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O bloguista poeta dos ossos de cristal

O bloguista poeta dos ossos de cristal

Nuno Vicente, 25 anos, sofre de osteogénese imperfeita ou doença dos ossos de vidro

Nuno Vicente não é apenas o rapaz dos ossos de cristal que vive numa cadeira de rodas eléctrica que o leva em passeios até ao fim da aldeia. É o poeta, escritor, amante das palavras. Sonha entrar para a faculdade e tornar-se juiz. O sofrimento de 25 anos de vida dá-lhe sabedoria e legitimidade para julgar. De tanto chorar e contorcer-se chegou a partir uma perna. As lágrimas fizeram-no também alcançar um estado de superioridade. Há muito tempo que não chora e agora a tristeza é canalizada para um blog: “Lacrimologia”.

A casa de Nuno Vicente fica no fim da aldeia de Casal de Além, nos confins do distrito de Lisboa, concelho de Azambuja, freguesia de Vila Nova de São Pedro, por entre caminhos antigos e campos verdes. Os seus ossos são tão frágeis como cristais e por isso Nuno Vicente não arrisca abraçar as árvores grandes mas nos dias solarengos inicia na sua cadeira de rodas eléctrica uma viagem até ao limite da aldeia, pisando já a fronteira do concelho vizinho do Cartaxo. Ao pescoço transporta uma bolsa onde guarda o telemóvel. As suas pernas permanecem curvadas por força das fracturas. Só a imaginação vai pulsando sem o perigo de partir. Houve um dia em que de tanto chorar e contorcer-se Nuno Vicente fracturou uma perna. O choro, acredita, tornou-o um ser mais elevado pela dor física e mental que já suportou. No entanto há muito tempo que não chora e desde 2009 quase toda a sua tristeza é canalizada para um blog: lacrimologia (http://lacrimologia.blogspot.pt/) que é também, segundo uma teoria do século XX, a pseudo ciência do choro.Nuno Vicente tem 25 anos mas fala com a voz suave e compassada de um sábio. O seu corpo é pequeno mas movimenta-se ligeiramente inspirando tranquilidade. “Sou uma pobre alma que talvez hoje sonhe mais do que sonhou qualquer um ao longo dos tempos”, filosofa na apresentação do seu blog. Nuno Vicente fala do amor com sabedoria apesar de algumas impossibilidades físicas. “Já dizia Fernando Pessoa que o poeta é um fingidor. [Finge tão completamente/ que chega a fingir que é dor/ a dor que deveras sente]”. Prestes a chegar ao prelo está um livro de Nuno Vicente sobre o seu percurso de vida escrito em linguagem acessível, ao seu jeito, mas que ainda não tem nome.Durante anos Nuno Vicente viveu acamado por fazer fracturas com facilidade. Um tratamento em Coimbra permitiu-lhe há uns anos ganhar autonomia com uma cadeira de rodas eléctrica oferecida pela Portugal Telecom. O escritor poeta precisa da mãe para lhe assegurar a higiene pessoal e alimentação mas se o copo com palhinha estiver por perto consegue beber água sozinho. É autónomo a atender o telefone e a escrever no computador manipulando o rato. A prática permite-lhe ser tão rápido a escrever como se estivesse de mãos estendidas no teclado. Um dos seus sonhos é entrar no curso de direito e tornar-se juiz. O sofrimento que já leva em 25 anos de vida dá-lhe legitimidade e sabedoria para julgar. Às vezes tem saudades do cheiro da cidade, do movimento dos carros e do bulício citadino dos tempos em que viveu no hospital, paisagem que não vê do verde da sua janela. A doença rara (osteogénese imperfeita ou doença dos ossos de vidro) foi-lhe diagnosticada aos três anos. Os ossos fracos valeram-se múltiplas fracturas e foi ainda no hospital que iniciou os estudos. Começou na Escola nº 94 do Primeiro Ciclo do Hospital Dona Estefânia e acabou o ensino secundário no Cartaxo por videoconferência.No oitavo ano ganhou interesse pela escrita. Conheceu Camões, Gil Vicente e Fernando Pessoa. Deixou arrebatar-se pela poesia mas rapidamente a prosa ganhou terreno. O existencialismo de Virgílio Ferreira e Dostoiévski conquistaram-no. “Um grande sonho meu é provar através das minhas palavras que as limitações físicas de cada um estão nos nossos próprios complexos em relação ao que pensamos dos outros”.Aborrece-se com as queixas banais de um cidadão sem problemas mas não guarda revolta no seu coração. Também não esconde que quer ser reconhecido pela escrita e afirma-se como um exemplo para todos acreditando que só há impossíveis para aqueles que não lutam pelos seus sonhos.“Metafísica!” “(…)Choro por tudo o que observo!Choro por tudo o que não observo!Banho-me num infinito mar de lágrimas,Apenas por um dia ter sabido o significado de viver! Metafísica!Como dói observar,Tamanha beleza sem lhe poder tocar!Tendo apenas que me limitar,A contemplar,Ou cruelmente venerar,Tamanha beleza!”
O bloguista poeta dos ossos de cristal

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