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Quando chega a idade madura é preciso lutar contra o isolamento

Quando chega a idade madura é preciso lutar contra o isolamento

O MIRANTE falou com alguns seniores e conta como vivem depois de uma vida de trabalho

Se a solidão é a doença do século é pela janela dos mais velhos que vai espreitando lentamente. O MIRANTE falou com alguns que contam como é viver numa sociedade que esconde quem tem mais experiência. Pensar nos idosos é, afinal, pensar no nosso futuro.

Edição de 08.02.2012 | Sociedade
Manhã ventosa no Forte da Casa. Ao fundo de uma praceta Arminda Pereira abre uma porta do rés-do-chão. Entra um sol de Fevereiro pelas cortinas rendadas que aquece o sofá protegido por uma manta. À luz do dia poupa-se electricidade. À noite também. A luz forte do prédio em frente aconchega o serão de Arminda Pereira, 64 anos, e do seu companheiro José, 82. A loiça do jantar é lavada na manhã seguinte para evitar igualmente que a conta de electricidade suba. Arminda Pereira espera pela reforma e enquanto esse rendimento não chega o casal vive com os 250 euros de José, antigo segurança e profissional de seguros. “Já deixei de beber café e agora o único pretexto que tenho para sair de casa é ir deitar o lixo”, confessa com tristeza. Ainda tem autonomia para limpar a casa e trata da roupa. Tem uma companhia mas não deixa de sentir-se só. Começou a trabalhar aos 18 anos no colégio onde estudou. Foi administrativa e trabalhou em Moçambique e no Brasil antes de regressar a Portugal para continuar a carreira. “Se eu tivesse um computador enchia a Assembleia da República de e-mails”, diz desapontada com o estado das coisas. Confessa que nunca sonhou ter uma reforma farta. Percorrer o país de comboio ou a viajar até Lisboa já lhe bastava. Para sobreviver o casal conta com a ajuda do Instituto de Apoio à Comunidade que lhes leva refeições quentes todos os dias. O pouco que resta é para pagar as contas, comprar leite, manteiga e os medicamentos de José. Os de Arminda ficam para trás. Para trás ficou também o projecto de ter filhos mas Arminda não se arrepende. José tem dois e o apoio é quase nenhum, constata. António Armando, 79 anos, conhecido em Benavente como Ciopa, concorda mesmo sem saber. Está sentado num banco frente à câmara a apanhar o mesmo sol de Fevereiro e a conversar com um amigo. Há já um par de anos que enviuvou e mora sozinho. Não tem filhos e mantém apenas um contacto regular com uns primos. É feliz e nem mesmo agora sente a falta de descendentes. “Foi uma opção consciente. Não era por ter um filho que me iria sentir mais acompanhado. Há tanta gente que os tem e não serve de muito”. Tem saudades das relações humanas de outros tempos quando as pessoas não eram tão egoístas e estavam sempre prontas a ajudar. Mesmo em Benavente, que ainda vive em ambiente rural, vê as pessoas a olhar com indiferença.Durante toda a vida preparou-se para passar a velhice da melhor maneira possível. “Tenho um espírito forte e sempre procurei encontrar-me”. Não se lembra da última vez que foi ao médico. O segredo para manter o corpo e a mente sã passa por uma disciplina rigorosa que o leva a manter o tempo preenchido. Depois de uma vida dedicada aos cavalos, continua a trabalhar todas as manhãs, incluindo fins-de-semana, numa casa agrícola em Salvaterra de Magos. Ao início da tarde gosta sempre de dar um passeio e meter a conversa em dia com os amigos. O resto da tarde é passado em casa a estudar. “Interesso-me muito por conhecer o corpo humano de forma a manter-me bem. Continuar a cultivar-me é também uma forma de liberdade”, conta.Ciopa não deixa espaço para a tristeza entrar. Todos os dias prepara para o almoço e o jantar refeições simples, à base de peixe. Tem a ajuda de uma senhora que vai fazer a limpeza de casa. A roupa é tratada na lavandaria. Foi a psicologia do cavalo que o ensinou a viver. Não sabe se algum dia se sentirá só. Vive um dia de cada vez.A solidão é a doença do século A solidão é a nova doença do século. A frase é do presidente da Federação das Instituições de Terceira Idade, Carlos Batalha. A saúde ressente-se com o isolamento e para agravar a situação os rendimentos dos seniores são muito reduzidos por causa das curtas carreiras contributivas apesar de muitos terem trabalhado uma vida inteira. “Cabe ao Estado não declinar essa responsabilidade”, apela.Carlos Batalha defende por exemplo que ao nível fiscal seja possível deduzir as despesas não só com lares mas com a prestação de cuidados ao domicílio, por exemplo, para evitar que os seniores tenham que sair de suas casas.“Não se pode continuar a esconder os velhos da sociedade e a evitar falar da morte. Se a esperança de vida aumentou é necessário providenciar as melhores condições a quem vai viver mais tempo”, defende. Carlos Batalha lembra que a longevidade não pode ser só sinónimo de problemas e deve ser também fonte de virtualidades e oportunidades potenciando o saber dos mais velhos que em Espanha são chamados de “maiores” e transmitem calma, confiança e memória. O número de pessoas que vivem e morrem sozinhas envergonha a sociedade que não pode esquecer os idosos, sublinha. Carlos Batalha vai mais longe e diz que a família tem que moldar-se às necessidades dos seniores. “É fundamental que os empregos tenham a visão deste problema tendo em conta que a população está a regenerar-se abaixo daquilo que seria desejável. É fundamental ter em conta os compromissos geracionais”. Hoje vive-se de forma muito individualista e há prédios onde ninguém se conhece. A sociedade tem que assumir a defesa dos mais velhos. “É impossível não estranhar não ouvir o correr do estore às oito da manhã”, exemplifica. Pensar nos mais velhos é pensar no nosso futuro, lembra o padre Arsénio Isidoro. “Se pensarmos assim vamos sentir-nos mais implicados na temática”, incita.A vereadora da acção social da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, Conceição Santos, anunciou que a autarquia está a trabalhar na área e pretende implementar em alguns bairros o projecto “Já viu o seu vizinho hoje?” ou “Adopte um idoso”.“Há pessoas que só querem passear um pouco ou conversar. Temos a obrigação de encontrar mecanismos que humanizem a vida destas pessoas para que não se sintam ostracizados”, sugeriu incentivando o voluntariado no final de uma sessão dedicada ao combate à solidão dos idosos que decorreu ao final da tarde de quarta-feira, 1 de Fevereiro, na Junta de Freguesia do Forte da Casa.A PSP de Vila Franca de Xira não tem o registo diferenciado dos idosos encontrados mortos em casa sozinhos no concelho mas considera que a zona, apesar de próxima de Lisboa, vive ainda um ambiente de “aldeia” o que evita o isolamento dos mais velhos. “Daqui a alguns anos teremos possivelmente alguns problemas na Póvoa de Santa Iria por causa dos prédios”, antevê o chefe Nelson Amaral que ressalva ainda que a PSP acompanha alguns idosos que já tem referenciados por viverem sozinhos.Comemora-se em 2012 o ano europeu para um envelhecimento activo e da solidariedade entre gerações. Em Lisboa arrancou este mês um projecto de uma associação com o apoio da Câmara Municipal de Lisboa que tem um slogan forte: “Mesmo que não goste do seu vizinho não o deixe morrer sozinho”.Apoiar os netos é uma forma de contrariar a tendênciaMaria da Conceição Fialho, 65 anos, é viúva e vive sozinha em Azambuja. Ir buscar os netos ao centro paroquial de Azambuja é o momento mais feliz do seu dia. “Faz-me muito bem e ajudam-me a distrair”, conta. Maria da Conceição Fialho tem cinco netos que ajudou a criar e são a sua terapia contra a solidão. “Nunca pensei que os avós tivessem um papel tão importante na vida dos netos. Eu criei os meus filhos e estava longe de imaginar que ia ter de criar os netos”.Idosos que morrem em casa sozinhos são reveladores da “nova sociedade”Os idosos que são encontrados mortos em casa sem que ninguém sinta a sua falta são uma realidade cada vez mais comum que revela uma faceta perversa da “nova sociedade” em que se vive. “Hoje em dia há cada vez mais famílias destruturadas”, constata o antigo director da Polícia Judiciária, Fernando Negrão, que participou na sexta-feira à noite num debate sobre insegurança e nova criminalidade no auditório municipal do Páteo do Valverde, em Azambuja, organizado pela Coligação “Pelo Futuro da Nossa Terra”.Fernando Negrão alerta para a necessidade de se estar atento aos “mais velhos que são os mais sábios” e que não escapam à rede criminosa que se estende além fronteirasO antigo director da PJ foi juiz em Alenquer e pela experiência que tem reconhece que sempre que a polícia conduz um grupo de criminosos a tribunal e estes são condenados gera-se um período de acalmia. “Quando as pessoas são detidas a paz social regressa às vilas e às aldeias e as cidades”. Fernando Negrão falou dos novos fenómenos de criminalidade, como os assaltos a estabelecimentos comerciais e o roubo a caixas multibanco. Reconhece no entanto que os media ampliam a percepção objectiva da criminalidade ao dar conhecimento dela. “A sensação de medo gerada é perigosa pois pode não corresponder à realidade”.
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