A agricultura tem que renascer para bem de todos nós
Em terra onde a agricultura continua a ter enorme importância, mesmo as pessoas que não estão ligadas directamente ao sector condenam os subsídios que foram dados ao longo dos anos para que os agricultores não produzissem. Defendem em uníssono um maior apoio à produção. Quanto à Alpiagra não há dúvida que é a grande festa do concelho e a ninguém passa pela cabeça que acabe. Mesmo que os artistas sejam mais fracos, o convívio é sempre de primeira. E não há nada melhor que uma feira tradicional para reencontrar amigos e saber as últimas.
Carlos Marques, 41 anos, Empresário ramo materiais construção, Alpiarça“Agricultores portugueses precisam de mais apoios”Se a ideia defendida pelo presidente da Federação de Agricultores do Distrito de Santarém de punir criminalmente quem, na União Europeia, decidisse pagar aos agricultores para não produzir fosse avante, Carlos Marques seria um dos seus subscritores. O empresário considera que a agricultura em Portugal está mais desenvolvida do que há duas décadas mas diz que ainda existe muito para fazer e defende que os agricultores deviam era ser apoiados para produzir mais. “Nos outros países da Europa existe uma maior preocupação e os agricultores são muito mais apoiados do que em Portugal”, reflecte, acrescentando que é a falta de apoios que faz com que o nosso país não seja tão desenvolvido quanto os outros. “Temos que conseguir agarrar o camião do progresso”, diz. A Alpiagra é uma feira que não costuma perder. Gosta do convívio que a festa lhe proporciona. Diz que vai quase todos os dias. “Bebo uns copos e fico à conversa”, confessa. Em tempos de contenção financeira concorda com um programa de animação com artistas que cobram menos. O que ele não quer é que acabem com a feira mais tradicional do concelho.José Branha, 62 anos, Empresário, Alpiarça“Quem paga para agricultores não produzirem devia ser penalizado”Empresário no ramo do aluguer de máquinas agrícolas José Branha sofreu na pele aquilo que diz ter sido uma sucessão de políticas “erradas” na agricultura nos últimos anos. Diz que seria dos primeiros a votar uma lei que castigasse quem pagou aos agricultores para não produzirem. Já foi seareiro mas houve uma altura em que optou pelo aluguer de máquinas agrícolas. Há uns anos investiu numa máquina importante para a produção de beterraba, um produto que estava em expansão em Portugal. De um momento para o outro acabaram com essa produção e o empresário teve que arcar com o prejuízo. José Branha confessa que o seu ramo de negócio passou um “mau bocado” mas que agora as coisas estão a “tomar caminho”. Se voltar à agricultura apostava na produção de milho e beterraba. “São os que dão mais lucro”, explica. Vai quase todos os dias à Alpiagra quando a feira está a decorrer. Gosta de ver as novidades e de assistir aos espectáculos. Defende que a feira deve continuar a realizar-se mesmo com menos dinheiro. “Não se tem dinheiro faz-se uma festa mais pequena com menos artistas, ou artistas mais baratos. O importante é não deixar morrer a feira que já é uma referência no distrito de Santarém”, afirma.Daniel Coelho, 34 anos, Empresário, Alpiarça“Só com uma cooperativa os agricultores conseguem ter força no mercado”Considera que a agricultura portuguesa está de rastos devido à Política Agrícola Comum. “A produção diminuiu. Somos obrigados a comprar quase tudo no estrangeiro. Podíamos ser auto-suficientes na agricultura e somos totalmente dependentes. Por isso é que a nossa economia chegou a este ponto”, afirma. Na sua opinião, na agricultura não há regras e os produtores fazem o que querem e não se ajudam entre si. “É impossível criar cooperativas porque os agricultores são individualistas e não cooperam. Mas só com a criação de uma cooperativa é que eles teriam força junto do mercado e poderiam inverter a actual situação”, diz, acrescentando que não faz sentido haver um incentivo à não produção. O empresário também está ligado à agricultura mas diz que, neste momento, não existe nenhum produto rentável e estável no qual se possa apostar a cem por cento. Daniel Coelho gosta “muito” de ir à Alpiagra e tenta ir todos os dias. Junta-se com os amigos e ficam na conversa. Quando era mais novo fazia directas, agora com o filho de três anos é mais difícil ficar até tão tarde. Defende que mesmo com pouco dinheiro a autarquia deve continuar com a feira. “Vale mais fazer menos mas continuar a tradição da Alpiagra”, conclui.Fernando Tomé, 46 anos, Empresário ramo de mármores, Alpiarça“Política agrícola comum foi sempre desajustada do nosso país”Se mandasse tinha virado do avesso a Política Agrícola Comum e incentivado os agricultores portugueses a produzirem mais. O empresário não entende que se tenham dado subsídios para os agricultores não produzirem. “Nunca houve uma política agrícola correcta, foi sempre desajustada ao nosso país. Temos bons solos e bom clima. Como é possível darem-nos dinheiro para não produzirmos?”, questiona. Se fosse agricultor apostava nos produtos hortícolas nomeadamente alfaces, couves, repolho, couve-flor e brócolos. Na sua opinião são produtos que se consomem durante todo o ano por isso só podia ser lucrativo. Todos os dias visita a Alpiagra. Diz que é uma forma de se distrair e de sair da rotina. Gosta de petiscar e ver as novidades. “É bom porque encontramos sempre pessoas conhecidas que não vemos durante algum tempo. Algumas só as encontro uma vez por ano na Alpiagra”, conta. O empresário defende que a feira deve apostar em artistas de qualidade uma vez que eles chamam visitantes de fora do concelho. “Se forem artistas muito bons é vantajoso porque quem vem de fora para o ver vai consumir produtos locais o que é excelente para a economia de Alpiarça”, conclui.Júlio Sardinheiro, 69 anos, Técnico Oficial de Contas, Alpiarça“Quem ganha com o negócio são os intermediários”Um crime é como Júlio Sardinheiro considera o facto dos produtores receberem dinheiro para não semearem qualquer tipo de produto. Na sua opinião quem ganha com o negócio da agricultura são os intermediários. “Quem produz está a praticar os mesmos preços que há seis anos e não tem como aumentar os preços e o consumidor também compra caro. Os intermediários é que lucram com este negócio”, refere. Técnico Oficial de Contas, diz que se apercebe que os tempos em que vivemos estão maus uma vez que os seus clientes têm cada vez mais dificuldades em pagar as contas, o que não acontecia há uns anos. Se fosse agricultor produziria produtos com pouca mão-de-obra para não gastar muito dinheiro. Alface, couve, beterraba seriam alguns hortícolas que semearia. Assume-se como frequentador assíduo da Alpiagra. Durante os nove dias em que se realiza a feira, quem quiser pode encontrá-lo junto das tasquinhas. Apreciador dos petiscos, também gosta de assistir aos espectáculos musicais. Concorda que os artistas devem ser contratados à medida do bolso da autarquia. “Se não há dinheiro tragam os mais baratos mas não acabem com a feira”, defende.
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