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“Vivemos num mundo agressivo e pouco tolerante”

“Vivemos num mundo agressivo e pouco tolerante”

Luísa Morais, Médica, 62 anos, Santo Estêvão, Benavente

Luísa Morais, de 62 anos, tem três filhos e dois netos. Há quatro anos mudou-se para Santo Estêvão, concelho de Benavente, depois de toda a vida ter morado em Lisboa. Gosta do ambiente rural e da hospitalidade das pessoas. Trabalhou durante 26 anos no Hospital Reynaldo dos Santos, em Vila Franca de Xira. Embora já se tenha aposentado, continua a exercer medicina privada. Tem agora mais tempo livre. Quer aprender a tocar piano.

Edição de 27.03.2013 | Três Dimensões
Fui sempre uma aluna mediana. Nunca reprovei. Estudei no colégio Sagrado Coração de Maria. Não era muito rígido, guardo ainda boas recordações. Saí de lá com princípios muito importantes para a vida como a disciplina ou o respeito pelos outros que os meus pais também me transmitiram. Tentei transmitir o mesmo tipo de educação aos meus filhos e netos. Lembro-me das aulas de lavores femininos, onde aprendíamos a bordar ou a coser. De resto brincava com bonecas, à apanhada ou à macaca. Se não fosse médica seria arquitecta. Gostava muito de planear casas. O meu pai ofereceu-me legos e eu passava muito tempo a construir casas. Estava muito ligada às artes, ao desenho, à arquitectura. Mas depois tinha de ter latim e grego para tirar arquitectura o que me desmotivou. Hoje não me arrependo da profissão que escolhi. Os meus pais nunca me levantaram nenhum obstáculo. Todos os dias vou para Lisboa. Já me aposentei mas ainda dou consultas no Hospital dos Lusíadas, em Lisboa, e continuo a dar consultas privadas num consultório em Vila Franca de Xira. Trabalhei durante 26 anos no Hospital Reynaldo dos Santos. Tenho agora uma vida mais descansada. Tirei o curso de medicina para ver doentes e tudo o resto em que me envolvi posteriormente em cargos de gestão não é paralelo, mas extra-medicina. Mas também gostei de desempenhar esses cargos de gestão. Vou agora aprender a tocar piano. Fui sempre muito activa. Sempre gostei de me envolver em várias coisas ao mesmo tempo. Inscrevi-me novamente no ginásio porque senti que a minha capacidade física começou a diminuir em termos de flexibilidade e resistência. Em Abril vou começar a ter aulas de piano. Gosto muito de ouvir todo o tipo de música. Já os filmes deixei quase de ir ao cinema e passei a ver em casa. Também gosto de fazer tricot, croché ou pequenos arranjos de costura. Uma das melhores viagens que fiz foi à Roménia. Vivi uma série de situações insólitas e inesperadas. Já percorri os quatro cantos do mundo, seja em lazer ou em trabalho. Cada país tem o seu encanto e as suas ofertas. Gosto muito de ir a Nova Iorque e de todo o seu encanto. Já viajei tanto que agora gosto mais de ficar por casa. Vila Franca de Xira não tem identidade. O meu marido é vila-franquense e apesar de eu ter trabalhado grande parte da minha vida no Hospital Reynaldo dos Santos nunca pensei lá morar. Tem o Colete Encarnado e a Feira de Outubro, mas já são tradições que vivem com muita gente de fora. Fecha tudo em Vila Franca de Xira. Está a morrer. Santo Estêvão é uma aldeia com muita vida. Há quatro anos que me mudei para aqui. Gosto desta ruralidade. Ao sábado vou ao mercado, ao talho, aos restaurantes aqui da zona. Os moradores são muito hospitaleiros. A minha terra é Lisboa, mas gosto muito de Santo Estêvão. Valorizo muito o respeito pelas outras pessoas. É preciso aceitar as diferenças de cada um. Saber conviver com essas diferenças. Ser muito tolerante. Um médico lida com muitas pessoas, assiste a tantos dramas e alegrias, o que nos leva também a conhecer muito bem o ser humano. Os problemas existem e é preciso saber que eles existem. Os médicos não lidam só com a parte física, mas também com a parte emocional. A morte é uma consequência natural da vida. No início da carreira é com muita dificuldade que lidamos com a morte. Depois vamos percebendo que é um processo natural, não me apavora. Os médicos investem para que os doentes não morram. Não se trata de um não sucesso, mas mexe connosco. Não é uma questão de desumanização, mas encara-se de uma maneira diferente ao longo do tempo. Os doentes chegam ao consultório já com o diagnóstico. Hoje em dia as pessoas vão à internet e encontram toda a informação que não é filtrada. Vivemos num mundo pouco tolerante, agressivo, e isso não leva a bom porto. Sou uma pessoa normalmente muito calma, raramente perco a cabeça, mas às vezes tenho de ser mais dura com um paciente.Eduarda Sousa
“Vivemos num mundo agressivo e pouco tolerante”

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