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Acabar com o tempo de lazer e as festas é liquidar a esperança

Por muito que custe é necessário manter alguma animação em tempo de crise para não se acentuar a depressão. Para a maior parte dos entrevistados de O MIRANTE a Festa do Vinho vale por caixas de antidepressivos e não tem efeitos secundários...desde que quem lá vá não decida beber para esquecer, o que é sempre uma péssima solução. É que passada a ressaca descobre-se que os problemas não se evaporaram. Quanto aos jovens que desesperam à procura de emprego e ao contrário do que já disseram membros do Governo, a solução não pode ser a emigração. Pelo menos de forma definitiva.

Edição de 26.04.2012 | Especial Festa do Vinho
Sandra Rambeau, 24 anos, AlmeirimA tradição das festas deve ser mantidaSandra Rambeau defende que as festas que têm a ver com a tradição de um local ou região devem ser preservadas e mantidas independentemente de se viver um clima de crise económica e financeira. “O exemplo da festa do Vinho do Cartaxo é importante pela ligação que existe com o vinho, a tradição do Cartaxo e a forma como atrai pessoas do concelho, da região e do país, algumas delas que têm ali casas de fim-de-semana”, sustenta.A sócia do Intermarché do Cartaxo procura acompanhar o desempenho de quem nos governa e as decisões que tomam que a todos tocam. Por isso, defende que a criação de um novo imposto sobre o comércio só vai agravar as condições gerais de vida. “Por mais simbólico que seja não vai resolver nenhum problema e, numa economia em crise, é mais uma forma de diminuir o consumo privado e aumentar os custos das empresas”, refere.Sandra Rambeau não gosta do lema “beber para esquecer”, até porque quem bebe lembra-se sempre e a ressaca não desaparece. “Beber sim, um bom vinho, com moderação, para lembrar de como foi bom”, acrescenta. Face às dificuldades que os jovens licenciados têm tido em arranjar emprego, Sandra Rambeau considera que a emigração não deve ser a primeira opção nem a aconselharia a um filho, mesmo que inicialmente houvesse vantagens nos vencimentos. Pelo contrário, aposta mais em que os jovens invistam no país e sejam mais empreendedores, precisamente para que o país dependa menos do estrangeiro. Maximino Marques, 68 anos, CartaxoEnfrentar a realidade de forma directa e com boa disposiçãoMaximino Marques considera que acabar com festas tradicionais em tempo de crise só vai contribuir para deprimir mais as pessoas. O mesmo deve acontecer em relação à Festa do Vinho do Cartaxo, refere, revelando que é a sua empresa quem há vários anos faz as instalações do sistema de gás das tasquinhas. “Andamos na retaguarda a tratar de tudo mas às vezes atrasamo-nos porque nem todas as tasquinhas são instaladas ao mesmo tempo”, garante quem também tem tempo para desfrutar da festa.O empresário vai acompanhando as notícias sobre a troika e o Governo, umas vezes mais positivas, outras mais negativas, com as conversas de uns e outros. Seja bom ou mau o momento que atravessa o país, Maximino Marques diz que beber para esquecer não é boa política. “Temos que ser directos, enfrentar as situações com boa disposição, saúde e algum dinheiro na carteira”, refere Maximino Marques.Com um negócio de comercialização e instalação de gás, Maximino Marques nunca pensou emigrar mas chegou a ter convites na sua juventude como aproveitaram alguns amigos que foram para França, Alemanha e Suíça. Não aconselharia, no entanto, esse destino se tivesse um filho que tivesse acabado de tirar uma licenciatura. “Preferia que tentassem cá a sua sorte, como fizeram com o 11.º e 12.º anos os meus que vieram ajudar-me na empresa”, conta.José Joaquim Ferreira, 62 anos, CartaxoBeber um tinto e comer um pastelinho de bacalhauJosé Joaquim Ferreira diz que tirar a Festa do Vinho ao Cartaxo por causa da crise seria afastar visitantes, ainda que o evento não atraia muita gente ao centro da cidade. Para o comerciante pode fazer-se a festa com gastos menos elevados. “Eu costumo visitar o pavilhão, a área empresarial, as tasquinhas. Principalmente a tertúlia dos enófilos onde se bebe um bom tinto e come um pastelinho de bacalhau”.O seu espírito positivo altera-se quando ouve falar do Governo e de Troika e o contributo que têm dado para o declínio do comércio nacional. “Vai ser muito difícil de recuperar, os chineses tomaram conta do Cartaxo. Temos uma cidade com dez mil pessoas e seis grandes superfícies comerciais. Vamos ver se até final do ano a rua Batalhoz não fica com menos 30 ou 40 comerciantes do que tem agora”, augura. Para José Ferreira, mais que pensar em sair do país, os jovens com dificuldades em encontrar emprego deviam tentar valorizar-se nas profissões que exigem maior especialidade e não pensar tanto nos canudos e nas licenciaturas. Para si, beber para esquecer, não é definitivamente a melhor opção, seja lá o que houver para esquecer ou para beber. “Não costuma resultar”, garante. Rui Agostinho, 53 anos, CartaxoExperiência no estrangeiro pode ser benéfica para jovens licenciadosAs dificuldades da economia são muitas e reconhecidas, faltam empregos, e uma experiência no estrangeiro, mesmo que momentânea pode ser positiva para que os jovens licenciados ganhem mais experiência e formação. É assim que pensa o administrador da Imporgo, sedeada no Cartaxo. Para Rui Agostinho esse seria uma experiência benéfica para quem quer começar a trabalhar.No actual contexto de crise, o empresário não vê razão para se suspender ou cancelar as festas tradicionais que vão acontecendo pela região, como a Festa do Vinho do Cartaxo. “Há festas e festas. Estas têm interesse porque ocupam as pessoas nos tempos livres, fazem-nas reunir e recordar caras conhecidas e amizades que estão distantes, além de criarem actividades e mexerem com a economia”, sustenta Rui Agostinho.Tem acompanhado a realidade política e económica do país através das notícias que vão chegando da Troika e do Governo, por considerar que tem interesse saber o que futuro próximo nos reserva. “Acima de tudo procuro estar informado. Tenho uma empresa que presta serviços e comercializa produtos de higiene e limpeza e noto como, por exemplo, o IVA veio refrear as vendas à restauração”, exemplifica.Luísa Fernandes, 48 anos, CartaxoEnfrentar os problemas de frente, como se enfrentam os toiros no Ribatejo“Nem pensar!” reage a empresária Luísa Fernandes quando questionada sobre se as festas devem ser canceladas em época de crise. No caso da Festa do Vinho do Cartaxo, Luísa Fernandes considera que há sempre aspectos a melhorar e pode optar-se por realizar uma organização mais comedida em custos, mas entende que a Festa do Vinho tem importância para o Cartaxo e para a região. Luísa Fernandes vai sabendo um pouco do que vai sendo decidido pelo Governo e pela Troika mas prefere não saber demais. “Se for assim as pessoas ainda ficam mais deprimidas, temos um país numa vida de choro. Temos é que reagir com garra e, se fosse por minha iniciativa, havia uma baixa geral dos impostos e não a subida a que temos assistido”, sugere. A empresária também não concorda nada com a ideia de beber para esquecer. Diz que não resolve, não se esquece e ainda se fica com a ressaca. “O pior é no dia seguinte que é dia de trabalho. Há que enfrentar os problemas de frente, como se enfrentam os toiros no Ribatejo”, assegura. No mesmo sentido vai a sua opinião sobre os jovens licenciados que procuram emprego e que tenham a emigração como hipótese. Diz que devem primeiro lutar pelo país porque se aconselham todos a emigrar e não fica cá ninguém para segurar o barco. “Há que investir e apostar neste país, não vamos “exportar” cérebros formados cá para o estrangeiro para que eles colham as mais valias”, defende Luísa Fernandes.Nuno Maia, 34 anos, AlmeirimEmigrar e voltar costas não é soluçãoNatural de Almeirim, Nuno Maia gosta da Festa do Vinho do Cartaxo e considera que a cidade só ficaria prejudicada se a festa fosse cancelada por motivos financeiros. “Traz mais movimento e animação à cidade e é bom preservar estes momentos tradicionais. Costumo ir lá almoçar todos os dias”, refere Nuno Maia, com estabelecimento de venda de material eléctrico para automóvel sedeado no Cartaxo.Nuno Maia não acompanha as notícias que em abundância chegam na comunicação social sobre as medidas aplicadas pela Troika e pelo Governo. Prefere não saber, nem falar do assunto porque, para más notícias, “já chegam os impostos a aumentar”.Com o país em tempos de vacas magras, Nuno Maia nunca pensou em emigrar nem seria esse o conselho que daria a um filho que acabasse de concluir uma licenciatura. “Defendo que temos que assumir a realidade que vivemos. Eu trabalho com exportação e importação, mas virar as costas ao país e fugir é que não”, conclui Nuno Maia, para quem, definitivamente, beber não serve para esquecer. Seja lá o que for!

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