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O autarca que partilhou o berço com uma cadela e os seus cachorros

O autarca que partilhou o berço com uma cadela e os seus cachorros

De trabalhador numa cerâmica aos 13 anos, Joaquim Aniceto chegou a presidente da Junta da Gançaria

É presidente de uma das freguesias mais pequenas de Santarém. Conhecido por ser uma pessoa bem disposta e terra a terra, não se deixa abalar pelas dificuldades, pela falta de recursos e mantém sempre o seu ar de bem-disposto.

Em bebé partilhou o berço com uma cadela que escolheu o conforto do leito do pequeno Joaquim para parir uma ninhada de cachorros. A mãe do actual presidente da Junta da Gançaria, uma das mais pequenas freguesias de Santarém, passava a vida a tirar o animal do berço, mas ele voltava sempre para a companhia do menino que não teve uma infância fácil. Foi a primeira “amizade” de um homem que faz amigos e conhecimentos como quem bebe cafés. Nunca o vimos de semblante carregado. Não sabemos se alguém um dia o viu chateado. Mesmo nos momentos difíceis não é capaz de esconder o sorriso franco e descomprometido. Joaquim Manuel Gaspar Aniceto, 47 anos, nasceu no seio de uma família modesta. Os pais viviam do sustento que davam umas terras com vinha, oliveiras e mais alguns cultivos e da produção de pintos. O autarca também não aprendeu uma profissão. Só há pouco tempo completou o 9º ano de escolaridade através do processo de Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências (RVCC) das Novas Oportunidades. E está já a preparar-se para tirar o 12º ano. Quando a mãe tinha que trabalhar era uma vizinha que ficava a tomar conta dele. As histórias de bruxas e lobisomens que a “Ti Galucha” lhe contava à lareira, marcaram-lhe a infância mas não o fizeram ter medo da vida. Agarrou-se ao trabalho aos 13 anos numa fábrica de cerâmica a alisar as telhas e a ganhar os primeiros calos nas mãos que nunca estiveram quietas na procura de melhores condições de vida. Foi empregado de armazém, chegou a explorar o aviário de produção de pintos que era dos pais mas que para além de trabalho e chatices pouco dava de sustento. Foi segurança, chegou a chefe de equipa, do qual foi destituído pela inveja de outro chefe, conta. Agora tem uma empresa com sete colaboradores que faz serviços de portaria e registo de entrada e saída de mercadorias, com emissão das guias de transporte, em empresas de Alenquer e Porto de Mós. Quando os colaboradores adoecem ou estão de férias, Joaquim substitui-os durante as horas e os dias que forem precisos. Trabalha doze horas seguidas e ainda vai para a junta ouvir os problemas das pessoas. Casado, com dois filhos de 19 e 14 anos, o autarca, filiado no PSD, só tem pena de no afã da vida profissional e da missão de autarca não ter mais tempo para estar com a família. Não tem clube. Não liga ao futebol nem sabe o resultado dos jogos. O seu desporto é ler jornais, ir ao café, conviver com os amigos e fazer uma boa conversa acompanhada por um petisco e um tinto para aclarar a voz. Não costuma ter férias. Nem sequer gosta de praia. Prefere conhecer novos lugares, ir a Santarém reencontrar pessoas conhecidas. Tenta viver despreocupado e tem no tabaco e no facto de não conseguir estar muito tempo no mesmo sítio dois vícios que não consegue controlar. Considera-se uma pessoa persistente, tolerante e sociável. Tem como imagem de marca há anos uma “mosca” entre o lábio inferior e o queixo, que já chegou a ter um avantajado comprimento. Joaquim Aniceto é um dos mais dinâmicos presidentes de junta do concelho numa terra onde não abundam oportunidades. Tudo tem que ser conseguido com esforço. Com muito e muito esforço e pouco dinheiro. Não se considera um sonhador, mas confessa que tem um ou outro, como ver os filhos bem na vida e com saúde. A luta pelo poder localJoaquim Aniceto leva a vida a sorrir. Nem as dificuldades financeiras, os atrasos nas transferências da Câmara de Santarém, os problemas da freguesia e a falta de união dos autarcas de freguesia são suficientes para lhe tirar a boa disposição. Ficou conhecido recentemente por levar a réplica de um canhão para a porta da Câmara de Santarém e montar um piquenique no largo com a população da terra como forma de protesto pela extinção de freguesias. Esta acção inspirou outros autarcas e foi o ponto de partida para um movimento regional em defesa das freguesias. A poucas horas de uma manifestação pacífica em Lisboa, Joaquim Aniceto desdobra-se em telefonemas a organizar lugares nos autocarros alugados. “Eles que vão de porta em porta mobilizar as pessoas, em casa é que não se faz nada”, diz em conversa telefónica com uma funcionária de uma junta do concelho referindo-se aos eleitos. Aniceto desliga o telefone e de forma descomprometida desabafa: “Estar numa junta não é uma questão política, é uma questão de fazer algo pela terra”. Joaquim Aniceto gostava que existisse mais união entre todos os presidentes de junta em defesa de interesses comuns.Os autarcas da junta são os funcionáriosNa junta de freguesia, ao lado da igreja, há um silêncio perturbador para quem não está habituado à calma vida de um pequeno meio rural. A porta das instalações está fechada durante grande parte do dia. Aqui não há funcionária para atender o telefone e receber os fregueses. Quem o faz são os elementos do executivo nos tempos livres que vão tendo. Mas os problemas também se resolvem na rua, ao balcão do café, numa conversa curta com alguém que passa e para o carro. Joaquim Aniceto prefere pagar do mísero orçamento de 50 mil euros anuais a um cantoneiro para manter as ruas limpas, as valetas arranjadas, os passeios sem ervas. Quando os trabalhos exigem mais gente, o presidente junta-se ao primo, também Joaquim Aniceto, secretário da junta, e pegam em enxadas, pás… e mãos à obra. A tesoureira Ana Pinto também ajuda. O trio social-democrata ainda há pouco tempo recuperou um ponto de água para abastecimento dos bombeiros em caso de incêndio. A freguesiaA Freguesia de Gançaria, uma das mais pequenas do concelho de Santarém com pouco mais de quatro quilómetros quadrados de área, tem uma população na ordem dos 600 habitantes. É a freguesia mais jovem do concelho de Santarém, criada em Junho de 1985 por desanexação da freguesia de Alcanede. Fica a 32 quilómetros da sede de concelho: Santarém. Tem como principais actividades económicas a silvicultura, agricultura, indústria extractiva e transformadora. A desmotivaçãoJoaquim Aniceto até final do anterior mandato costumava ir às reuniões do executivo camarário. No actual mandato, o segundo de Moita Flores, só ainda foi duas vezes. A forma como o concelho está a ser gerido tem-lhe tirado a motivação. Confessa que não está arrependido de se ter recandidatado ao terceiro mandato, mas garante que mesmo que pudesse candidatar-se em 2013, se não houvesse limitação de mandatos, não avançaria. “Digamos que me sinto frustrado”. Na apresentação dos candidatos do PSD nas últimas eleições, Aniceto foi o único que não tinha a sua fotografia no ecrã instalado no palco. Nunca a mandou apesar dos vários pedidos. Não liga à imagem. E questiona: “De que vale andar a mostrar muito a cara se depois não podemos fazer muito”.
O autarca que partilhou o berço com uma cadela e os seus cachorros

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