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“Sempre tive de fazer pela vida”
Ilídio Lopes, presidente da Escola Superior de Gestão de Santarém, não esquece as origens humildes quando fala de uma carreira profissional construída a pulso
Chegou a professor da Escola Superior de Gestão e Tecnologia de Santarém (ESGTS) por mero acaso, após ler um anúncio num jornal enquanto esperava o barco em Cacilhas para atravessar o Tejo rumo a Lisboa, onde dava aulas numa universidade privada. Após 14 anos como docente chegou a presidente da instituição, que nos últimos anos tem vivido alguma conflitualidade interna. A pacificação da comunidade académica é um dos seus objectivos. Outro é abrir a escola ao mundo. Acredita que vai concretizá-los.
Se eu fosse um aluno hesitante em escolher a escola onde estudar, que argumentos usaria para me tentar convencer a optar pela ESGTS?Perspectivo uma escola muito mais aberta ao exterior. Estou a pensar lançar um plano de formação profissional complementar que vá de encontro às necessidades da comunidade envolvente. A nossa oferta educativa está a melhorar. Defendo uma escola interventiva, através de cooperação com diversos organismos nacionais e internacionais. Quando aqui cheguei há 14 anos a ideia que me era transmitida era de que tínhamos de ensinar e formar para o tecido empresarial regional. Nunca concordei muito com isso.Porquê?A formação tem de ser de qualidade, sólida, estruturada, não a posso nivelar pelo micro. Tem que haver alguma exigência. Aquela ideia de que o aluno acabava o curso e ficava a trabalhar aqui por Santarém para mim nunca fez muito sentido, se calhar também porque vinha de Lisboa. E hoje estou convicto que essa realidade desapareceu. Hoje a escola tem de ser interventiva a nível nacional, tem de ser uma referência no domínio das suas competências. E isso passa também pelo plano internacional. A escola tem estado fechada sobre si mesma?Exactamente, a nível internacional tem feito pouco. Foram feitas coisas boas mas houve aspectos estruturantes que têm sido um bocadinho descurados. Como analisa o clima de guerrilha interna que nos últimos anos se viveu na ESGTS?Entrei aqui há 14 anos e infelizmente sempre me lembro de alguma fricção entre partes. A vantagem que tenho é que vim de fora, não conhecia absolutamente ninguém em Santarém e tinha a mente aberta e limpa. Ao longo destes anos procurei sempre manter-me equidistante desses grupos. Tentei sempre alhear-me desse clima de guerrilha e muitas coisas passavam-me ao lado ou não as percebia. Infelizmente neste tipo de instituições há sempre pessoas que elegem o conflito e a hostilização quase como um modo de vida. A gestão passa também por saber lidar com isso.O seu antecessor, Jorge Faria, tinha fama de ser uma pessoa conflituosa.Cada pessoa tem o seu estilo de gestão. Terá um feitio que não é fácil. Mas também foram feitas coisas boas no seu mandato. As minhas relações com Jorge Faria melhoraram bastante desde que fui eleito coordenador do departamento de contabilidade e finanças. Havia muitas coisas em que não concordávamos, tínhamos algumas discussões, mas nunca deixei de fazer algo e ele nunca me dificultou o trabalho. E acabou por integrar a lista dele à Assembleia de Escola como número dois.O ano passado ponderei dar um contributo diferente à escola mas não me passava pela cabeça uma candidatura à direcção. O que ponderei foi candidatar-me ao Conselho Técnico-Científico. Então como é que aparece como presidente da escola?Comecei a receber apoios dos vários quadrantes e nesse contexto surge a tal lista para a Assembleia de Escola (AE). O professor Jorge Faria foi o primeiro a abordar-me para integrar a lista para a AE. Mas não me passava pela cabeça a candidatura a presidente. Foi a partir daí que as pessoas me associaram a Jorge Faria...Integrava a lista dele como número dois... Pois integrava, mas antes integrei uma lista adversária da dele para a direcção do Politécnico de Santarém. Foi surpresa para si Jorge Faria ter abdicado da recandidatura à ESGTS?Não. Desde Outubro o prof. Faria nunca manifestou assertivamente a intenção de uma eventual recandidatura. Também não afastou a possibilidade. No início de Janeiro começou a apresentar algum desgaste e aí começou a dizer que não queria continuar. Mas isso não implicou que eu tomasse essa decisão. Só que apareceram pessoas de vários quadrantes a pressionar-me para me candidatar porque era a pessoa que podia gerar algum consenso interno, para acabar com esse clima de conflitualidade e acabei por entregar a candidatura. Procurei apresentar uma lista perfeitamente transversal. Foi o primeiro sinal de agregação. A oferta educativa da ESGTS está ajustada à realidade da região e do país?Temos de repensar a nossa oferta educativa. Sem dramas temos de reflectir se as cinco licenciaturas são as adequadas e se faz sentido continuar a aposta em determinado tipo de cursos.Nomeadamente?O curso de administração pública. Tem uma procura bastante reduzida. E depois há a questão de tecnologia. Temos de repensar, mas sem dramas, se queremos enveredar também pela via da tecnologia ou se a devemos abandonar.E qual é a sua opinião?Penso que a vertente da tecnologia é importante. Mesmo ao nível do politécnico não temos uma grande oferta. Mas também é verdade que para termos uma oferta sólida há que ter um conjunto de infraestruturas, nomeadamente laboratórios. Esta é uma discussão bastante séria a fazer.Faz sentido que na região haja cursos superiores de gestão nos politécnicos de Santarém e de Tomar e ainda no ISLA de Santarém?Não sei se são cursos a mais ou não. Diria que os cursos têm de se diferenciar para constituírem uma mais valia. Essa é a nossa preocupação, oferecer um curso de gestão forte, reestruturando-o. A captação de alunos maiores de 23 anos, através de um programa de candidaturas específico, é uma boa alternativa para as escolas não perderem alunos nem receitas?Tenho algum receio que estejamos a retroceder e choca-me como cidadão que o acesso ao ensino e à formação esteja dependente das capacidades financeiras de cada um. Podemos estar a correr o risco de regressar aos tempos do ensino elitista.O crivo de selecção desses alunos é pouco apertado. Em nome dessa democratização, todos nós de alguma forma descemos a exigência. O maiores de 23 é um bom programa, que traz à escola pessoas a quem a vida nunca deu uma oportunidade. Pessoas cheias de vontade, para quem isto é a concretização de um sonho de vida. O sistema deve dar-lhes uma oportunidade. Mas já não concordo que as instituições olhem para esse programa apenas como uma oportunidade de financiamento. É verdade que não temos meios, mas estamos a misturar as coisas. Não deve ser fácil gerir uma escola numa época destas, em que as medidas de contenção são anunciadas praticamente todos os dias?Não é fácil. Temos para 2012 uma redução de cerca de 10% em relação ao orçamento deste ano. O dinheiro que vem do Orçamento de Estado não chega sequer para pagar ao pessoal. Temos de recorrer às receitas próprias. E com esta redução as coisas tornam-se mais complicadas.Contra a fusão dos politécnicosA existência de dois politécnicos na região tem sido questionada. Qual a sua opinião sobre o assunto?A resposta é bastante complexa. Penso que existe espaço na malha de ensino superior para as duas instituições, porque ambas têm valências que se podem complementar. Não sou adepto de uma fusão entre as instituições mas sim eventualmente de um consórcio entre as duas, em que essas valências possam ser optimizadas e exploradas. Mas existe outro aspecto que não tem sido muito falado. Quando falamos de eventuais consórcios, isso não passa obrigatoriamente por um consórcio a norte. A minha perspectiva é que a solução poderá não ser a norte mas provavelmente a sul.Porquê?Porque considero que o distrito de Santarém terá uma área de abrangência muito mais forte a sul e estou-me a lembrar concretamente da Universidade de Évora. Porque não? São duas instituições já com alguma história, com valências próprias, e por algum trabalho que já temos desenvolvido em conjunto penso que essa optimização poderia passar por uma solução a sul e não a norte. Isto é uma opinião meramente pessoal. A não criação de uma universidade no Ribatejo foi uma oportunidade perdida?A criação da universidade do Ribatejo poderia constituir uma mais valia para o distrito. Ainda que as especificidades do ensino universitário e politécnico tenham objectivos muito próprios. São dois conceitos diferentes embora a universidade pudesse trazer outras potencialidades. Se foi uma oportunidade perdida? Eu diria que teria sido um caminho diferente. Uma forma de projectar e dinamizar o próprio distrito a nível nacional e internacional. Um aluno aplicado cujo lema é o trabalhoIlídio Tomás Lopes nasceu no dia 18 de Janeiro de 1966 na aldeia do Souto, concelho de Abrantes. Viveu com os pais até aos 18 anos, altura em que, após concluir o ensino secundário na Escola Comercial e Industrial de Abrantes, foi estudar Gestão de Empresas para o Instituto Superior de Economia e Gestão. Oriundo de uma família humilde - o pai era pintor de construção civil e a mãe doméstica -, viveu numa residência de estudantes e beneficiou de uma bolsa de estudo para poder frequentar o curso.Diz que sempre foi um aluno aplicado (mas não “marrão”), por gostar de estudar e também porque “não tinha muita liberdade ou oportunidade para reprovar”. Se chumbasse acabava-se a bolsa e sem bolsa acabava-se o curso. “Sempre tive uma atitude responsável”, diz. Na escola nunca teve o hábito de usar cábulas. Além disso, no curso superior os testes permitiam a consulta. Tudo o que conseguiu “foi sempre à custa de muito trabalho e iniciativa própria, sem nunca passar por cima dos outros”. Recorda que estava na fila na cantina do instituto quando soube que uma conhecida firma de auditoria estava a recrutar pessoal. Meteu-se ao caminho até às instalações da empresa em Lisboa, foi chamado para a entrevista e pouco tempo depois tinha o seu primeiro emprego. “A vida foi-me correndo bem à conta do trabalho. Sempre tive de fazer pela vida”.Aos 25 anos era o director financeiro da multinacional Polaroid em Portugal e reportava directamente a Madrid, onde se deslocava praticamente de 15 em 15 dias. Esteve no ramo de auditoria interna em várias empresas, uma actividade que diz ser “hostil e complexa” e que lhe influenciou o carácter. Tornou-se mais desconfiado e de “pé atrás”. Um agregador eleito por unanimidadeCom o andar do tempo conheceu mundo, ganhou experiência e conhecimentos e foi consolidando o seu currículo profissional e académico. Até chegar à presidência da Escola Superior de Gestão e Tecnologia de Santarém, em Abril passado. Um cargo que não ambicionava mas para o qual acabou por ser empurrado devido aos desafios que lhe foram sendo lançados por elementos da comunidade escolar.Ser eleito presidente da ESGTS por unanimidade na Assembleia de Escola, onde têm assento representantes das duas listas que tinham concorrido a esse órgão, deu-lhe confiança e alento para tentar pacificar a instituição, envolvida em sucessivas polémicas nos últimos anos. “Tenho feito um esforço muito grande para integrar as pessoas que queiram trabalhar”, diz, afirmando que não tem reservas mentais relativamente a ninguém. Assume-se como um agregador, diz que esteve sempre equidistante entre as partes envolvidas em polémicas, nomeadamente o anterior presidente da ESGTS Jorge Faria e os seus contestatários internos. Ilídio Lopes espera que tenha chegado ao fim um período de conflitualidade interna que, reconhece, dura há muitos anos e que se acentuou no mandato de Jorge Faria como presidente. Um homem que admite ter “um feitio difícil” mas que “também fez coisas boas” e com quem sempre conseguiu trabalhar apesar de algumas discussões.Quanto ao novo cargo, assume-o sem dramatismos. A família, nomeadamente a esposa, avisou-o que poderia estar a comprar a sua “intranquilidade”, mas Ilídio Lopes achou que valia a pena tentar. Se as coisas não correrem bem, “com a mesma tranquilidade com que vim é com a mesma tranquilidade que me vou embora”.Um currículo recheadoCasado com uma professora (também natural da zona de Abrantes) e pai de uma rapariga de 18 anos e de um rapaz de 13, reside na Charneca da Caparica, concelho de Almada, onde se sente bem. Se mudasse para perto da cidade onde trabalha, diz que preferia viver na zona de Almeirim. Mantém alguma ligação a Abrantes, visitando regularmente os pais que vivem no Souto. Considera que a cidade “tem evoluído” e está “bastante diferente” dos tempos em que ali estudou, antes de rumar a Lisboa. Ilídio Lopes assumiu a presidência da Escola Superior de Gestão e Tecnologia de Santarém (ESGTS) no dia 4 de Maio de 2011. É licenciado em Organização e Gestão de Empresas pelo Instituto Superior de Economia e Gestão de Lisboa, mestre em Estatística e Gestão de Informação pelo Instituto Superior de Estatística e Gestão da Informação da Universidade Nova de Lisboa e doutorado em Gestão de Empresas, especialidade de Contabilidade, pela Universidade de Coimbra. Docente do ensino superior desde 1994, era coordenador da licenciatura em Contabilidade e Fiscalidade da Escola Superior de Gestão de Santarém e responsável naquela instituição pelas unidades curriculares de Auditoria Financeira, Contabilidade Internacional, Contabilidade Financeira, Planeamento e Controlo de Gestão. Colaborou também como docente com a Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra nos últimos cinco anos. Chegou a professor da ESGTS um pouco por acaso. Em 1997, estava em Cacilhas à espera do barco que o levaria a Lisboa quando leu num jornal um anúncio de oferta de emprego por parte da Escola de Gestão de Santarém. Confessa que nem sabia da existência desse estabelecimento de ensino. Concorreu para tentar a sua sorte e acabou por ser chamado para a entrevista. Foi seleccionado e assim se iniciou a ligação. Na altura dava aulas na Universidade Lusófona. “Mudei da universidade privada para o Estado, vim ganhar menos mas as condições de apoio à actividade não tinham comparação possível”, diz. Para além da docência na área da Contabilidade, ocupou cargos de gestão em várias empresas multinacionais, como a empresa de auditoria Ernst & Young ou a Polaroid, onde desempenhou o posto de director financeiro aos 25 anos.A abertura da escola ao mundo A Escola Superior de Gestão e Tecnologia de Santarém estava algo fechada sobre si própria e abri-la ao mundo é um dos grandes desafios de Ilídio Lopes, que se encontra à frente da instituição desde Maio passado. Um passo nesse sentido é a organização, em 20 e 21 de Setembro de 2012, da sétima Conferência Europeia de Inovação e Empreendedorismo.Essa foi uma aposta de Ilídio Lopes que vai ser importante para dar projecção à escola e à cidade. “É uma grande conquista pois é um evento que tem decorrido em grandes cidades europeias. Ficou tudo acordado há poucos dias”, diz, revelando que o anúncio oficial será feito na conferência deste ano que se realiza em Aberdeen, na Escócia.O presidente da ESGTS considera importante colocar Santarém e a região no roteiro deste tipo de acontecimentos, embora tenha a noção de que está a correr riscos, designadamente em termos logísticos, pois a capacidade hoteleira na região não é muito extensa.A internacionalização da escola passa também por parcerias com universidades estrangeiras, estando a ser preparada uma candidatura a fundos comunitários, em conjunto com as universidades de Zagreb (Croácia) e Vilnius (Lituânia) para atribuição de um grau comum (joint degree), ao nível do mestrado. O grau é conferido pelas três instituições aos estudantes que concluam esse ciclo de estudos, tendo os alunos que obrigatoriamente frequentar pelo menos um semestre do mestrado em cada uma das escolas envolvidas.
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