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“Era feliz quando tinha um Peugeot 205 e passava férias no parque de campismo”

Pedro Orvalho, 34 anos, adjunto do presidente da Câmara Municipal de Coruche

Há quem jogue golfe. Pedro Orvalho é DJ nos tempos livres. O adjunto do presidente da Câmara Municipal de Coruche, solteiro, 34 anos, formado em comunicação, gosta de todo o tipo de música. Se pudesse elevaria o “Bairro do Amor”, de Jorge Palma, a uma espécie de hino nacional. É um amante da poesia de Mário Sá Carneiro e de outros autores que “aleijam” com as palavras.

Edição de 24.10.2012 | Três Dimensões
As minhas melhores memórias de infância estão ligadas ao meu avô materno, Zé Cansado. Íamos de mota à pesca para os açudes e barragens e aos pássaros com a pressão de ar. Ajudava-o a plantar as favas na horta. Muito da minha personalidade se deve a esse contacto. Ainda hoje utilizo expressões dele. O meu avô era a pessoa mais enérgica que conheci até hoje. Sinto muito a sua falta.Há quem jogue golfe nos tempos livros, eu sou DJ. Isso vem da paixão que tenho pela música há vários anos. Comecei com 16 anos na rádio e só parei aos 23. Gosto de todo o tipo de música. Do jazz ao heavy metal. O Bairro do Amor, de Jorge Palma, seria um bom hino para a sociedade de hoje. “No Bairro do Amor não há prisões nem hospitais. Cada um tem que tratar das suas nódoas negras sentimentais”. Seríamos bem mais felizes sem esta lógica economicista em que os números prevalecem sobre os sentimentos. Gosto de Jorge Palma. É um dos melhores poetas contemporâneos. Ainda vai chegar o dia em que os miúdos o vão ler na escola. Era feliz quando tinha um Peugeot 205 com 200 mil quilómetros e passava férias no parque de campismo de Vila Nova de Mil Fontes. Isto há 14 anos. Agora tenho um BMW descapotável e passo férias num apartamento mas não quer dizer que isso me traga mais felicidade. Só dás valor a uma coisa quando não a tens. Queres ter um computador topo de gama de três mil euros até o teres. Depois percebes que é igual ao de 600 euros.Continuo a acreditar nos políticos porque trabalho há 11 anos com um homem que é um bom exemplo. Arrepia-me saber que há pessoas que não olham para a causa pública da mesma maneira que o presidente Dionísio Mendes. Um político tem que ser uma pessoa honesta e colocar o interesse público à frente de todos os outros interesses. Primeiro sou do Coruchense e só depois do Benfica. Sofro muito com o Benfica, até tenho lugar cativo no estádio, mas sofro mais com o Coruchense. Sou vice-presidente do clube que foi muito importante na minha formação. Além de formarem jogadores, os clubes têm a responsabilidade de formar homens. Se ainda conseguir ter direito à reforma gostava de ir viver para o litoral alentejano. Não escondo que gosto da agitação do Algarve em Agosto, apesar de algumas pessoas fugirem disso. Gosto da praia. Gosto da agitação da noite. Gosto de dormir pouco. Também gosto da neve mas tem sido um destino adiado por causa da crise. Nasci em Évora, cresci em Coruche e não teria sido mais feliz noutro sítio. No Verão fazia descidas em jangadas improvisadas no rio. Sempre gostei de jogar à bola e andar de bicicleta. Cresci no meio de amigos e a brincar na rua, coisa que os miúdos hoje têm pouco. Ficam muito tempo no sofá agarrados à televisão e internet. Não se sujam, não rasgam as calças, nem esfolam os joelhos. Sou aficionado mas não sou forcado. O meu vizinho Zé Capricho, que foi forcado durante muitos anos no Aposento da Moita, convenceu-me uma vez a ir com ele a uma vacada. Tinha 12 anos. O rapaz que tentou fazer uma pega antes de mim ficou com um braço virado ao contrário. Recuei e acabei por não ser forcado. Mas gosto da festa e vou aos toiros sempre que posso. “Quando eu morrer batam em latas/ Rompam aos saltos e aos pinotes/ Façam estalar no ar chicotes/ (...) Que o meu caixão vá sobre um burro”. “Fim” é um poema de Mário Sá Carneiro de que gosto. Sou um apaixonado por poesia. Também gosto de António Lobo Antunes e Rodrigo Guedes de Carvalho. Gosto da escrita violenta que às vezes aleija. Sou uma pessoa criativa e a brutalidade da escrita que têm deixa-nos sempre uma margem para criar. Sempre fui de dar o peito às balas. Desde muito cedo comecei a expor-me e tive que habituar-me a tudo o que isso tem de bom e de mau. Aparecia, defendia e argumentava. Também por isso ou sou amado ou odiado. Há pessoas que se limitam a comer pó. Eu gosto de levantá-lo.Ana Santiago

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