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O padre pára-quedista que prega o amor
Diamantino Marques vai deixar a paróquia de Alpiarça e a câmara decidiu homenageá-lo
O município de Alpiarça, liderado por um comunista, decidiu distingui-lo com a medalha de honra. Um tributo facilmente explicável ouvindo o sacerdote Diamantino Marques, admirador do passado de luta dos camponeses ribatejanos e pregador da paz e da concórdia. “A única arma para mudar o mundo é o amor”, diz o padre natural de Amêndoa que foi capelão da unidade de pára-quedistas de Tancos no período revolucionário de 1974 e 1975. Aos 75 anos muda mais uma vez de paróquia, tendo a Brogueira como destino.
João Calhaz / Ana Isabel BorregoUm padre homenageado por comunistas não é muito habitual. Surpreendeu-o a distinção da Câmara de Alpiarça?Surpreendia-me em qualquer circunstância. Não me sinto uma pessoa assim tão importante. E revela outra coisa que acho mais importante que tudo: não sou muito dotado, muito criativo, mas propus-me sempre dar amizade a toda a gente, fosse quem fosse. Fiz sempre por ir ao encontro das pessoas. A única arma para mudar o mundo é o amor. Sente-se acarinhado em Alpiarça?Tenho recebido muitas manifestações de amizade e houve essa atitude da câmara. Quando olho para um indivíduo tenho de o amar como ele é, mesmo que ele não me ame a mim. Tem alguma simpatia pelos ideais comunistas?Pelo ideal genérico, de justiça social, de cuidar dos mais pobres, isso tenho. Pela ideologia tal como é proposta pelo marxismo, e muito menos pelo leninismo e pelo estalinismo, não. Aliás, acho que todas as ditaduras são um sinal de fraqueza. Quem tem medo impõe-se pela força. A solução para os problemas não é vencer os outros, é dar-se aos outros.Alpiarça é uma terra com tradições de luta desde os tempos do salazarismo.Admiro as pessoas de Alpiarça, grandes lutadores que sofreram sem recompensa nenhuma. Lutavam pelo que entendiam ser o bem dos trabalhadores e dos pobres. Se tivesse sido criado aqui se calhar também tinha ido por aí. Sou de uma família muito feliz mas muito pobre, como muitos trabalhadores que vieram para aqui trabalhar para a ceifa, para a azeitona, para as vindimas. Sempre me senti muito identificado com a história de Alpiarça. Karl Marx dizia que a religião era o ópio do povo.E por vezes pode ter sido verdade, mas a religião não é isso. A religião cristã é fundamentalmente o humanismo transcendente. Aquele céu em que acredito começa aqui. Aquele Deus em que acredito é esta experiência que posso fazer de amor com os outros.A atitude da Igreja Católica face ao momento de crise que se vive tem sido a adequada?Penso que sim, embora haja coisas que gostava que fossem de outra maneira. Mas também não gostava de ver a Igreja posta nestas lutas políticas. Deve continuar a fazer apelo ao amor fraterno, é essencial, mas não gostava de ver a Igreja com uma linguagem igual à dos políticos. Não gostou de ouvir o bispo Januário Torgal Ferreira a desancar nos políticos?Não! Pergunto-me se é justo acusar os outros de qualquer maneira, como nos dá na real gana. Tenho muita pena da situação em que nos encontramos, das medidas que são impostas. Não sei se havia alternativas ou não, mas não me atrevia a chamar estes indivíduos de desonestos. Não concordo com esta política ultra-liberal, com estas privatizações de tudo. Há elementos que não podem ser privatizados porque são essenciais para a vida humana, como a água ou a electricidade. Sente os efeitos da crise entre os seus paroquianos?Sim, se sinto. Custa-me muito virem aqui pessoas pedir e a gente não ter para dar.Em tempos como os que vivemos as pessoas aproximam-se mais da Igreja?Aproximam-se mais para pedir. Mas também não quero que as pessoas venham à igreja só por interesse. Só quero que as pessoas venham à igreja conscientes daquilo que vêm fazer. Nós pouco mais podemos fazer do que dar uns pacotes de leite, temos poucas possibilidades para dar mais.O padre José Luís Borga criticou recentemente as mudanças de padres em várias paróquias da diocese de Santarém. O que pensa disso?Também vou mudar de paróquia, respeito o José Luís, mas não vou por esse caminho. Claro que para mim era muito mais cómodo ficar por aqui. Não só porque já vou a caminho dos 76 anos e estou aqui há oito anos, mas também porque notei que se criou um ambiente que me prende muito aqui. Mas o que é preciso ter em conta não é o meu interesse. Quando me ordenei padre não foi por mim, foi pelos outros. Já tive essa experiência de estar muito tempo num lugar…A permanência durante muitos anos é perniciosa?Ninguém é infinito. Estive 28 anos em São Vicente do Paul (Santarém). Já lá estava há um ano quando nasceu o padre que me foi substituir, o Ricardo Madeira. Gostei muito daquela paróquia mas julgo que estive lá tempo demais. Porque com um padre novo aquilo progrediu muito. Eu já tinha dado o que tinha a dar. Vindo para Alpiarça foi um recomeço, há sempre uma novidade em nós. Agora vou para a Brogueira e com a idade que tenho já não vou fazer grande coisa. Mas de qualquer maneira é sempre bom recomeçar. Custa sair de Alpiarça, mas o ideal é servir as pessoas.“É uma maravilha ser padre”Diamantino Marques nasceu a 25 de Abril de 1937 no seio de uma família pobre e numerosa em Amêndoa, freguesia do concelho de Mação situada no extremo nordeste do distrito de Santarém. Cinco dos nove irmãos ainda são vivos. Celebrou em Agosto passado 50 anos de ordenação como sacerdote. A ligação às raízes permanece e visita a sua aldeia, onde tem casa e vários familiares, sempre que pode. A sua carreira eclesiástica tem sido feita sempre com a casa às costas. Iniciou a vida sacerdotal no Montijo em 1962, regressou ao seminário de Santarém em 1963 para dar aulas e em Julho de 1973, após ser chamado para cumprir o serviço militar quando já tinha 36 anos, foi investido como capelão militar do regimento de pára-quedistas de Tancos com a patente de tenente.Esteve na tropa até Setembro de 1975. De Maio de 1976 a Julho de 2004 foi pároco nas localidades de Alcanhões, Vale de Figueira, São Vicente do Paul, Casével, Pombalinho e Vaqueiros, todas no concelho de Santarém. Há oito anos que é pároco em Alpiarça e Benfica do Ribatejo, funções que deixa no dia 23 de Setembro para tomar conta das paróquias de Alcorochel e Brogueira, no concelho de Torres Novas.Nascido numa família muito religiosa, onde diariamente se rezava o terço, não surpreendeu o destino que Diamantino deu à sua vida. Entrou no seminário com 12 anos. “Tinha um ambiente muito favorável e já havia outros padres na família”. Em criança guardou cabras e andava sempre descalço. Hoje ocupa os tempos livres a visitar e confortar paroquianos doentes. “Uma coisa a que sempre me propus foi dar amizade a toda a gente”, diz o sacerdote que confessa sentir-se realizado com a vida que escolheu: “Acredito que é uma maravilha sermos padres”.“Não me escandalizava que a Igreja ordenasse homens casados”O que leva uma pessoa a dedicar-se a esta vida?O amor tal como é proposto por Jesus Cristo, que é dar a vida pelos outros.Enquanto esteve no seminário nunca pensou ter filhos e constituir família?Pensei muitas vezes. Sempre gostei muito da ideia de me casar e ser pai, ter uma família numerosa como a minha. Essa ideia fez-me por vezes hesitar mas nunca apagou este ideal porque, graças a Deus, fui tendo sempre esta noção de ser servidor. Ainda hoje acho o celibato uma maravilha, embora seja difícil. Antes de entrar para o seminário nunca teve pretendentes ou namoradas?Isso acontecia muito. Quando estava com os meus colegas no seminário em Almada íamos muitas vezes a Lisboa e às vezes algumas raparigas comentavam “ai que padres tão bonitos” e nós respondíamos “são, mas não é para os teus dentes”.Os padres também têm que lidar com a tentação. Como é que se ultrapassa essa situação?Os casais também têm que lutar por serem fiéis um ao outro. Claro que há dificuldades, tentações. Com os padres não é diferente. Os sacramentos são os momentos de encontro com Deus e a garantia de que Ele faz connosco o nosso caminho. Somos sempre livres para escolhermos o nosso caminho.Foi ordenado sacerdote há 50 anos. Nunca se arrependeu da decisão que tomou?Nunca. Se voltasse atrás seguia o mesmo caminho.Qual foi a paróquia onde mais gostou de estar?Todas foram especiais. O início da minha vida sacerdotal foi uma experiência única e uma surpresa. Tinha-me preparado que viria para o Seminário de Santarém ensinar música às crianças. No entanto, recebo uma carta para me apresentar no Montijo. Foi uma experiência interessante. Trabalhei num bairro de gente muito pobre, com muitas limitações e deficiências. Foi uma experiência única que ficou no coração por ter sido a primeira, apesar de ter sido só um ano. A Igreja debate-se com a falta de novos padres. É uma actividade em vias de extinção?Não pode ser porque a Igreja é uma instituição de Jesus Cristo e Ele não pode deixar fracassar aquilo que prometeu. O que a Igreja tem que ver é a forma como se fomentam as vocações.O fim do celibato seria uma forma de atrair mais jovens para o sacerdócio?Estou convencido que mais cedo ou mais tarde esse será o caminho. Mas esse não é o problema. Há igrejas católicas no Oriente que ordenam homens casados e nem por isso deixam de ter dificuldades. O que temos que mostrar é a evangelização como uma proposta de felicidade e não como uma moral impositiva. A fé cristã não é um conjunto de dogmas que se impõe.Concorda com o facto dos padres não poderem casar?Concordo porque escolhi isso para mim. Mas não me escandalizava nada que se ordenasse um homem casado.Câmara de Alpiarça distingue exemplo de dedicação à comunidadeO executivo municipal de Alpiarça aprovou, por unanimidade, a aprovação da atribuição da Medalha de Honra ao padre Diamantino Marques pelo trabalho que tem desenvolvido na paróquia do concelho desde 2004. “O padre Diamantino Marques é um exemplo de dedicação a toda a comunidade tornando-se por isso merecedor desta distinção”, referiu o presidente do município, Mário Pereira.“É reconhecido o trabalho realizado pelo padre Diamantino Marques em prol da população do concelho e a forma exemplar como tem sabido relacionar-se com toda a comunidade. É de realçar a personalidade de alguém que nunca se negou à intervenção cívica e sempre mostrou um inequívoco espírito de ajuda e solidariedade”, sublinhou o autarca. A entrega da medalha será definida posteriormente.O período revolucionário vivido por dentroAos 36 anos, em 1973, Diamantino Marques foi chamado para cumprir o serviço militar. A guerra colonial estava no auge da mobilização e os voluntários escasseavam. Fez um curso de quatro semanas na Academia Militar e pouco depois já era tenente.Diamantino Marques viveu por dentro o período conturbado que se seguiu à revolução de 25 de Abril de 1974 ou não fosse na altura capelão do Regimento de Caçadores Pára-quedistas, sediado em Tancos. Essa unidade esteve envolvida no golpe contra-revolucionário de 11 de Março de 1975, que teve como patrono o general Spínola, e partilhou a angústia de muitos soldados que não sabiam muito bem o que estava a acontecer e não percebiam como havia tropas portuguesas a atacarem-se.“Os militares pára-quedistas não eram muito politizados, mas tinham um grande espírito de corpo e quando ia um iam todos”. O golpe abortou, Spínola fugiu para Espanha e algumas horas depois, numa assembleia de oficiais, o capelão e tenente Diamantino Marques assistiu à detenção de alguns oficiais que alinharam no golpe. Alguns meses depois, em Setembro de 75, acabaria a sua experiência militar.Pelo meio ainda fez 18 saltos de pára-quedas, após um curso de pára-quedismo mais ligeiro do que o que era ministrado aos recrutas. “Tinha 36 anos e já sofria dos joelhos, não aguentava andar naquelas correrias”. Quanto à vida dentro do quartel, o estatuto de capelão dispensava-o de algumas formalidades, como as formaturas. “Saltar foi do que gostei mais, mas infelizmente só foram 18 vezes pois com aquela politização toda após o 25 de Abril estive muito tempo sem saltar”.E como foi a primeira vez? “Não me fez assim muita impressão. O panorama que se vê lá de cima suaviza a vertigem da altura”. Mas admite que é preciso ter alguma coragem para dar esse passo: “Quando se sai daquela porta já não se pode voltar para trás”. E apesar de não ter saltado tantas vezes como gostaria ainda viveu alguns percalços, como quando a força do vento o afastou da zona prevista para aterrar e acabou por cair em cima de uma figueira.
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