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Mateus Prieto quer ser figura de topo no mundo dos toiros

Cavaleiro residente em Benfica do Ribatejo deu prioridade à carreira na festa brava deixando o curso superior de jornalismo para segundo plano

Mateus Prieto tomou alternativa de cavaleiro tauromáquico profissional na monumental Celestino Graça, em Santarém, no dia 10 de Junho. O MIRANTE acompanhou-o antes de entrar na arena e descobriu um jovem devoto e supersticioso, com muita vontade de triunfar na festa brava.

Edição de 12.06.2013 | Sociedade
Montado no Rubi, um cavalo castanho que está na sua quadra há dois anos, Mateus Prieto observa, por cima dos portões, o público que já se encontra no interior da praça de toiros Celestino Graça, em Santarém. Nos bastidores vai aquecendo os cavalos que irão entrar consigo na arena. Joaquim Bastinhas, Sónia Matias e Luís Rouxinol, alguns dos cavaleiros que com ele vão partilhar a corrida nessa tarde, desejam-lhe sorte. Mateus Prieto agradece com um sorrido tímido. A casaca azul e branca foi feita propositadamente para a ocasião, com as suas cores preferidas.Apesar de aparentar serenidade, o jovem não esconde a ansiedade por aquela que é, até agora, a corrida mais importante da sua carreira. Dentro de momentos vai entrar na arena para tomar a sua alternativa, na tarde de segunda-feira, 10 de Junho (feriado que assinala o Dia de Portugal).O seu apoderado, António Manuel Cardoso (mais conhecido por Nené), aponta para a testa e pede-lhe para se concentrar apenas na sua lide e no toiro que lhe vai calhar em sorte. Depois das cortesias Mateus Prieto é o primeiro cavaleiro a actuar. Joaquim Bastinhas recebe-o no centro da arena para o apadrinhar na sua alternativa, em que passa a toureiro profissional. O que o seu padrinho lhe disse ficou só entre os dois mas foi o suficiente para o emocionar. Antes de iniciar a sua lide, Mateus dirigiu-se à sua família, dedicando-lhes a sua actuação. “Por tudo o que lutamos até aqui, esta vai por nós”, disse com a voz embargada enquanto entregou o tricórnio ao pai, Mário Prieto. O jovem cavaleiro recebeu o toiro, com mais de 500 quilos, com entusiasmo tendo arrancado fortes aplausos ao público. E nem um pequeno toque do toiro na montada o desmoralizou ou assustou, entusiasmando sempre a assistência que, com palmas, acompanhava os músicos da Banda da Nazaré. Todos os ferros arrancaram aplausos apesar de dois deles não terem ficado cravados, um quando tentava fazer um ‘violino’ e outro um ferro ‘de palmo’. Insatisfeito, Mateus Prieto mostrou a sua raça e pediu a um dos seus peões-de-brega para ir buscar o ferro ao centro da arena e voltou a tentar a sua sorte tendo recebido uma ovação de pé. A sua actuação foi mais longa que o habitual uma vez que o público exigiu que o jovem cavaleiro continuasse a brilhar naquela que era ‘sua’ tarde. Trocou apenas uma vez de cavalo.A acompanhar Mateus Prieto estiveram os cavaleiros Joaquim Bastinhas, Luís Rouxinol, Sónia Matias, Filipe Gonçalves e Duarte Pinto que lidaram, cada um, um toiro do curro Manuel da Veiga. Estiveram em praça os forcados amadores de Santarém e Alcochete. Depois da primeira pega, bem executada à primeira tentativa pelo cabo dos forcados de Santarém, Diogo Sepúlveda, Mateus Prieto voltou a entrar na praça para dar a tradicional volta. Foi ovacionado de pé tendo recebido muitas flores e palavras de incentivo pela sua primeira lide enquanto cavaleiro profissional. “Parabéns” foi a palavra mais escutada por parte do público e de quem se cruzava com o cavaleiro.O pai, que se encontrava na primeira fila das bancadas [barreiras], não escondia o nervosismo pela actuação do filho. “Estou nervoso mas confiante, porque o Mateus treinou e lutou muito para chegar aqui”, confessou a O MIRANTE no final da actuação do filho, já nas trincheiras.No final encontramos Mateus Prieto junto às trincheiras com um sorriso rasgado e muito feliz por ter alcançado um dos muitos sonhos da sua vida.“Os toiros de morte fazem falta às corridas portuguesas”O MIRANTE acompanhou Mateus Prieto nos momentos que antecederam a sua chegada à praça. Fomos ao seu encontro num quarto de um hotel da cidade escalabitana. Quando chegamos já se tinha vestido, faltando apenas colocar a casaca. Os seus três peões de brega chegaram alguns minutos depois. Fazem questão de sair sempre juntos para a praça. O tricórnio estava em cima de uma cadeira, para não dar azar. Confessa-se religioso. Na cómoda está o seu pequeno altar, que leva para todo o lado antes de uma corrida, com uma imagem de Nossa Senhora e vários terços de diferentes cores. Uma toalha branca com o seu nome debruado a vermelho também lá está. Como a maioria dos toureiros é supersticioso. Não vê os toiros antes das corridas, nunca coloca o tricórnio em cima da cama, entra na praça sempre com o pé direito e não corta o cabelo à terça e sexta-feira.Mateus Prieto nasceu há 20 anos em Lisboa mas vive numa quinta em Benfica do Ribatejo (concelho de Almeirim) há oito anos. Tinha quatro anos quando montou pela primeira vez um cavalo e o seu sonho era ser cavaleiro de obstáculos. Aos 13 anos, pouco depois de vir viver para o Ribatejo, conheceu muitos amigos ligados ao mundo da festa brava e resolveu tourear, por curiosidade. A paixão foi tão grande que nunca mais quis outra coisa e rapidamente pôs de lado a ideia de ser cavaleiro de obstáculos.O jovem toureiro quer chegar o mais longe possível e tornar-se uma figura no mundo da tauromaquia. Treina todos os dias desde as nove da manhã às seis tarde. “É o meu trabalho e tenho que dar o meu melhor”, explica a O MIRANTE. Apesar da actividade exigente diz que ainda consegue ter tempo para a namorada e para os amigos. O curso de Jornalismo é que está parado. Não desistiu de o concluir mas o toureio é prioritário. “Vou fazendo o curso aos bocadinhos”, conta.Faz corridas em Portugal e Espanha. Gosta de tourear em Portugal mas confessa que em Espanha as corridas são mais completas defendendo os toiros de morte. “Os toiros de morte fazem falta às corridas portuguesas. Depois da morte dos toiros, os toureiros são premiados e isso seria uma maneira de diferenciar os toureiros e parar com algumas injustiças que por vezes acontecem”, afirma.Tirar a alternativa em Santarém sempre foi um dos seus objectivos. É nesta cidade que tem grandes amigos e onde começou a tourear. Lamenta que uma praça “tão importante” não tenha sido devidamente valorizada durante anos. Proveniente de uma família aficionada, os pais são o seu principal apoio financeiro para lutar pelo seu sonho. Mateus Prieto acredita que se os bilhetes das corridas de toiros baixarem as praças vão voltar a encher como acontecia há uns anos.

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