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Pernas para que te quero

Joaquim Patrocínio não usa automóvel ou qualquer outro tipo de transporte mecânico para as suas deslocações mais próximas. Vive em Vale de Figueira mas todas as semanas vai a Santarém e a Pernes a pé, cerca de 13 quilómetros para cada lado, faça chuva ou faça sol. E não vale a pena oferecer-lhe boleia, porque isso está fora de questão.

Edição de 22.01.2014 | Sociedade
Faça chuva ou faça sol, rara é a semana que Joaquim Medeiro Patrocínio não se desloque a pé de Vale de Figueira, onde reside, até Pernes e Santarém, cerca de 13 quilómetros para cada lado. Aos 66 anos, este pintor da construção civil reformado mantém-se em apurada forma física graças à opção que tomou de deixar o carro na garagem e de passar a usar as pernas para as deslocações mais próximas, onde se inclui também Almeirim, embora mais esporadicamente pois o “esticão” é maior. Com isso ganha na saúde, poupa no combustível e dá o seu modesto contributo para um ambiente menos poluído.Na manhã de sexta-feira, 17 de Janeiro, sob uma intensa chuvada, fomos apanhar Joaquim Patrocínio na Torre do Bispo quando regressava de Pernes, equipado com guarda-chuva, oleado amarelo por cima do fato de treino e boné vermelho de Portugal na cabeça para ajudar a proteger da invernia. À beira da movimentada Estrada Nacional 3 diz que este é um “vício” que ganhou há cerca de 15 anos, quando, após 40 anos de trabalho em Lisboa, se mudou para o Ribatejo. E não entende muito bem o interesse de O MIRANTE pelo seu caso, já que considera “normalíssimo” aquilo que faz, embora reconheça que é o único na terra onde vive a utilizar as pernas como meio de transporte para ir a outras localidades e que não encontra ninguém para o acompanhar. “Em Vale de Figueira ninguém anda. A malta não se mexe”, afirma em tom crítico.A chuva cai com força e os rodados dos camiões projectam chapadas de água para a berma, onde fazemos a primeira abordagem ao peão solitário, que desvaloriza a intempérie. “Este tempo é que é bom para caminhar. Andam-se quarenta quilómetros e nem se nota. Com o calor, ao fim de 5 quilómetros já estamos todos suados”, diz. Numa época em que o automóvel se tornou praticamente uma extensão do corpo humano, Joaquim Patrocínio resiste à tentação do conforto e ao comodismo. Ao que não resiste é a uma boa bifana e a um ou dois copinhos de vinho, quando se trata de retemperar forças para o regresso após as visitas a Pernes e Santarém, onde passa pelos mercados e aproveita para tratar de assuntos pendentes. Porque a sua máquina também precisa de combustível. “Sinto-me super bem, cheio de força com esta idade”, atesta, acrescentando que não se corta em nada no que toca à alimentação.O carro só é utilizado para viagens maiores, como as que faz por vezes ao fim de semana até à Ponte da Asseca, para os bailaricos que ali se realizam. “Não podem dizer que vou à caça de velhas porque já levo uma comigo”, brinca, acrescentando que a esposa não tem pedalada para o acompanhar estrada fora. “Faz 5 quilómetros e às tantas tenho de a levar ao colo. Não há hipótese”. Joaquim faz entre 80 a 90 km por semana a caminhar e já é uma figura familiar para quem circula nas estradas que palmilha. Não admira que por vezes os automobilistas se compadeçam daquele caminhante solitário e lhe ofereçam boleia. Mas a resposta é sempre negativa. Aí, Joaquim é intransigente. E nem mesmo para a reportagem de O MIRANTE, o seu jornal de eleição e de que é assinante, abriu uma excepção. “Uma boleia está mesmo fora de questão, hoje e para efeitos futuros”, avisou.Um alentejano fascinado pelo RibatejoJoaquim, alentejano de nascimento, quis viver no Ribatejo após uma vida de trabalho na zona da capital por considerar que aqui “a vida é mais saudável e mais fácil”. Convenceu a mulher, Maria dos Anjos, e ala rumo a Vale de Figueira, no concelho de Santarém, onde passou a morar e depressa se integrou na comunidade. Como voluntário tem colaborado com várias instituições e colectividades da terra e de localidades vizinhas, oferecendo a sua arte de pintor de borla em diversas ocasiões e para diversos fins. Duas fontes de Vale de Figueira, por exemplo, são anualmente pintadas por ele. “Se houver muita a gente a colaborar, com pouco dinheiro faz-se muita coisa”, sentencia antes de se fazer novamente à estrada.

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