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Crise afasta aficionados das praças de toiros

Crise afasta aficionados das praças de toiros

Empresários baixam preços e número de corridas e artistas cedem nos cachês

A crise está a afastar os aficionados das praças de toiros. Os empresários são por isso obrigados a reduzir preços e número de espectáculos. Os artistas que garantem a animação em tardes de sol adaptam por seu lado os cachês à realidade económica. Porque o espectáculo tem que continuar.

Edição de 27.03.2013 | Cultura e Lazer
Nos seus tempos áureos de aficionado, António Salema, hoje com 83 anos, chegava a assistir a 50 corridas de toiros por ano entre Portugal e Espanha. Actualmente contam-se pelos dedos os espectáculos tauromáquicos a que assiste. A idade já pesa mas não é só esse factor que o condiciona. A carteira também não o permite. “Tenho pena mas não posso mexer em dinheiros que fazem falta para o orçamento da casa”, justifica o reformado da EPAL, residente em Azambuja. Nos anos 50 do século passado chegou a gastar 50 contos (250 euros) para viajar e ver corridas em Espanha. Era solteiro e levava as refeições em caixas de plástico para poupar. Aventura impensável nos dias de hoje. “Com reformas pequenas não podemos fazer flores. Vinte euros já ajudam a pagar a conta da luz”, confessa com um sorriso.Na tertúlia que tem a poucos metros de casa, no centro da vila de Azambuja, alimenta a aficion entre fotografias, cartazes, filmes e um canal de Sevilha que acompanha graças à parabólica. “É uma forma barata de ser aficionado hoje em dia”, desmistifica o neto, André Salema, 28 anos, que desde os 12 anos acompanha o avô em praças portuguesas e espanholas em tardes de sol. Também André, que há cinco anos gastava 200 euros por temporada para ver uma dezena de corridas, às vezes com um jantar à mistura, deixou de o fazer. Falta o tempo, porque tem uma vida profissional e associativa intensa, mas a necessidade de poupança também fala mais alto. “Os preços das corridas de toiros nunca estiveram tão baixos mas as famílias têm outras prioridades”, analisa. Os dois acreditam que a tendência será que o número de corridas diminua ficando apenas os espectáculos das principais feiras. É exactamente essa a estratégia que vai adoptar o empresário que explora a Praça de Toiros de Santarém. O mesmo já decidiu a empresa do Campo Pequeno em Lisboa (ver caixa). Depois de ter reduzido os bilhetes para os 7,50 euros e sem mais margem de manobra resta a João Pedro Bolota passar de seis para três espectáculos em Santarém. Nos sete anos que já leva de exploração da praça nunca teve um ano tão fraco como 2012, o que o levou a repensar o negócio. “Vamos apostar na qualidade e em cartéis que trazem sempre público”, desvenda. Santarém receberá assim em 2013 uma corrida que assinalará os 35 anos de alternativa de João Moura. Ao contrário de João Pedro Bolota o empresário que explora a praça de Toiros Palha Blanco, em Vila Franca de Xira, ainda tem margem para diminuir os preços. Os lugares que antes custavam 25 vão passar a custar 20. Os bilhetes de 15 euros passam a ter um preço de apenas 10. O ajustamento é a resposta que a praça de Vila Franca apresenta face à crise. Apesar de ter registado um quebra de público a Palha Blanco vai voltar a realizar cinco corridas tradicionais. “Queremos oferecer espectáculos mais apelativos para levar as pessoas à praça, como serão o caso dos recortadores e do forcão que vamos trazer com o apoio da Casa do Sabugal”, revela Ricardo Levesinho.Face às dificuldades que sentem os empresários que exploram as praças os artistas têm que adaptar-se e em alguns casos baixar os cachês. A cavaleira Ana Baptista, de Salvaterra de Magos, que comemora este ano 25 anos de toureio e tem já marcadas 25 corridas, menos cinco até agora que no ano passado, admite que em alguns espectáculos teve necessidade de diminuir a sua remuneração para facilitar a vida aos empresários que também lhe dão a mão integrando-a nos cartazes. “Temos que nos ajudar a todos”.A mesma postura tem o cavaleiro Rui Salvador, de Tomar. “O espectáculo é para o povo e o povo anda, como sabemos, muito atrapalhado”. O cavaleiro tem já três dezenas de espectáculos marcados para a próxima temporada, tal como no ano anterior, mas aguarda com expectativa o desenrolar da época tauromáquica. Rui Salvador diz que ainda assim o panorama taurino está de melhor saúde que outras áreas culturais como o teatro ou o cinema. Isto porque mexe com uma tradição muito enraizada na cultura portuguesa. Campo Pequeno também diminuiu espectáculos A empresa do Campo Pequeno decidiu diminuir o conjunto de corridas para a temporada reduzindo também os preços dos bilhetes. A praça de Lisboa vai realizar este ano 12 espectáculos (11 corridas e uma novilhada), menos três que em 2012. A redução dos espectáculos deve-se ao facto de ter optado por uma “atitude de gestão prudente”, face à conjuntura socioeconómica que se vive em Portugal e na Europa.A praça vai ter uma redução de 11,5 por cento no preço das barreiras dos sectores cinco e seis, de 12,5 por cento nas contra barreiras e de nove por cento na primeira fila dos mesmos sectores. Nas galerias de segunda ordem a empresa optou por fazer uma redução de 33 por cento.O abono (bilhete para o conjunto dos 12 festejos taurinos) custará menos 15 por cento relativamente ao preço dos bilhetes adquiridos corrida a corrida e manter-se-á a aposta no abono «Cativo Júnior», de 100 euros, para jovens até aos 25 anos. A temporada arranca em Lisboa a 4 de Abril, pelas 22h00.
Crise afasta aficionados das praças de toiros

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