotos correm para o Tejo sem serem tratados. Não é uma visão de terceiro mundo? Não gosto de meter-me no trabalho dos outros mas veja o que foi feito na Serpa Pinto a este nível. Estamos no bom caminho para levar todos os esgotos para as estações de tratamento que já temos no concelho. Antes de se pensar num museu do neo-realismo, por exemplo, com todo o mérito que tem, não deveria ter sido salvaguardada esta questão primária?O Museu do Neo-Realismo teve uma candidatura que não servia para esgotos e como tal e muito bem a senhora presidente decidiu aproveitar e fez o museu do neo-realismo. Como é que vai gerir a sua campanha eleitoral se teima em defender o que foi feito pelos outros partidos?Vou usar uma linguagem de costureira mas a verdade é que em cima do pano é que talhas a obra. O POLÍTICO É SEMPRE UM BOM ACTOREste é um momento de aproveitar porque com a saída da socialista Maria da Luz Rosinha o concelho poderá virar à direita...Virar à direita? Considero-me um homem extremamente preocupado com os problemas das pessoas. Sofro com isso. O que é a direita e a esquerda?Os partidos têm obviamente diferentes ideologias.A esquerda é o contraponto do poder. Quem está no poder é sempre a direita. Quer seja um partido de esquerda ou não. O contraponto nunca é a direita. Imagina que está o Partido Comunista no poder. É a direita. Chamavas-lhe os social-fascistas. Estou na brincadeira... Não concorda que se faça essa distinção?Não concordo. O homem é um ser individual que aprendeu a viver em sociedade. Cada um de nós tem da política e de qualquer outra coisa a sua ideia muito própria. A verdade é que a política de esquerda de que falas falhou no mundo inteiro porque se esqueceu do indivíduo. Pegou na massa e achou que a massa era toda igual mas não é. Temos que encontrar uma outra ordem no mundo. Os assuntos sociais e da defesa dos trabalhadores não são exclusivo da CDU...Somos todos trabalhadores. Não nos esqueçamos que determinadas empresas por terem tomado políticas excessivas por exigências sindicais ficaram de pantanas. Se não fosse uma pessoa conhecida acha que teria sido escolhido para a lista?Seria mais difícil chegar lá. E será uma vantagem ou desvantagem? Muitos o apontam como bom profissional das artes mas não necessariamente bom político.Diz-me lá o nome de um que tenha nascido político. Hitler? Estaline? Acho que não. Um dos melhores presidentes dos Estados Unidos com todos os seus defeitos chamava-se Ronald Reagan. Foi o homem que em termos sociais mais fez pelos Estados Unidos. Era actor.Em 2005 também disse em entrevista que Maria da Luz Rosinha é uma boa actriz. Continua a ter essa opinião?Continuo. O político é sempre um bom actor. Ela tem-se esforçado por cumprir o que promete. Às vezes não é fácil. Todos nós em actos eleitorais dizemos coisas que depois nos deviam fazer morder a língua. Tinha dito que neste concelho não havia actividade cultural. Há muita actividade cultural. Mordo a minha língua. Isso não é dizer aos eleitores que o PS está bem a governar o concelho?Não. Pecamos na actividade cultural por falta de divulgação. O marketing representa 30 por cento do investimento. Todos nós nos lembramos dos cartazes de candidatura que diziam que a cultura em Vila Franca dava vontade de rir. Já deu a mão à palmatória mas como aceitou partilhar poderes depois de ter uma campanha tão agressiva em relação ao PS?A anterior tinha sido bem mais agressiva. Uma das coisas que pedi foi para não entrar em campanhas pessoais. Não aceito coisas do tipo “polvorosa”. O insulto pessoal estraga a relação total e nunca sabemos, como aconteceu neste caso, quando temos que trabalhar em conjunto.Artes e Ofícios é proposta para reavivar profissões esquecidasO que quer fazer em Vila Franca de Xira que ainda não tenha sido feito?Dar maior visibilidade às actividades culturais do concelho. O desenvolvimento de um concelho pode fazer-se só à base dessa componente?Pode. Nós apoiámo-nos durante muito tempo no cimento e na construção que estão hoje praticamente a zero. Para um concelho que tem prédios devolutos como o nosso construir é estar a empatar dinheiro. Tu tens que atrair as pessoas de alguma forma. É pela cultura.Mas como podem as pessoas que vivem neste concelho usufruir da cultura se muitas trabalham em Lisboa e nem tempo para os filhos têm?Temos que criar esse hábito nas pessoas. O alimento do espírito é tão importante como o alimento do estômago. A ida a um espectáculo não põe comida na mesa.Não põe comida na mesa mas dá abertura de espírito. Assistir a espectáculos impede-nos de embrutecer. E isso é tão importante como ter a salsicha ou o bife. O estômago não enche mas o espírito fica cheio. Um povo que não tem espírito aberto nunca mais anda. A este nível mais social o que gostaria de fazer?Poderíamos criar bolsas de trabalho para as pessoas e uma escola de artes e ofícios. Não se trata de um politécnico ou de uma escola superior. Estou a falar de marcenaria, soldadura, carpintaria, serralharia, vidraria, cristalaria...É regressar um pouco ao passado e àquilo que se perdeu?Nós perdemos as escolas industriais. Quantas empresas cá e fora estão a requisitar soldadores de precisão que nós não temos suficientes e que são bem pagos?A que mais quer dar prioridade?Gostaria muito de ver o Teatro Salvador Marques, em Alhandra, recuperado. É importante que não o deixemos cair. Não é obrigatório que a recuperação seja feita de uma vez até porque nesta altura não há dinheiro. A cidade tem muitos prédios devolutos. Como resolver este problema?Não é fácil porque a maior parte dos prédios devolutos nem habitados estão. Muitas pessoas não podem sair ainda que provisoriamente porque não têm onde ficar mas também há muitos prédios cujos proprietários não o arranjam porque nunca ganharam dinheiro para isso. Em Alhandra, por exemplo, a qualidade de vida melhorou com o passeio ribeirinho e na avenida a maior parte dos prédios mais antigos está a ser recuperada por jovens que querem viver ali. Pena tenho que não tenhamos acesso directo ao rio, em Vila Franca de Xira. Esse já não é só um problema nosso. Tem também a ver com a Refer e com passagens superiores que às vezes avariam. Mas poderiam ser feitas passagens inferiores à linha para devolver o rio às pessoas...É natural que a Refer vá levantando problemas porque isto não é barato. Mais tarde ou mais cedo vamos ter que descobrir uma solução para reabrir Vila Franca ao rio onde existe um jardim tão bonito. Seja por baixo ou por cima. Tenho sempre medo do complexo do Terreiro do Paço. Em Vila Franca de Xira quando o rio inunda o comboio pára. O que mudaria no colete encarnado?O cortejo das charretes seria bonito de recuperar mas apostaria sobretudo na divulgação. Publicitar a festa dentro da cidade, onde todos sabem que vai realizar-se, não serve de nada mas se colocarmos cartazes na segunda circular passa a ser mais visível. Azambuja andou a espalhar cartazes por Lisboa inteira e viste que quantidade de pessoas lá tinha? É preciso que as pessoas de fora venham. Se a festa só é feita cá para dentro não serve.“Um bigode funciona como um cão”Quinze perguntas e quinze respostas para conhecer melhor o actor-autarcaComeçou a usar samarra só depois de encarnar o alentejano dos “Malucos do Riso”?Não. Usei sempre samarra e até usei capote alentejano. O meu pai [Ruy de Carvalho] ofereceu-me o primeiro. Aos 13 anos ia para a escola com um capote alentejano vestido. Era um lisboeta que usava botas de prateleira e capote alentejano. Nunca tive problemas com os colegas (risos). Também era maluco o suficiente para ir de kaftan para a praia. Tipo Lawrence da Arábia. Chegava à praia com uma coisa esvoaçante até aos pés e os meus amigos fartavam-se de rir. Hoje não o faço por vergonha mas de vez em quando ainda me apetecia vesti-lo. O que o faz rir verdadeiramente à gargalhada?O inesperado. Acho que é a única coisa que me faz rir à gargalhada solta. Ou então o trabalho de alguns colegas meus que são extraordinários actores. Ria à gargalhada com o Vasquinho, mas também com o António Feio e com o Zé Pedro, bem como com o José Raposo. Também há uma coisa que me faz rir à gargalhada: a felicidade das pessoas. E o que o deixa realmente triste?A miséria. Não só a miséria física mas a miséria intelectual. Nunca te aconteceu chegares ao pé de uma pessoa e perceberes que não vale a pena começar uma conversa com ela? É o vazio. Se passares fome isso faz-me pena. Dá-me vontade de ir buscar comida. E há muita gente nesta situação. Mas falo da miséria intrínseca nas pessoas. Aquela que tu não consegues aliviar. Costuma chorar?Choro. Não tenho qualquer problema. Acho que tem que ver com a sensibilidade. Eu chorava no cinema e às vezes ia com amigas que ficavam com vergonha. Houve um dia em que depois de acabar o filme fiquei lá dentro. Não conseguia sair. Foi no filme “O Campeão” que é sobre a relação de pai e filho. Há pais que não são pais mas eu sou pai. Doeu-me muito. Fartei-me de chorar.Como gere a popularidade e os ciúmes da esposa?Converso com toda a gente que me aborda na rua, razão pela qual a minha mulher já se habituou a que não é necessário ter ciúmes. Ela já me diz na brincadeira que quando vou à rua comprar meia dúzia de carcaças demoro três horas. É verdade. Não nego nunca uma palavra a quem se dirige a mim. A minha mulher já deixou de ter ciúmes, o que não quer dizer que quando me atraso um bocadinho ela não me mande uma mensagem a perguntar se uma tourada demora assim tanto… (Risos). É verdade que lava a loiça sempre que bebe um café no museu?Gosto de lavar a loiça. Gosto de mexer em água. A água só não lava as más línguas… Raramente ponho os tachos na máquina de lavar. Não me custa nada e às vezes sabe-me bem.E se de repente, à noite, tivesse que preparar uma refeição. O que faria?Esparguete. Eu e a minha irmã quando vínhamos das nossas noitadas chegávamos da discoteca e cozíamos esparguete. Al dente, com um pouco de manteiga. Sou limpinho na cozinha. Não sou daqueles homens que vão tirando tachos e vão deixando tudo amontoado. Uso e lavo. Sou muito noctívago. Não que faça noitadas fora. O hábito de estudar para o teatro é sempre à noite. Habituei-me a ter esse tempo e ainda hoje não me consigo desfazer disso. É quando sinto o espírito mais aberto para trabalhar. Já não tenho paciência para pôr a água ao lume. Como uma bolacha ou uma tosta. É uma pessoa religiosa?Sou crente e acompanho uma missa do princípio ao fim até porque fui acólito. Cantei na paróquia de São Domingos de Benfica e em Benfica, na Igreja de Nossa Senhora do Amparo. Aproximou-se da Igreja por livre iniciativa?Só fiz a primeira comunhão quando tinha 15 anos de idade. No dia em que fiz o meu crisma os meus pais casaram pela igreja a meu pedido. Só eram casados pelo registo. Pensou em entrar para o Seminário?Em todas as alturas em que nós, homens, temos um desgosto de amor pensamos em entrar no Seminário (risos). A morte é um assunto que o preocupa?Penso nela como todos nós pensamos mas acho que é uma coisa natural. É tão natural como nascer. Sou crente e acredito na reencarnação. A única coisa que me assusta é o caminho até à morte. O que todos pedimos é que seja rápida e indolor e já agora perceptível para que a gente saiba quando lá chegar.Escolhe as próprias roupas?Escolho sempre as minhas roupas mas nem sempre acerto (risos). A minha mulher é que tem que alertar-me quando a gravata não fica bem com a camisa. Quando era actor ganhava sete mil euros. Como autarca a tempo inteiro ganha menos? Onde teve que cortar?Antigamente trocávamos de carro quase todos os anos. Agora já não é assim.A partir de que altura decidiu que iria usar o bigode, ligeiramente retorcido?(Risos) Isto é como ter cão e não ter. Um bigode funciona como um cão. Tu arranjas um petit noir (raça pequena) e não tens um cão. Se tens um Serra da Estrela tens um cão. Ou tens um bigode como deve ser ou não tens. Os restantes membros do executivo, incluindo a presidente, dizem que é um bigode à monárquico. Pois seja. Seria capaz de o cortar só para ganhar as eleições?Já cortei tantas vezes… O alentejano precisa de bigode. Assim escuso de estar a colar um postiço. A verdade é que já pensei em cortar mas depois não sei se as pessoas me reconheceriam (risos).
“Prefiro não saber para já se sou o candidato para evitar a pressão”

Mais Notícias

    A carregar...