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Associação de Beneficiários da Lezíria investe 7 milhões em projectos de modernização

Associação de Beneficiários da Lezíria investe 7 milhões em projectos de modernização

Joaquim Madaleno diz que as obras são fundamentais para aumentar a qualidade da produção

A Associação dos Beneficiários da Lezíria Grande, de Vila Franca de Xira, vai investir este ano 7 milhões de euros na modernização das estruturas de rega e noutras pequenas obras para poder aumentar a qualidade da produção. Em entrevista a O MIRANTE o director-executivo da associação, Joaquim Madaleno, diz que há emprego na lezíria, acusa as grandes superfícies de insensibilidade social e queixa-se que os organismos reguladores não funcionam. O responsável diz que as cooperativas de agricultores foram um modelo falhado e alerta para as consequências negativas da nova revisão da Política Agrícola Comum. Considera “desastrosa” a passagem de Jaime Silva pelo Ministério da Agricultura e lamenta que os grandes parceiros sociais como é o caso da Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP) sejam movidos por influências políticas.Uma entrevista com um homem que fala dos problemas dos agricultores com conhecimento de causa e que é totalmente contra a politização das associações e que gostava de ver os parceiros sociais menos dependentes do Governo.

A Associação dos Beneficiários da Lezíria Grande de Vila Franca de Xira (ABLG) vai investir este ano sete milhões e 497 mil euros na realização de obras na lezíria que permitirão aumentar a qualidade da produção daquela que é a principal área agrícola da região.Os investimentos são em parte financiados pela Comunidade Europeia e uma das principais obras será a colocação e melhoria dos sistemas de rega de um dos sectores de plantação da lezíria, obra orçada em mais de 5 milhões de euros. A associação vai também recuperar e reabilitar o dique da lezíria, que tem 62 quilómetros e 52 comportas de água. “No essencial trata-se de um conjunto de projectos que visam aumentar a capacidade de adução e bombagem de água para rega”, explica Joaquim Madaleno, director-executivo da associação. Os agricultores da lezíria são responsáveis por produzir metade do arroz que é consumido em todo o país. Sob a supervisão da associação estão mais de 14 mil e 300 hectares, dos quais 12 600 são superfície agrícola útil. Milho e tomate são as duas outras culturas que ainda permitem aos agricultores retirar rentabilidade da produção.“Os agricultores abandonaram o gado, não dava para ganhar dinheiro. Hoje praticamente não há gado na lezíria”, refere o responsável, que diz “não ter dúvidas” que é nas culturas de regadio que a região consegue ser competitiva. Em queda acentuada está também a cultura do melão, por culpa das grandes superfícies comerciais. “Não têm a mínima preocupação social, falam nas suas publicidades de «clubes de produtores» mas isso é só para tapar os olhos ao povo. As grandes cadeias têm o objectivo do lucro, não olham a meios para atingir os fins. Eliminaram o intermediário e deixaram esse custo para o agricultor, que não consegue produzir as toneladas que eles pedem”, critica. Para Joaquim Madaleno os instrumentos que regulam a produção não são iguais para quem produz em Portugal e para quem importa e os organismos reguladores não funcionam. “As grandes superfícies colocam o leite abaixo do preço de custo e só pagam uma multa de vez em quando? Andam a brincar com isto. Ninguém produz leite abaixo de um euro por litro”, nota.O responsável diz que apesar dos retrocessos em alguns sectores os consumidores pedem produtos nacionais, mas questiona-se sobre os desequilíbrios que ainda predominam no sector. “Grande parte do arroz que nós produzimos vai para as papas de bebés que se produzem em Portugal e o resto vai para a China. Depois vamos importar da Tailândia e do Suriname a maioria do arroz de marca branca que se vende nos supermercados”, refere, com uma agravante que faz toda a diferença: nesses países usa-se a abusa-se de adubos e tratamentos fitossanitários que são proibidos na Europa o que quer dizer que podemos estar a consumir veneno na alimentação sem quaisquer possibilidades de controlo das autoridades.Segundo o responsável da ABLG as principais preocupações dos agricultores dizem respeito à nova revisão da Política Agrícola Comum (PAC), que irá alargar os apoios por áreas como o montado de sobro e pinheiro manso, restando menos dinheiro para quem quiser investir noutras culturas como o tomate, arroz ou milho. Joaquim Madaleno diz que a decisão penaliza as culturas que geram emprego e que os investimentos vão estagnar. “Vamos subsidiar culturas que não vão gerar mais-valias e não são competitivas. Vai inibir o investimento e o crescimento”, alerta.Para Joaquim Madaleno desinvestir na agricultura nos anos 90 foi um “erro estratégico” e de falta de visão, motivado por um ministério “obsoleto” e com técnicos desactualizados. “Tivemos uma gestão desastrosa na altura do Jaime Silva, foi muito prejudicial para a agricultura e se vamos mandar agora muito dinheiro para trás, de investimentos não realizados, a ele se deve”, critica. Apesar de tudo o responsável diz que o ministério está hoje “no caminho certo” por ter os técnicos no terreno junto dos agricultores ao invés de estarem nos corredores de Lisboa. “E nunca tivemos a balança comercial agrícola tão equilibrada como agora, produzimos 80 por cento do que consumimos”, refere. A margem de lucro de um agricultor não permite enriquecer, garante o responsável, mas já permite uma vida confortável e há muito emprego na lezíria. O que falta, diz Joaquim Madaleno, é gente que queira trabalhar.«A CAP é movida por influências políticas»Sente que a Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP) e a Confederação Nacional da Agricultura são entidades capazes de defender os interesses dos agricultores?Quando os parceiros sociais do governo são pagos pelo governo nada disto funciona. A CAP, só para dar um exemplo, como qualquer grande organização, é movida por influências políticas. Quando começamos a misturar trabalho com política as coisas não funcionam. Estes parceiros sociais não devem ser subsidiados pelo Governo para não serem manipulados.O desinvestimento na agricultura nos anos 90 foi um erro?Sim. Os engenheiros do Ministério da Agricultura ganhavam à percentagem por cada projecto que faziam e induziam nas pessoas a necessidade de fazer grandes investimentos quando estas não o podiam fazer. Houve gente que perdeu tudo o que tinha. Houve muita mudança de propriedade nestes últimos anos, muita terra vendida e arrendada. Quem não teve cabeça e foi na conversa desses engenheiros comissionistas deu-se mal.As cooperativas de agricultores foram um modelo falhado?A gestão amadorista levou-as à falência. Hoje temos agrupamentos de produtores geridos de uma forma empresarial e funcionam porque têm objectivos, uma gestão correcta e uma linha de rumo muito bem fixada, que era algo que não havia nas cooperativas. Tínhamos pessoas pouco esclarecidas nas cooperativas. Pessoas pouco honestas e competentes que apareciam numa assembleia-geral e viravam tudo de pernas para o ar. Iludiam as pessoas menos esclarecidas e ganhavam as eleições. Depois era o que se sabe ainda hoje.Como vê uma possível privatização da Companhia das Lezírias?A CL tem um papel fundamental na vida dos agricultores da lezíria. O valor da companhia em termos de privatização para o orçamento geral do estado é insignificante e perdemos um património que é de todos e que pode ter um fim lastimoso se for para as mãos dos privados.O elogio a Hermínio Martinho e a polémica dos acessos controlados aos terrenos da LezíriaJoaquim Madaleno diz que a água do rio Tejo tem melhorado muito nos últimos anos elogiando o papel das autarquias. “A associação faz controlos de qualidade regulares e é notória a evolução. A maior prova é a afluência de pescadores que vêm de Lisboa em carros de luxo e são a admiração geral para quem é natural desta região e vai à pesca de bicicleta ou de mota”. O projecto EVOA é referido várias vezes ao longo da nossa conversa e dá para perceber o quanto representa para a imagem da região e o papel da associação na promoção de um espaço único na observação e visitação de aves.Para o director executivo da ABLG os agricultores de hoje já não têm nada a ver com os de há 20 anos. “Houve muita evolução. Os agricultores a sério sabem muito de informática porque até os tratores que conduzem são máquinas sofisticadas”.Em mais de duas horas de conversa nunca ouvimos um lamento ou uma queixa que pusesse em causa a boa organização associativa dos agricultores da região. Para Joaquim Madaleno “o associativismo é a garantia de futuro enquanto o cooperativismo foi a nossa desgraça durante muito anos e o responsável pelas loucuras que se cometeram que nos atrasaram muitas décadas em relação aos outros países da Europa”.A grande revolução na Lezíria deu-se com a vinda dos holandeses em 1979 que revolucionaram a agricultura ao desenharem um projecto para irrigar os campos. “Foram eles que começaram tudo e ajudaram a fazer da Lezíria aquilo que é hoje; Curiosamente o destino deles, ao desembarcarem no aeroporto da Portela, era o Alentejo. Quando pararam aqui já não saíram”.“O papel da associação na gestão das propriedades e das culturas é fundamental para o êxito empresarial dos produtores. A associação controla todos os sistemas de rega e sabe a cada pico de corrente o que se passa em cada uma das propriedades. Não podemos falhar neste serviço ou corremos o risco de prejudicarmos irremediavelmente as culturas dos nossos associados”.Ao longo da nossa conversa Joaquim Madaleno elogiou Hermínio Martinho, um dos antigos presidentes da Companhia das Lezírias e disse que ele marcou para sempre a vida da comunidade ao tomar a iniciativa que o Governo aprovou de distribuir terras pelos jovens agricultores. “Eu próprio fui um dos beneficiados”. Ao salientar o papel da Companhia das Lezírias nos tempos que correm Joaquim Madaleno falou nas dezenas de famílias que hoje ainda são arrendatárias da Companhia e cujos investimentos nas terras têm sido significativos. Reconhece que muitos desses proprietários vivem assustados com a hipótese de privatização da companhia uma vez que isso poderia ser a ruína de muita gente se o processo for conduzido como é hábito em Portugal.Para provar que os tempos são outros Joaquim Madaleno elogiou o aparecimento das empresas de serviços na área da agricultura que evitam os grandes investimentos em maquinaria.Ao reconhecer que os anos noventa foram muito maus para a agricultura portuguesa Joaquim Madaleno não evita criticar os agricultores. “Temos que reconhecer que havia muita ignorância. É possível afirmar com segurança que essa gente ficou toda pelo caminho e que a agricultura de hoje é feita por pessoas de uma geração que foi totalmente renovada”.Sobre o acesso controlado das pessoas da comunidade aos terrenos da Lezíria Joaquim Madaleno desdramatiza. “Era a única solução para evitar a bandalheira e a utilização dos terrenos para actividades que poderiam até ser criminosas. Havia gente que se movimentava com medo a partir de uma certa hora nas suas próprias terras. Quem quiser entrar pede um salvo conduto. Nesta altura há mais de três mil e quinhentos cartões nas mãos de pessoas que procuram a lezíria para várias actividades de lazer.“Estamos a bombar nas marés”; “Ainda temos muitas áreas de terra de cultivo que precisam de ser adoçadas”. São frases que podiam ser roubadas dos livros de poesia e prosa dos escritores neo-realistas de Vila Franca de Xira mas que foram proferidas de forma natural por Joaquim Madaleno ao apontar a salinidade das águas do Tejo como um dos maiores problemas para os agricultores, adiantando que há alturas em que a água chega aos quatro por cento de sal quando para a rega não podem ultrapassar meio por cento.Durante o tempo de conversa com os jornalistas de O MIRANTE Joaquim Madaleno mostrou abertura para falar de todos os assuntos e não houve questões que ficassem por responder. A crítica mais contundente saiu tão natural como os elogios que se podem encontrar nesta entrevista; “Em Portugal as entidades reguladores não funcionam. Mas não é só na agricultura; é em todos os sectores; basta ver as gasolineiras que constituem o maior escândalo. A verdade é que importam-se produtos alimentares da Austrália, da China; da Nova Zelândia, etc etc, tudo países onde se usam pesticidas e outros produtos que são considerados perigosos para a saúde pública nos países da Europa. Isto não é dito por ninguém nem temos qualquer organização que nos proteja desta realidade de todos os dias. Nós, agricultores portugueses, cumprimos todas as regas na produção. Depois apanhamos com a produção sem regras destes países. Por estas e por outras é que ainda vamos demorar algum tempo a viver dos rendimentos. Até lá temos que trabalhar de noite e de dia”.Um apaixonado pela agriculturaJoaquim Luís Madaleno, 54 anos, natural de Samora Correia, é director-executivo da Associação dos Beneficiários da Lezíria Grande desde Janeiro de 2010. Está nos corpos sociais da associação desde o ano 2000. Quando era pequeno a mãe não queria que fosse agricultor. Começou por trabalhar na área comercial da Companhia das Lezírias e comprou um terreno na lezíria para semear. Nessa altura já o pai e irmão estavam ligados à agricultura. Diz que quer ser agricultor até se reformar. Planta milho e arroz. Diz que qualquer trabalho entusiasma desde que seja feito com brio profissional. A honestidade e a seriedade são os seus principais lemas de vida. Faz tudo para cumprir a palavra dada. Não anda de transportes públicos e nunca foi ao Parlamento. “Nem penso ir, não me atrai”, diz, com um sorriso. Gosta de ir às festas da região mas não se atreve a chamar os toiros nas ruas. Tem duas filhas já formadas em agronomia. Nunca se perdeu na lezíria e confessa que se sente sempre a trabalhar.A associação tem um orçamento anual de 3 milhões e 456 mil euros. Foi constituída em 1943 quando os agricultores da lezíria estavam na miséria depois de uma cheia que devastou as culturas. Hoje tem 76 sócios e acompanha mais de 300 pequenas e médias empresas instaladas na lezíria. Por ano investem-se 10 milhões de euros nas culturas, cerca de 5 mil euros por cada hectare. A falta de água de qualidade para a rega é um dos problemas que sazonalmente levanta preocupações, sobretudo em anos de seca. No ano passado o caudal do rio Sorraia teve de ser fechado junto à lezíria, por falta de caudal, para permitir o abastecimento de água doce na rega das colheitas.
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