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É comunista e feminista a primeira mulher a liderar a Câmara de Constância

É comunista e feminista a primeira mulher a liderar a Câmara de Constância

Júlia Amorim chegou há poucos meses a presidente do município onde nasceu e fez quase toda a sua vida

Foi presidente de junta, vereadora e vice-presidente do município de Constância, sempre pela CDU. Militante comunista num concelho onde o PCP tem reduzida expressão para lá das eleições autárquicas, Júlia Amorim considera que esse ideal está cada vez mais actual. Assume-se como feminista moderada a quem não falta espírito reivindicativo e considera que os políticos devem passar pelos problemas do dia a dia, sob pena de perderem o contacto com a realidade.

Edição de 08.01.2014 | Entrevista
Foi presidente de junta, vereadora e vice-presidente da câmara. Chegar a presidente era a meta que tinha estabelecido na sua carreira política?Não. Nunca tive metas na política. Entrei em 1990 como cabeça de lista da CDU para a Assembleia de Freguesia de Constância, ganhei a junta e depois foi um percurso natural.Mas a dado passo, quando chegou a vice-presidente da câmara, não perspectivou que pudesse vir a ser presidente?Não e até era uma coisa que não queria. Achava que eram necessários outros requisitos. Na altura não era uma possibilidade que estivesse em cima da mesa.Então o que mudou para que agora decidisse candidatar-se ao cargo?Achei que eram outros tempos, diferentes e que se adequavam mais ao meu perfil pessoal. Nomeadamente pelo facto de vivermos numa sociedade com mais dificuldades em termos sociais, de haver a necessidade de estar mais próximo das pessoas e de haver uma maior necessidade de reivindicação.Considera-se uma pessoa reivindicativa?Acho que quando as pessoas não estão bem servidas e estão a prejudicá-las devemos ser reivindicativos. Naturalmente com boa educação, mas devemos transmitir o que sentimos.O que pensa reivindicar neste mandato que agora começa?Reivindicar, por exemplo, que em relação à ponte sobre o Tejo o protocolo existente seja transformado e que aquela ponte deixe de ser considerada propriedade das câmaras de Constância e da Barquinha e passe a ser de uma outra entidade, que do meu ponto de vista deveria ser a Estradas de Portugal.Isso significaria que as câmaras deixavam de ficar responsáveis pela manutenção da ponte.Exactamente. Além disso, preocupa-nos os condicionalismos que a ponte tem e que são um constrangimento para o concelho e para a região. Lembro que não podem lá circular veículos com mais de 2,10 metros de altura e 3,5 toneladas de peso. A ponte foi reabilitada e do nosso ponto de vista esses condicionalismos não fazem sentido. São só para a ponte ter uma durabilidade maior. É possível abrir o trânsito na ponte sem excepções para poder servir as empresas da zona e do Eco-Parque do Relvão. Não havendo uma ponte nova que sirva a região, esta é a solução imediata.Acredita que ainda vai haver uma nova ponte sobre o Tejo nesta zona?Acredito. Faz falta uma nova ponte entre Constância e Abrantes. Todos temos que contribuir para dizer o que faz falta e essa ponte não faz falta só ao concelho de Constância, faz falta à região.O facto da lei da limitação de mandatos só se aplicar a presidentes de câmara e de junta de freguesia, não abrangendo, por exemplo, os vereadores com funções executivas, acabou por lhe ser benéfica. O que pensa dessa lei?Não concordo. É uma lei que discrimina e a função para a qual foi criada não é verdadeira. O poder de decisão está no voto do povo e se os eleitores não quiserem determinada pessoa à frente dos destinos da câmara ou da junta de freguesia só têm é que não votar nela.Quando começou na vida autárquica havia muito menos mulheres nessas funções. O que mudou na nossa sociedade para se viver uma realidade substancialmente diferente?Ainda não mudou muita coisa a favor da igualdade de género. Em termos da nossa Constituição e da legislação as coisas estão bem, mas depois não se cumprem. Falta a parte prática. E não é por acaso que no próximo quadro comunitário de apoio vão existir programas para fomentar a igualdade de género. Quer dizer que os homens continuam a mandar.Também não é bem assim, mas na maioria dos casos é isso que acontece. Se pensarmos nas empresas, a maioria tem homens a dirigi-las. Nas escolas, onde a população docente é maioritariamente feminina, a maior parte dos cargos de direcção é ocupada por homens. Nas autarquias a mesma coisa. Mas é verdade que alguma coisa mudou.O quê?O facto das mulheres terem tido oportunidade de ocuparem alguns lugares de chefia e demonstrarem que são competentes. Quando fiz parte da lista à assembleia de freguesia ainda havia muito poucas mulheres como candidatas. E lembro-me de o meu pai não achar grande piada por eu andar a colar cartazes à noite no meio só de homens. E eu já tinha 28 ou 29 anos (risos)... Sente que ajudou a abrir caminho a que outras mulheres fossem candidatas aqui no concelho?Isso sinto. Hoje é uma coisa natural termos muitas mulheres nas listas. Nas últimas autárquicas, a lista da CDU para a Assembleia de Freguesia de Constância tinha mais mulheres do que homens.Dá-se melhor a trabalhar com mulheres ou com homens?Tanto me dou bem a trabalhar com homens como com mulheres. Têm é que ser pragmáticos no que estão a tratar, haver organização e disciplina.Considera-se uma pessoa organizada?Gostava de ser mais, mas ainda assim acho que sou capaz de gerir bem o tempo, embora ele me falte. Há um historial que determinou que fossem sempre as mulheres a dedicarem-se aos filhos. E ainda há uma carga muito crítica na nossa sociedade, que responsabiliza muito mais as mulheres do que os homens pela educação dos filhos. Tem uma filha com 18 anos. Conseguiu ser sempre uma mãe presente?Creio que sempre consegui arranjar um equilíbrio de modo a nem ser mãe galinha nem ser mãe ausente. Tento conciliar sempre. Temos a responsabilidade de cuidar deles. Se nos afastamos dessas vidas do dia a dia perdemos o contacto com a realidade. E esse é um erro de muitos dos nossos políticos, deixam de estar próximos dos problemas das pessoas. Não sabem o que é estar três horas numa sala de espera de um hospital com um familiar idoso, por exemplo. Devemos procurar gerir o tempo de modo a ter tempo para essas coisas, em nosso benefício e dos munícipes.Considera-se uma feminista?Se me perguntasse isso em 1990 eu, sem hesitar, dizia que sim. Hoje considero que ainda há muitas conquistas das mulheres por alcançar, mas gostava mais de me considerar uma defensora da igualdade de género. Houve alguma evolução nas mentalidades e penso que esta luta pela igualdade tem de ser de homens e de mulheres. Considero-me feminista mas dentro deste contexto, sem o radicalismo das décadas de 1960 ou 1970.Uma autarca veterana que chegou agora ao topo Júlia Amorim nasceu no dia 29 de Junho de 1963 em Constância, tendo feito quase toda a sua vida na vila natal, com excepção do tempo em que estudou na Universidade de Aveiro, onde se licenciou em Biologia e Geologia, e dos poucos anos em que deu aulas em zonas mais distantes.Casada e mãe de uma filha de 18 anos, esta professora de profissão iniciou-se nas lides autárquicas em 1990 quando foi cabeça de lista da CDU à freguesia de Constância, então ainda como independente. Foi eleita presidente de junta, cargo que desempenhou durante apenas um mandato, já que o então presidente da câmara, António Mendes, convidou-a para integrar a sua equipa. Foi vereadora, e em alguns mandatos vice-presidente da câmara, entre 1994 e 2013. No ano passado foi finalmente cabeça de lista e conseguiu manter a gestão do município nas mãos da CDU. Tornou-se a primeira mulher a desempenhar esse cargo no concelho.Estão a esvaziar de serviços públicos os concelhos mais pequenos O concelho de Constância tem cerca de quatro mil habitantes e não é muito extenso territorialmente. Perto há outros concelhos de dimensão semelhante, como Barquinha, Golegã ou Sardoal. Não faria mais sentido uma fusão de concelhos, até para ganharem escala e competitividade?No contexto actual isso não faz qualquer sentido. Até porque podemos criar escala mantendo os concelhos. Acho é que existem regiões que foram criadas administrativamente, entidades supramunicipais cujos órgãos dirigentes não foram eleitos pelo povo e não respondem perante as pessoas. Estou a falar das CCDR (Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional) e mesmo das comunidades intermunicipais. Se houvesse um conjunto de eleitos que governasse e respondesse pelo desenvolvimento da região, aí havia uma maior possibilidade de criar escala supra concelhia.O encerramento de serviços públicos em muitos concelhos não será já um prenúncio do que se pretende fazer?Isso é claro! É o esvaziamento dos concelhos mais pequenos. Perdemos há pouco tempo a tesouraria da Segurança Social e arriscamo-nos a perder as Finanças. E se a reforma judiciária for para a frente, vamos ficar com muito poucos serviços no Tribunal de Abrantes e ter de caminhar para Santarém. Não sou contra a reorganização de serviços e a rentabilização de recursos, mas sou contra o fim de serviços sem se explicar as mais valias disso. Feito o ordenamento das zonas ribeirinhas, construídos o Centro de Ciência Viva, o Parque Ambiental de Santa Margarida e o Centro Náutico de Constância, que projectos de grande fôlego restam para os próximos anos?Temos o Centro Escolar de Montalvo para fazer e esperamos que a candidatura a fundos comunitários seja aprovada. A revitalização da quinta de D. Maria, em Montalvo, é outro objectivo. Outra meta é procurar revitalizar o centro histórico de Constância, que sofre dos mesmos problemas de outros centros históricos do país. Esperamos que o próximo quadro comunitário de apoio venha a favorecer nesse campo não só a acção dos municípios como também dos proprietários.O turismo continua a ser uma aposta?Sim. Há também um potencial muito grande nessa área e era importante surgirem novos empresários com novas filosofias de explorar o território, até numa lógica de complementaridade, que pudessem aproveitar as potencialidades de cada concelho.A fábrica de pasta de papel em Constância Sul é uma das entidades que mais emprego proporciona no concelho. A poluição de que por vezes se ouve falar é o preço a pagar pelas mais valias que a empresa traz para o concelho?Não. Acho que tem de haver aqui algum equilíbrio. A Caima continua a ser uma mais valia para o concelho. Há duas questões: uma é o impacto visual e a outra é inerente ao trabalho desenvolvido na fábrica. Cada vez mais a certificação ambiental das indústrias tem que ser cumprida e quero acreditar que os resultados das inspecções são correctos e que a indústria está a funcionar bem. Mas também há que ter consciência que pode haver um acidente, um azar. Não digo que isso seja o preço a pagar, mas é uma contingência. Acho que temos de conviver com isso.“Há um grande preconceito em relação ao comunismo”Governa uma câmara da CDU, coligação liderada pelo PCP, num concelho que nunca teve grandes tradições comunistas. Revê-se no ideal comunista?Claro que revejo, senão não era militante. Entrei nas listas como independente e decidi tornar-me militante do PCP após um resultado eleitoral muito mau para a CDU. Entendi que com o meu exemplo não estava a dar um contributo para a afirmação da CDU no país. Não quer dizer que concorde com tudo, mas há linhas orientadoras com as quais me identifico. Uma pessoa amiga dizia que há pessoas que são comunistas sem o saberem. O que a faz ser comunista hoje em dia, numa sociedade capitalista e virada para o consumo?É isso mesmo. É preciso contrariar essa tendência. Cada vez é mais fácil ser-se comunista. Há um grande preconceito em relação ao comunismo e eu cresci com ele. O meu pai era um homem de esquerda, mas a minha mãe não. Cresci a ouvir dizer que na União Soviética não havia liberdade religiosa, que aquilo era tudo mau, que os comunistas iam acabar com isto tudo. Esta foi a minha juventude. O que mudou entretanto que a levasse a seguir essa ideologia?Só depois dos 18 ou 19 anos, quando uma pessoa se desliga do cordão umbilical, é que se começa a ver, a ler, a conviver e surgiram algumas ideias que me levaram a identificar-me com a esquerda. Hoje, mais do que nunca, acho que faz falta o ideal comunista. Pode ser uma utopia, mas acredito que temos de fazer o percurso para chegar a essa utopia. Não tenho qualquer tipo de constrangimento em assumir isso.PRETO NO BRANCONoite ou dia?Sou mais para o dia. Já gostei mais da noite.Cinema ou teatro?Gosto das duas artes mas prefiro o cinema, talvez até por estar mais acessível.Prosa ou poesia?Neste momento é mais prosa.Calor ou frio?Acho que nem uma coisa nem outra, mas a ter de escolher prefiro o frio. Sushi ou sardinha assada?Sardinha assada, sem dúvida alguma.Benfica ou Sporting?Assumo que sou do Benfica, mas tenho também alguma simpatia pelo Sporting por ser um clube que dá algum apoio a modalidades amadoras como o atletismo. Mas tenho que dizer que sou do Benfica, senão o meu pai ficava triste.Tejo ou Zêzere?Gosto mais do Zêzere. É mais translúcido, brilha mais, é mais natural.Saias ou calças?Calças.Automóvel ou comboio?Automóvel. Agora é raro andar de comboio, até porque em família sai mais caro. Mas andei muito em transportes públicos.
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