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“Se o novo Acordo Ortográfico não for aplicado depois do que já se fez será uma comédia”

Professor Arnaldo Marques considera errado dizer-se que estão a mudar a língua

O Acordo Ortográfico já é utilizado em Portugal, nomeadamente em escolas, organismos oficiais e em muitos meios de comunicação social. Em Maio de 2015 está previsto que entre em vigor em todo o país. Arnaldo Marques que é professor de Português há cerca de trinta anos (ensina no Agrupamento de Escolas Cidade do Entroncamento) e tem estudos pós-graduados em Cultura Portuguesa e em Linguística e Ensino do Português considera que não é um fanático do Acordo mas não esconde que é um entusiasta e estudioso do mesmo.

Edição de 26.06.2013 | Especial Ensino
Nota prévia: Esta entrevista foi feita por e-mail. As perguntas do jornalista estão em grafia anterior ao Acordo Ortográfico, sendo que as respostas do entrevistado estão em grafia atualizada.Sentiu, em alguma altura da sua vida, a necessidade de um novo Acordo Ortográfico ou limitou-se a debruçar-se sobre o assunto quando ele passou a fazer parte da agenda política?Esquece-se com frequência que, em 1973, andava eu no oitavo ano atual, houve um acordo ortográfico, na altura, naturalmente, apenas entre Portugal e o Brasil, que teve uma incidência muito restrita - “sozinho” e “agradavelmente”, por exemplo, passaram a grafar-se sem acento grave - e que foi bem aceite. Isto para dizer que, bem cedo na vida, percebi que a ortografia não é imutável e tendencialmente acompanha a evolução da própria língua no seu conjunto. Não é por acaso que o português é uma língua viva, não é? E olhe que eu tenho o maior respeito pelas línguas mortas, especialmente por aquelas de que a nossa língua é herdeira direta, como o Grego antigo e o Latim. Incompreensível e verdadeiramente lamentável é que estas línguas tenham praticamente desaparecido do nosso sistema de ensino. Tão absurda é a situação que tenho a convicção de que pelo menos o Latim vai ter de regressar em força ao nosso sistema de ensino. Calculo que tenha sido fácil a sua adesão ao Acordo. Teria sido assim se não fosse professor e, nomeadamente, professor de português?Foi fácil, porque as alterações não são muitas nem muito complicadas. Ser professor de Português ajuda, claro que sim. Mas não é condição essencial.Todos os seus amigos são adeptos do Acordo Ortográfico?Os meus amigos são quase todos pouco amigos do Acordo, sobretudo os amigos que são professores de Português. Mas eu também não sou um defensor fanático, embora, no essencial, considere que o Acordo tem vantagens, que aliás vão para além de questões estritamente linguísticas e pedagógicas.Uma das razões apontadas para a adesão de Portugal ao Acordo Ortográfico foi o facto de irmos ficar isolados numa espécie de pré-história ortográfica, se não alinhássemos. Isso é verdade? Já não estamos na pré-história da ortografia. Desde o século XII, o Português falado e escrito tem sofrido uma enorme evolução. Não é possível pensarmos que uma língua viva não está em constante mudança. O mesmo se passa com a sua ortografia, que, embora seja naturalmente mais “conservadora” do que a fala, por ser um código normativo, também está sujeita ao tempo e, portanto, à evolução. Quanto ao isolamento, é preciso termos a noção de que a língua portuguesa, sendo originária de Portugal, não é pertença dos portugueses, mas sim de todos os que a têm como língua materna. Ora, a grandeza da língua portuguesa no mundo deve-se hoje sobretudo ao Brasil, que tem quase 200 milhões de falantes. E também aos países africanos de língua oficial portuguesa, que estão a emergir, e onde o Português é cada vez mais a língua materna dos cidadãos. Isto tem um alcance extraordinário, deve encher-nos de orgulho e não de ressentimentos bacocos.Porque não se coloca a necessidade de um Acordo Ortográfico noutras línguas faladas em diferentes países?As grandes línguas europeias têm a ortografia estabelecida há muito mais tempo do que a nossa, que foi normalizada só em 1911, já com a República. Por outro lado, embora presentes em muitos países diferentes, não têm normas ortográficas divergentes, como sucedia com o Português. Devemos ter consciência de que o Português é a única grande língua internacional que tinha até há pouco duas normas ortográficas distintas.Os adeptos do novo Acordo Ortográfico apanharam um susto quando o Brasil decidiu suspender a adesão ao mesmo. O que sentiu nessa altura? Senti algum desconforto. É sabido que uma boa parte das elites do Brasil tem um certo preconceito contra os colonizadores, que preferia tivessem sido ingleses. Não foi uma atitude consequente por parte do Brasil.Com o Brasil ou sem o Brasil e com Angola ou sem Angola, ainda há alguma hipótese de voltarmos à primeira forma?Julgo que não. Seria uma comédia. Pode é haver alguns ajustamentos. Aliás, deve haver ajustamentos, que vão ao encontro do interesse comum e que resolvam algumas fragilidades do presente Acordo.Se o Brasil e Angola não forem em frente com a aplicação do Acordo Ortográfico, vamos ser a vanguarda da língua portuguesa ou os idiotas de serviço?Estas coisas arrastam-se, não é? É um sinal daquilo que somos. Repare-se que estamos agora a iniciar a implementação de um Acordo Ortográfico que é de 1990! E tudo se está a complicar. Como a maior parte das nossas comunicações por escrito são fixadas em processadores de texto, basta um corrector ortográfico para qualquer um aderir ao novo Acordo Ortográfico?Ajuda, mas não basta. O corretor ortográfico é “cego”, e felizmente que é cego. Se eu escrever “concelho” com um , o corretor não sinaliza, porque a palavra também existe. É sempre preferível automatizarmos a grafia das palavras, sabermos as regras. O mesmo se passa com o uso das calculadoras: saber a tabuada é de longe preferível a estarmos sempre dependentes de uma calculadora. Para o cidadão comum que apenas lê os jornais desportivos, as revistas de escândalos e alguns livros de autores de supermercado, o Acordo Ortográfico tem algum impacto?Não tem grande impacto e apenas dá azo a alguns equívocos. Infelizmente, o conhecimento da ortografia nunca foi muito elevado, mesmo entre os portugueses mais escolarizados. Dizer-se que “estão a mudar a língua”, por exemplo, é claramente inexato. O que se está a alterar é a ortografia da língua, ajustando-a a uma dimensão mais fonética e, portanto, menos etimológica. A língua existe sem a ortografia. A língua escrita, sendo uma aquisição civilizacional, surge sempre muito depois da língua falada. Aliás, ainda hoje há imensas línguas sem escrita, e não é por isso que deixam de ser línguas de pleno direito.Os estudantes que tinham aprendido a ler e a escrever segundo a antiga grafia tiveram alguma dificuldade em adaptar-se à nova?Em rigor, ainda mal se adaptaram. Mas não acho que lhes seja difícil passarem a escrever “leem” sem acento circunflexo, “autoestrada” sem hífen, “redação” sem ou “joia” sem acento gráfico. Nestes casos, retiram-se sinais gráficos que não interferem na leitura das palavras.No caso das consoantes mudas, diz-se que elas sinalizam a abertura das vogais que se lhes seguem.Esse argumento só parcialmente colhe. Em palavras como “atual” ou “atriz”, por exemplo, o deixou de ser aberto há muito, apesar de lá ter estado o a seguir. Inversamente, não é por escreverem “seleção” sem o que os brasileiros fecharam o . O problema é outro e, aliás, mais fundo. É que as vogais do Português europeu sofrem de um progressivo fechamento, o que torna a nossa pronúncia mais “baça” e “tristonha” do que a pronúncia dos brasileiros e dos africanos. A Sophia tem um belo poema sobre este fenómeno do Português europeu falado. Tem alguma ideia sobre a forma como as mensagens de telemóvel dos jovens foram afectadas pelo Acordo Ortográfico?Não me parece. A grafia das mensagens de telemóvel é uma escrita quase fonética (aliás, muito curiosa), que surpreendentemente não tem interferido substancialmente no universo escolar.As crianças estão a ter melhores notas a Português com o novo Acordo Ortográfico?Não. Até porque a disciplina de Português tem dimensões muito mais importantes e mais justamente valorizadas do que o domínio da ortografia, que, sendo relevante, não deixa de ser meramente instrumental. É claro que, sendo uma dimensão básica da língua escrita, a ortografia deve estar adquirida, sob pena de “manchar” as outras dimensões presentes num texto escrito e que, repito, são muito mais relevantes. Ninguém “acredita”, digamos assim, num texto cheio de erros ortográficos… O facto de escritores como Miguel Sousa Tavares ou Vasco Graça Moura escreverem segundo a antiga grafia retira-lhe a vontade de ler os seus livros?Nem pensar. Enquanto poeta, ensaísta e tradutor, o Vasco Graça Moura é alguém cuja leitura não se dispensa.Deus continua a escrever-se com letra maiúscula?Com certeza que sim, quando a palavra se refere à entidade divina suprema das religiões monoteístas. Mesmo em expressões feitas, como “graças a Deus”, continua a escrever-se com maiúscula. Mas “deus” também é um nome comum, que se escreve com minúscula inicial, quando designa uma entidade divina das mitologias pagãs. Há palavras que com o novo acordo ficam meio estranhas. Passar de espectador a espetador, por exemplo, não é fácil. E há aquela célebre frase, creio que do Miguel Esteves Cardoso, “O cágado estava de facto nas dunas” que, segundo ele, se transformaria em “O cagado estava de fato nas dunas”.Esse exemplo é um dos muitos que os detratores arremessam contra o Acordo, mas só revela ligeireza na apreciação, ignorância ou porventura uma caprichosa má-fé. No caso vertente, não tem qualquer razão de ser: com o novo Acordo, a frase, em Português europeu, escreve-se exatamente como se escrevia: “O cágado estava de facto nas dunas”. As palavras esdrúxulas, como “cágado”, não deixaram de ser acentuadas graficamente, e “facto” continua a grafar-se com , porque esta letra representa um fonema que continua a articular-se no Português europeu e africano.As principais mudanças que traz o acordoNão é fácil resumir o que muda com o Acordo Ortográfico. Mas como resumiria as principais mudanças? As alterações abrangem cinco áreas. Uma delas é absolutamente pacífica, que é a que faz passar o alfabeto oficial da língua portuguesa de 23 para 26 letras. Acrescentam-se oficialmente o , o e o , que aliás há muito tinham entradas nos dicionários gerais de língua. Uma segunda área prende-se com o uso das letras iniciais minúsculas e maiúsculas, cuja principal alteração estipula que os nomes das estações e dos meses do ano passem a escrever-se com inicial minúscula. Outra alteração elimina alguns acentos gráficos, quando estes não são essenciais para a leitura das palavras que deixam de os ter. Uma quarta alteração normaliza o emprego do hífen, que é um sinal complicado na nossa grafia, mas já o era, e de que maneira!, antes do Acordo. Finalmente, a alteração mais polémica elimina as consoantes etimológicas e

- também chamadas consoantes mudas -, no caso de não se articularem. A eliminação destas consoantes acaba por alargar o âmbito das duplas grafias para uma mesma palavra, quando há mudanças fonéticas em curso por parte dos falantes. Por exemplo, “caracterizar”: a pronúncia desta palavra está paulatinamente a perder a articulação do , mesmo entre os falantes cultos. Ora, com este Acordo, a flutuação de pronúncia permite que se escreva “caracterizar” e “caraterizar”, conforme a pronúncia de cada falante, sem que haja erro ortográfico. No entanto, deve salientar-se que já existiam duplas grafias antes deste Acordo, como em “ouro” e “oiro”, por exemplo.

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