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Em Fátima manda ele

Vereador Nazareno do Carmo já foi de tudo um pouco na cidade que o viu nascer e onde se fez homem

É o titular do pelouro de Fátima na Câmara de Ourém e já pôs o Santuário e os comerciantes em sentido. O empresário que agora também é autarca reduziu a atenção às suas empresas para dar mais um contributo à causa pública. Quer melhorar a imagem da cidade no exterior e afirmar a autoridade administrativa da autarquia perante alguns poderes instalados. Os vários processos judiciais que envolvem a Igreja e o município são um bom exemplo disso.

Edição de 24.10.2012 | Entrevista
Ter um pelouro como o de Fátima, onde tem quase plenos poderes, já lhe chega em termos de ambição política?Não tenho nenhuma ambição política. A ambição que sempre tive foi lutar por esta cidade. Desde miúdo que integro tudo o que é associações e instituições a nível cultural, recreativo, desportivo e até profissional, pois fui durante seis anos presidente da ACISO e recuperei a união das associações empresariais do distrito de Santarém, de que fui presidente. E fui vice-presidente da AEP - Associação Empresarial de Portugal por inerência do cargo. Também fui fundador do movimento pró concelho de Fátima. Sempre me dediquei à causa pública de forma gratuita. É a primeira vez que estou a auferir um salário. É uma questão morta e enterrada, essa da criação do concelho de Fátima?Não queria que fosse, porque Fátima é uma terra muito especial e merece um carinho e uma dedicação constantes. Perante a impossibilidade de termos autonomia administrativa, a criação do pelouro de Fátima foi uma boa solução. Mas espero que quando se fizer uma reorganização do território a sério, se possa contemplar Fátima como concelho. Há aqui toda uma região que gostaria de pertencer a esse concelho, inclusivamente freguesias de outro distrito.Foi eleito pelo PS. É um socialista convicto?Não, nunca fui socialista. Fui fundador do PPD (Partido Popular Democrático que mais tarde se passou a designar também como PSD) aqui no concelho, fui sempre militante do PSD até ao momento em que me candidatei pelo PS e me expulsaram do partido. Reconhecia que as coisas não estavam bem, que as pessoas não dedicavam a Fátima a atenção que a cidade precisava, e resolvi candidatar-me como independente nas listas do PS.Depois desta experiência autárquica na lista do PS pondera voltar ao seu partido de sempre?Penso que já chega de política para mim.Há uma forte crispação política no concelho. O PSD ainda não conseguiu digerir a derrota nas autárquicas de 2009? É possível, porque o PSD dominou o concelho durante trinta e tal anos. E também graças ao meu trabalho, pois cheguei a ser presidente da comissão política concelhia. Deve ser complicado um partido quase sempre maioritário ver cair por terra todo esse poder. Mas esse facto não me satisfaz. O que me satisfaz é o terminar de um ciclo que estava a começar a ganhar alguns vícios e a desvirtuar os princípios pelos quais havíamos lutado.O PSD de Ourém tem uma travessia do deserto pela frente?Não sei, mas devia ter porque em democracia esta alternância é salutar. Não tenho dúvidas que a derrota que o PSD sofreu foi precisamente isso. Não foi uma vitória de quem quer que seja, foi uma derrota do PSD.Para a qual o senhor deu o seu contributo.Dei e com muita satisfação e orgulho. Estava-se a chegar a um ponto de ruptura e apareceu uma alternativa com alguma credibilidade e algum impacto.Como é que um adversário político de muitos anos, como Paulo Fonseca, o convenceu a integrar uma lista dele?O Paulo nunca foi meu adversário, nunca o considerei como tal. Até porque quando ele apareceu na política eu já tinha sido marginalizado. Continuava a ser militante do PSD mas já estava um pouco afastado das lides políticas.Aguenta mais quatro anos como vereador se for convidado a recandidatar-se e o povo assim o decidir?O futuro a Deus pertence e ainda é cedo para falar disso. Tem sido uma experiência difícil. Tenho vários problemas, pois já não sou novo e desprezei as minhas empresas num momento difícil como o que atravessamos. Algumas estão a passar momentos difíceis apesar dos bons colaboradores que tenho. E eu sou o culpado, por me ter dedicado a isto. São opções que se fazem.Nunca pensou, perante essa situação, abdicar das funções autárquicas?Não. Vou levar o meu mandato até ao fim, embora me custe muito. Mas a maior frustração neste momento foi ter chegado a este lugar quando tinha tantos projectos e ideias para Fátima e não poder realizar quase nada, por não haver dinheiro nem capacidade de endividamento devido à Lei dos Compromissos.“O Santuário tem uma forma muito peculiar de ver as coisas”O Santuário de Fátima não tem sido um interlocutor fácil nalguns processos.Imaginava que se um dia chegasse a este cargo iria fazer uma aliança com o Santuário, uma frente para o desenvolvimento desta cidade. Essa frente acabou por não existir. O Santuário tem uma forma muito peculiar de ver as coisas e penso que tem também as decisões um bocado descentralizadas, não se tomam posições directamente aqui.Fátima é que perde com isso.Se houvesse uma maior cooperação tínhamos capacidade de desenvolver muito mais a cidade. O Santuário tem uma influência muito grande que poderia ajudar a capacidade de execução que a câmara municipal tem. Temos um bom relacionamento mas falta essa complementaridade.Mas há vários litígios pendentes, alguns até em tribunal. O Santuário pretende um tratamento de excepção?O Santuário acha por vezes que pode exceder certos limites. Há um princípio de justiça que sempre gostei de implementar: o que é para um cidadão tem que ser para o outro. E foi isso que de certa forma me revoltou nessa situação das obras ilegais no Centro Pastoral Paulo VI, com construção de quartos nos pisos -1 e -2. Algum comércio dá uma péssima imagem de FátimaComo empresário ligado ao comércio de artigos religiosos em Fátima, o que pensa da teimosia de alguns comerciantes em não acatarem as ordens da câmara para não exporem os seus artigos no exterior das lojas?Acho muito mau porque devemos preservar a cidade. Se ela nos dá o pão nós devemos ter cuidado com ela e acarinhá-la, para projectar uma boa imagem para o exterior. É uma situação na qual vou ter que insistir. Até porque acho que não é por terem os artigos na rua que vendem mais. Aqui, o que me parece é que há aquela ânsia de roubar o cliente do vizinho. Isto passa uma péssima imagem, é mau para todos. E os piores são os que vieram de fora.Que solução há para esse problema?A solução passa por um novo regulamento, que já foi aprovado em reunião de câmara, que tem algumas especificidades para zonas como Fátima, Aljustrel e castelo de Ourém. É muito mais rigoroso e com coimas mais elevadas que começam nos 500 euros e podem ir até à cassação da licença. Não lhe custa ver tantos produtos fabricados na China nas lojas da cidade?Custa-me, mas não há milagres nesse aspecto. Fátima nasceu a viver à base de produtos feitos no norte do país. A dado passo os produtos dos nossos fabricantes já não tinham a mesma qualidade e daí haver necessidade de procurar outros mercados. E o mercado chinês foi interessante porque os italianos puseram lá modeladores e a tecnologia e depois a mão-de-obra chinesa fez o resto. Fomos invadidos por produtos chineses como é o resto do país. A anunciada extinção do núcleo de turismo de Leiria-Fátima é uma machadada forte na promoção desta zona?Nunca fui a favor disso. Sempre achei que Fátima e o concelho de Ourém deviam ter um gabinete de promoção turística autónomo. Porque há sempre aquela tentação de Fátima ser região de turismo só para o nome e a promoção ser para a Nazaré, para Alcobaça, Batalha, São Pedro de Moel, Leiria. Fátima nunca tirou grandes resultados disso, apenas dava o nome. Temos coisas lindíssimas no concelho que podemos promover, mas a ideia é sempre levar as pessoas daqui para a Nazaré ou outros pontos.Fátima como destino turístico alicerça-se em acontecimentos ocorridos há quase um século. Acredita nas aparições?Sou um crente, mas acredito muito mais em Fátima. Nasci ao lado do Santuário e habituei-me desde miúdo a frequentá-lo com alguma assiduidade. O grande milagre para mim é a reacção que vejo em pessoas que entram no Santuário armadas em turistas e depois, naquelas grandes peregrinações, envolvem-se de tal forma que acabam por viver aquela situação de fé.É um homem de fazer promessas?Já tenho feito e cumpro-as. Ainda há pouco tempo vim a pé de Santarém a Fátima.E na política também faz questão de cumprir as promessas?Na política não tenho prometido muito. Tenho medo de prometer e depois não conseguir cumprir. Só prometo o absolutamente necessário. Só fiz algumas promessas em relação à obra da avenida, porque precisava de as fazer. Muita gente pensava que aquela obra nunca seria feita. Consegui chegar a acordo com todos os proprietários confinantes com a avenida e não fizemos uma única expropriação. Houve promessas que tive que fazer, algumas já cumpridas, outras que vou ter que cumprir até final do mandato. As obras na avenida D. José Alves Correia da Silva, em Fátima, eram mesmo necessárias?As obras resultaram do facto da Igreja da Santíssima Trindade ter sido construída em cima da via pública, na principal artéria de Fátima. Este foi um dos muitos motivos de descontentamento que me levou a aceitar candidatar-me, porque achei incorrecta aquela situação. A basílica podia muito bem ter ficado dez ou quinze metros abaixo e a avenida continuava como era.Quis ajudar a resolver a situação.Sim. Uma vez que se ia permitir que a igreja fosse construída na via pública, antes de se iniciar a construção da basílica devia-se ter feito os possíveis para que fossem realizadas as infra-estruturas que evitassem estrangulamentos da via. Aquela avenida esteve estrangulada durante sete anos. Foi uma má imagem que demos de Fátima. Perante esta inevitabilidade o túnel e as obras tinham que se fazer.Há um processo a decorrer no tribunal onde santuário pede uma indemnização de mais de dois milhões de euros à câmara por causa de uma parcela de terreno em Fátima. Não conseguiram chegar a acordo?O Santuário entende que aquela parcela lhe pertence mas a verdade é que aquilo é um logradouro das pracetas que eles ali construíram. Penso que vão ter muita dificuldade em provar que aquilo lhes pertence. Houve uma intervenção feita com dinheiros públicos, que embelezou o espaço, por isso acho que não há a mínima hipótese de considerar o local como sendo do Santuário. Ou então será uma injustiça tremenda para esta cidade.Um homem do associativismoNazareno do Carmo completa 60 anos em Março do próximo ano. Nasceu a 50 metros do Santuário de Fátima e habituou-se a frequentar o recinto com regularidade. Na sua opinião, o grande milagre de Fátima está na reacção das pessoas quando ali chegam. Mesmo os mais incrédulos envolvem-se naquela atmosfera e vivem os momentos de peregrinação com muita fé. “Existe uma atmosfera especial que não tem comparação com nenhum outro santuário do mundo e eu conheço muitos”, afirma.O autarca é proprietário de várias empresas de diversas áreas, desde artigos religiosos, velas decorativas e aromáticas, comboios turísticos e ainda possui um restaurante e snack-bar perto do Santuário. Além disso, sempre esteve ligado ao associativismo. Foi presidente da ACISO (Associação Empresarial do Concelho de Ourém) durante seis anos e é presidente da assembleia-geral do Centro Desportivo de Fátima há duas décadas. Esteve ligado aos corpos dirigentes dos Bombeiros de Fátima durante dois mandatos.Na política foi militante do PSD e fundador da concelhia social-democrata em Ourém. Foi eleito na Assembleia Municipal de Ourém pelos sociais-democratas durante dois mandatos.Licenciado em Gestão de Empresas é casado há cerca de 30 anos com uma professora que dá aulas no Centro de Estudos de Fátima. Tem dois filhos. Apesar de gostar da festa brava - chegou a organizar quatro corridas de toiros no concelho de Ourém - e do pai ser natural de Samora Correia, compreende que os oureenses prefiram estar ligados ao distrito de Leiria. “Todo o concelho de Ourém tem muito mais laços e tradições ligadas a Leiria do que ao Ribatejo”, conclui.

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