Um apaixonado pela história de Alpiarça
Ricardo Hipólito é inspector da secretaria de Estado da cultura e nas horas vagas dedica-se a estudar o passado da sua terra natal
“Manuel António - A arte de criar um melão” é o primeiro de uma série de Cadernos Culturais a serem publicados pela Associação Independente para o Desenvolvimento Integrado de Alpiarça.
Ricardo Hipólito é o autor do primeiro caderno cultural promovido pela AIDIA - Associação Independente para o Desenvolvimento Integrado de Alpiarça. “Manuel António - a arte de criar um melão” é o título do primeiro volume cujo conjunto de publicações pretende relatar diferentes histórias do concelho de Alpiarça e vai ter periodicidade semestral. Apaixonado pela história do seu concelho, Ricardo Hipólito não resistiu ao convite da AIDIA para escrever este caderno de 40 páginas. A pesquisa estava feita há já algum tempo, depois de uma conversa com o agricultor que dá nome a esta variedade de melão que lhe contou a origem deste fruto ligeiramente diferente no aspecto exterior.Manuel António, já falecido, foi um agricultor, natural de Alpiarça, que adquiriu sementes com a garantia que daria um “excelente” meloal. Depois de plantar essas sementes deparou-se com um “desastre” na sua seara, onde brotaram todo o tipo de frutos, embora nenhum fosse parecido com melões. “Se fosse outra pessoa teria ficado arrasado com o que lhe tinha acontecido, porque perdeu toda a produção desse ano, um prejuízo enorme. De forma empírica começou a fazer uma selecção das sementes”, explica o inspector da secretaria de Estado da Cultura.Dessa selecção de sementes nasceu o fruto que ficou conhecido por melão Manuel António. Um melão de casca verde que começou a fazer sucesso nos primeiros anos. O problema é que a forma de criar esta variedade de fruto é mais complicada, o que tem levado os produtores a optarem pelo melão branco. Uma das desvantagens do melão Manuel António, diz Ricardo Hipólito, é o facto do sol poder causar lesões na casca o que afasta os compradores. “Normalmente, essas lesões na casca não afectavam a polpa do fruto mas o facto de ficar com uma mancha queimada desvalorizava comercialmente o fruto”, explica o autor da primeira edição dos Cadernos Culturais.Ricardo Hipólito acredita que essa tenha sido a principal razão para os produtores deixarem de cultivar essa variedade de melão, estando o “Manuel António” em vias de extinção. Para evitar esse desfecho, Ricardo Hipólito sugeriu, durante a realização do primeiro festival de melão que se realizou em Alpiarça no ano passado, que os genes deste fruto fossem acautelados num banco de germoplasma que existe em Portugal. “Se o fruto se extinguir será sempre possível voltar a criá-lo mais tarde. É uma forma de prevenirmos um desfecho do qual nos podemos arrepender”, alerta.O autor não se considera jornalista nem escritor. É apenas um apaixonado pelas histórias da sua terra e gosta de ouvir os mais velhos a contarem as suas memórias. “Não há nada melhor do que ver o brilho no olhar das pessoas que contam as suas histórias. Não podemos pensar só no futuro. Cada comunidade tem um passado e se não fizermos nada para preservá-lo, para podermos contar às gerações seguintes, então deixamos de ter memória”, explica.Depois do primeiro caderno Ricardo Hipólito já tem mais histórias para publicar. “Vidas - Os avieiros no “mar” Ribatejo”, “Os arroteadores do Vale da Lama” e “A epopeia dos meloeiros em Alpiarça”, são os próximos livrinhos que se seguem.Alpiarça não tem sabido divulgar os seus produtosRicardo Hipólito considera que o Festival do Melão é uma “excelente” iniciativa para divulgar o produto que mexe com mais famílias de agricultores no concelho. Mas, defende, que poderia ser feito muito mais sobretudo a nível de divulgação do certame. Além disso, critica os produtores que “não entendem” que o festival é feito para eles. “O festival é feito no Parque do Carril, onde se realiza o mercado da fruta, os produtores estão lá durante o certame mas continuam a ser muito individualistas e alguns acham que aquilo não serve para nada”, lamenta.Um engenheiro agrónomo a trabalhar na CulturaRicardo Hipólito nasceu em Alpiarça há 54 anos. Filho de agricultores licenciou-se em engenharia agrónoma no Instituto Superior de Agronomia, em Lisboa. Chegou a ter duas colocações “praticamente” assentes nessa área mas não ficou por, em tempos, ter sido militante do PCP. “Como não tenho pais ricos tive que me fazer à vida e parti para novos desafios. Como sei apaixonar-me por aquilo que é preciso fazer, segui outro rumo profissional”, explica durante a entrevista a O MIRANTE que decorreu no Parque do Carril.Actualmente é inspector na secretaria de Estado da Cultura mas no início da actividade profissional deu aulas de Matemática e Ciências da Natureza em Alpiarça e Almeirim. Integrou também o conselho directivo na escola preparatória de Santarém onde funciona actualmente o Instituto Politécnico.
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