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“É triste ver os pequenos negócios familiares a fecharem portas”

“É triste ver os pequenos negócios familiares a fecharem portas”

Hernâni Valentim Patrão, 48 anos, responsável do supermercado Coviran, Alhandra

É natural do Sobral de Monte Agraço mas vive há tantas décadas na vila de Alhandra, no concelho de Vila Franca de Xira, que já se sente filho da terra. Gosta do rio, da zona antiga da freguesia e das pessoas que a habitam. Quando era pequeno ajudava o avô a vender queijos no mercado. Um dia fugiu da oficina do tio porque não queria ser mecânico. É doente pelo Benfica e dá graças por não haver cura. Diz que o país está cheio de gente honesta mas nota que os governantes são pouco sérios.

Edição de 30.04.2014 | Três Dimensões
Aos seis anos comecei a acompanhar o meu avô quando ele vinha vender queijo no mercado de Alhandra. Sou dos Casais de São Quintino, em Sobral de Monte Agraço. Não é longe de Alhandra. Quando o meu avô deixou de vir cá comecei a acompanhar a minha mãe aos fins-de-semana e, mais tarde, o meu pai, que passaram a fazer essa tarefa. Com o tempo começaram a vender frutas e outros produtos também. Um dia o meu pai comprou uma loja fechada e velha aqui na vila e montou lá um mini-mercado. Foi o princípio de tudo. O meu primeiro emprego foi como aprendiz de mecânico de automóveis em Lisboa, quando tinha 14 anos. O meu tio tinha 3 filhas e queria que alguém seguisse aquela carreira. Fui tentar mas nunca gostei. Podia ter ficado no escritório da oficina mas o meu tio não quis. Acabei por chatear-me com ele e um dia fugi. Corri para um autocarro e vim de Lisboa para o Sobral novamente. Felizmente em casa o assunto foi pacífico e não levei um raspanete.Tenho pouco tempo livre para mim mas sempre que posso tento passear, comer fora ou ir até à praia com a família. Outro vício que tenho é acompanhar o Benfica, sou doente pelo clube, é a minha paixão. Normalmente faço dos jogos que vou ver as minhas férias. O ano passado, por exemplo, fui ver o Benfica a todo o lado a nível europeu. Vou com amigos. Também gosto muito do Liverpool, que nos anos 80 era o clube que dominava o mundo. Adoro futebol mas não concordo que seja a droga das massas, é um desporto como outro qualquer. Quando era pequeno ainda jogava umas partidas de futebol com os amigos. Não chorei quando o ano passado perdemos tudo. Também não chamei nomes ao Jorge Jesus, mas não fiquei nada contente.Não estou nada arrependido de ter decidido viver em Alhandra e até já me sinto filho da terra. É uma terra muito simpática onde tudo me dá gozo. Também gosto das pessoas, todos nos conhecemos uns aos outros. Mas noto a falta de investimento. A vila precisa de mais investimentos que criem trabalho e riqueza, para as pessoas poderem viver, trabalhar e consumir aqui, sem precisarem de sair para outros locais. Não penso sair daqui tão depressa, estou cá desde 1986 e espero ir renovando a loja e inovar, para manter o negócio e os postos de trabalho que criámos.A minha mulher compreende o meu trabalho e apoia-me. Ela sabe que perco nesta empresa muito tempo da minha vida. Ela tem os miúdos e o trabalho dela, não pode ajudar mais, mas quando casou comigo já sabia que esta era a minha vida. Hoje não me vejo a fazer outra coisa. Mas gostava de ter estudado. A minha mãe insistiu para que eu estudasse e nunca o fiz. Estou arrependido. Hoje adorava aprender inglês correctamente. Soube o que queria fazer por volta dos 20 anos, quando me comecei a interessar pelo mini-mercado. Nessa altura a minha irmã de 14 anos é que estava na caixa. Só naqueles tempos, porque hoje isso era impensável. Queixamo-nos da crise mas em 1986 a troika também cá tinha estado e as coisas não eram fáceis. Um empresário tem de ser honesto e trabalhador. Somos um país de gente honesta mas os nossos governantes são pouco sérios. E como são muito maus pagadores as pessoas tornam-se más pagadoras também. Isso cria uma bola de neve complicada. Na minha família, felizmente, isso nunca aconteceu. Quase tudo neste negócio me dá dores de cabeça e isso é que é aliciante. Não há dois dias iguais. Os preços, por exemplo, estão sempre a mudar. Não é fácil ter uma loja destas com os grandes grupos que aí andam. Temos uma oferta imensa de supermercados no concelho para a procura que existe. Estamos sobrelotados e as entidades locais deveriam criar regras. Para as entidades locais a abertura de tanto supermercado deve ser bom, cria emprego, mas para os pequenos negócios é mais complicado. O comércio em Vila Franca de Xira, por exemplo, está todo a fechar, tirando os chineses. O principal desafio é crescer um bocadinho mais todos os dias. Ser diferente, melhorar, analisar os pontos negativos e ter uma crítica construtiva. Espero manter os postos de trabalho que tenho hoje e, se for possível, criar mais um ou dois. Tenho esperança que o país se endireite no futuro e tome um rumo melhor, porque temos todos os ingredientes para sairmos bem desta situação.
“É triste ver os pequenos negócios familiares a fecharem portas”

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