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Gostava de ter agora vinte anos porque hoje em dia toureia-se melhor que nunca

Gostava de ter agora vinte anos porque hoje em dia toureia-se melhor que nunca

A carreira intermitente de António dos Santos, decano dos matadores de toiros e director de corrida

Quando era criança brincava de toureiro com capotes e tourinhas. Aos 14 anos apresentou-se a público e aos 22 anos nascia em Espanha o matador de toiros. Depois desiludiu-se com os meandros da festa por lhe ter sido interdito o acesso ao Campo Pequeno. Foi para África e tornou-se bancário. Hoje reside na Moita e é director de corrida. Sessenta anos depois da alternativa António dos Santos, 82 anos, continua a ser matador de toiros. De coração.

Edição de 26.04.2012 | Entrevista
Ana SantiagoO ambiente da terra onde nasceu, influenciou-o a seguir a carreira de toureiro?Sou de uma família toureira. O meu pai, Carlos dos Santos, era toureiro. O meu avô e o meu primo, Manuel dos Santos, também. Os meus tios eram praticantes e os meus dois irmãos também seguiram a carreira. A Golegã foi uma terra de toureiros. Na altura vivia-se uma aficion profunda porque havia muitas ganadarias na zona. No café central faziam-se tertúlias. Vivia-se um ambiente taurino fantástico.Foi logo para toureiro como muitos miúdos desse tempo? Fui para casa de uma tia avó em Lisboa. Queria estudar para ser arquitecto mas tive que regressar à terra porque infelizmente o meu pai morreu quando eu tinha 16 anos. Um toiro colheu-o e acabou por morrer com problemas nos rins. Nessa altura não havia hemodiálise e não resistiu. Morreu aos 42 anos. A morte do seu pai nessas circunstâncias não o afastou dos toiros? Não, antes pelo contrário. Ligou-me mais ao toureio. Como era o mais velho dos cinco irmãos tive que ir trabalhar para garantir o sustento da família. O meu pai além de ser toureiro era funcionário da Câmara da Golegã. Deram-me um lugar na secretaria da câmara. Comecei a trabalhar como administrativo. A minha mãe era doméstica e viu-se também na obrigação de trabalhar. Quando é que o toureio começou a fervilhar dentro de si?Ao regressar à Golegã fui novamente influenciado pela família e pelo ambiente taurino. Estava habituado desde pequeno a acompanhar o meu pai às praças. Assistia às corridas. Gostava do ambiente e vibrava com o espectáculo. Dois anos depois de ter regressado à Golegã, tinha eu 18 anos, uma rapaziada aficionada organizou uma festa, amealhou um dinheiro e convenceu-me a ir para Espanha. Até determinado ponto já estava mentalizado de que teria que ser assim se quisesse ir mais além. Meteram-me dentro de um comboio, já de madrugada, e fui para Salamanca. A ideia era passar lá oito ou 15 dias. Levava umas pesetas e ficaria até que o dinheiro chegasse. Fiquei lá quatro anos.Foi uma aventura …Levava uma carta de recomendação do meu primo Manuel dos Santos. Não falava o idioma mas quando gostamos do que fazemos arranjamos valentia. Não conhecia Salamanca mas lá procurei o senhor a quem me devia dirigir e que se tornou meu apoderado. E a mãe como reagiu?Estava habituada. Afinal tinha estado casada com um toureiro. Apesar de nunca ter visto uma corrida de toiros ao vivo incentivava-me. Gostava dos toiros mas preferia as corridas televisionadas para fugir ao sofrimento. Na altura em que foi para Espanha já tinha algumas noções de toureio.Comecei a tourear em público aos 14 anos. Aprendi na escola de Patrício Sousa Cecílio, na Golegã. Se o meu primo Manuel dos Santos fosse vivo teria mais seis ou sete anos que eu. Quem corria para ele com a tourinha era eu. Depois trocávamos. Foi assim que tudo começou. Espanha foi a melhor escola?A melhor escola foi Portugal. Foi em pequeno que aprendi toda a técnica. Lá apenas a aperfeiçoei. Como foi a primeira actuação em Espanha?Foi em Plasencia. Nesse dia transmitia-se um Portugal - Espanha. A praça tinha altifalantes para a transmissão do futebol. A coisa não correu mal. Cortei uma ou duas orelhas. Qual foi a sua tarde de glória?Tenho muitas gravadas mas há uma marcante. A primeira vez que debutei em Madrid. As coisas correram-me lindamente mas quando chegou a altura de matar o toiro tive dificuldade. Fiz várias tentativas. O toiro só quase que poderia ter sido morto com um tiro. No final pegaram em mim em ombros e levaram-me pela porta grande mesmo sem cortar orelhas, coisa inédita, tal foi a profundidade, arte e elegância da faena. Tudo foi surpreendente ao ponto de me contratarem de imediato para uma segunda corrida. Disseram-me que escolheria os toureiros e o lugar.Como foi o dia da sua alternativa há 60 anos?A 24 de Junho de 1952, dia de São João, tomei a alternativa em Badajoz. Tinha 22 anos. O dia que poderia ter sido o mais feliz da minha vida foi o mais triste. Os toiros não investiram. Tive essa infelicidade. Na altura havia uma febre e os toiros vinham afectados. O toiro pesava mais de 630 quilos mas até se deitou na arena. Sofri imenso.Que cores tinha o traje de luzes nesse dia?Roxo, cor do senhor dos passos. Foi a esposa do meu apoderado que escolheu. Gosto de fatos pretos mas só tive um. Levei logo uma cornada. A cor deixou-me marcado. Ainda o vesti uma segunda vez para reagir e levei com o toiro. Passei a usar fatos claros. Por que se despediu das arenas?Fui para África para me distanciar dos toiros. Se cá estivesse não resistiria.E por que se quis distanciar?Nessa altura havia uma certa fricção entre mim e o Campo Pequeno. Toureava na província mas a ambição de um toureiro é tourear na primeira praça do seu país. A empresa que na altura tinha a praça por vinte anos durante 18 anos nunca me lá levou. Toureava com particulares que lá davam uma corrida ou outra. Tive que tomar uma decisão. Fui para África. Longe da vista longe do coração. Mudou para uma vida completamente diferente.Foi-me oferecido um lugar num banco e lá estive nove anos. Quando vim a Portugal de férias três meses não fiz outra coisa senão tourear.O distanciamento foi doloroso?Muito. Dediquei-me de alma e coração. Gostei muito da profissão apesar do risco. Levei nove cornadas. Oito em Espanha e uma no Campo Pequeno. Essa abriu-me o baixo ventre e fiquei com os intestinos de fora.Foi a mais grave?Não. A mais grave foi em Barcelona. As equipas médicas das praças espanholas, essencialmente das praças de primeira, são excepcionais. Depois de oito dias em estado crítico fui transferido para Madrid. Existia um sanatório que era um hospital de luxo que tive a felicidade de utilizar. O médico disse-me: «está descansado rapaz porque chegando vivo às minhas mãos estás safo» Nenhuma das cornadas o fez afastar-se?Até certo ponto há um desequilíbrio interior mas nunca foi suficiente para me afastar. Ao voltar a ter contacto com os animais até esquecemos que a cornada existiu. De matador de toiros como é que passa a director de corrida?Não consegui estar longe da festa. Preferia estar na arena?Não há dúvida. Gostava de ser toureiro no momento actual para usufruir da qualidade com que saem os toiros hoje em dia. No meu tempo eram mais bravios. Hoje são mais corpulentos e nobres. Têm mais qualidade nas investidas porque há uma selecção profunda. As ganadarias têm pistas para que os toiros sejam corridos a cavalo e aguentem a luta na praça de toiros. O toiro é um atleta na praça de toiros que nos cria dificuldades para o tourearmos e realizar o espectáculo.E que opinião tem sobre o toureio de hoje em dia?Hoje em dia toureia-se melhor do que nunca. O toureiro é uma técnica que se aprende. Gostava de ter agora 20 anos.Foi matador de toiros durante quantos anos? (Longo silêncio) Um toureiro nunca deixa de ser toureiro...Filho de toureiro sabe triunfarAntónio dos Santos nasceu a 14 de Setembro de 1929 na Golegã. O forte ambiente taurino que se vivia na vila inspirou-o mas a família, onde abundavam os toureiros, também ditou o seu destino. É neto, filho, irmão, sobrinho, primo e amigo de toureiros. Tornou-se matador de toiros em 1952. Tinha 22 anos. Para assinalar os 60 anos de alternativa um grupo de amigos organizou um jantar de homenagem na tertúlia “A Mexicana”, no salão da pastelaria lisboeta, a 18 de Abril. António dos Santos despediu-se cedo das arenas. Em 1968. Apenas 16 anos depois de ter começado desmotivado pelos meandros do mundo taurino. Reside na Moita há duas décadas com a esposa, Maria Alice. Tem dois filhos do primeiro casamento. Aos 82 anos o decano dos matadores de toiros portugueses mantém uma memória intacta e continua ligado à festa. É um dos mais antigos e prestigiados directores de corridas.Uma turista americana atirou ao matador uma nota de dólar com a moradaComo é que vê as mulheres na praça a tourear?As mulheres sempre tourearem a pé em Espanha. Aqui não. Lá as toureiras continuam a despontar com uma certa força. Recordo-me da chilena Conchita Citron que toureava a cavalo e a pé. Encontrei-a uma vez num tentadero. Eu tinha 14 anos, toureava de calções e ela foi-me dando indicações. Era uma verdadeira senhora. As mulheres têm espaço na festa? Acho que têm o mesmo espírito de luta que qualquer homem. Enfrentam um toiro com a mesma fibra, dinâmica e coragem.Quando estava à frente do toiro como se libertava do medo?É verdade que temos medo. Quem diz o contrário está a mentir. Há que empregar a técnica diante do animal que também tem as suas debilidades. Há situações que exigem intuição e por isso é preciso ter sentimento de toureiro.Não é toureiro quem quer…Absolutamente. Eu sentia medo mas diante dos toiros adaptava-me. O momento em que estamos no pátio de quadrilhas à espera que comece o espectáculo é duríssimo. Há a consciência daquilo que se vai fazer. Agarramo-nos à técnica e executamos essa técnica com mais ou menos perfeição e beleza. É importante conhecer o toiro. Houve uma frase que ouvi aos 14 anos e que jamais esqueci de um grande aficionado, Rosa Rodrigues (pai), da Chamusca, que ensinou o meu professor, Patrício Sousa Cecílio. «Se queres ser toureiro tens que aprender a ler o toiro desde a ponta do corno à ponta do rabo». Como fazia essa leitura? Era imediata, assim que o toiro entrava na arena?Temos que fazer uma leitura rápida do toiro que tem diversas reacções. É um animal muito inteligente. Quando entra investe para marrar, para derrotar. Depois, consoante iniciamos o toureio, obrigamo-lo a investir para fazer o espectáculo. Se nos enganamos levamos uma cornada.Já alguma vez se enganou na leitura?Já, muitas. Por vezes estamos embriagados com o próprio toureio. A gente até se esquece que está no meio da arena com tanto público. Estamos absorvidos com o toiro e a intenção é lidá-lo com a máxima perfeição. Foi muito assediado por mulheres enquanto toureiro?(Risos) Houve simpatias mas acima de tudo estava o toureio.Recebeu algum objecto original atirado das bancadas?Uma vez uma turista americana atirou uma nota de dólar com a morada escrita. Foi na Praça da Figueira da Foz. Não utilizei a morada mas guardei religiosamente essa nota (risos)…
Gostava de ter agora vinte anos porque hoje em dia toureia-se melhor que nunca

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