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“Hoje em dia sabemos que os animais têm sentimentos”

“Hoje em dia sabemos que os animais têm sentimentos”

Gonçalo Clode Silva, 49 anos, médico veterinário, Clínica Veterinária da Quinta da Piedade, Póvoa de Santa Iria

Gonçalo Clode Silva é médico veterinário. Era a profissão que queria ter quando era criança e por isso a exerce com tanto prazer. Diz que é sensível ao sofrimento dos animais e confessa que chorou quando perdeu uma cadela devido a um tumor. Lembra que a ideia antiga de que os animais só tinham instinto está completamente ultrapassada e que por isso lida diariamente com sentimentos, tanto dos donos como dos animais.

Edição de 14.05.2014 | Três Dimensões
Se levarmos uma dentada de um cão ou a arranhadela de um gato a culpa é sempre nossa. Todos os animais são especiais. E em relação aos que são difíceis de tratar cabe-nos a nós saber dar a volta. A primeira vez que um animal vem à clínica não deve ser para ser vacinado. A primeira vez deve vir para conhecer as instalações, receber mimos, comer um doce e ir embora. Fizemos um pequeno inquérito e concluímos que cerca de 70 por cento dos animais que tratamos dormem com os donos. Não vejo mal nisso desde que o animal esteja clinicamente saudável e acompanhado clinicamente. Não é por o animal dormir com o dono que vamos ter problemas de saúde pública. Em alguns casos até pode ser melhor, porque está provado que as famílias que têm animais em casa estão mais protegidas das alergias que as outras. Tive uma infância feliz e desde muito novo que queria ser veterinário. Na Madeira a minha família sempre teve muitos animais e o meu gosto nasceu aí. Passei pelas aventuras de querer ser polícia, comandante de aviação e dentista, mas o amor aos animais falou mais alto. O meu pai é médico e o meu avô também já tinha sido. O meu pai esperava que eu fosse médico mas não ficou desiludido quando escolhi esta profissão. Sempre a viu como uma profissão muito nobre e apoiou-me. Fui motoqueiro quando era novo e agora voltei a ser. Ando muitas vezes de mota de um lado para o outro. Também gosto muito de mar e quando posso vou fazer mergulho, andar à vela e windsurf. Sempre que posso tento sair do país e ir para Cuba ou para as Caraíbas, é a única forma de desligar completamente do trabalho. Sou um viciado no trabalho, um “workaholic” e tenho essa noção.Os desonestos que estão na área da veterinária não estão aqui a fazer nada. Temos de ser humanistas no nosso trabalho. Aqueles que querem ter uma clínica veterinária como meio de ganhar dinheiro devem esquecer isso. Esta actividade é rentável mas é um negócio muito específico onde o principal valor é o bem-estar dos animais e dos donos. A veterinária é uma paixão. Já tenho duas clínicas e uma empresa que distribui produtos veterinários. Gerir a empresa é gerir números, mas na clínica não. Na clínica lidamos com sentimentos e emoções. É um mercado em que o valor do animal não tem preço. Hoje em dia conseguimos fazer em veterinária tudo o que se faz em medicina humana. Mas há um campo em que ainda estamos a dar os primeiros passos, que é em comportamento animal. Há 30 anos dizia-se que os animais só tinham instintos. Hoje em dia sabemos que têm sentimentos, se deprimem e fazem associações de ideias. É uma área muito complexa que me fascina. No final de um dia de trabalho, que nunca sei quando é, necessito de silêncio. Passo o dia todo a ouvir e a resolver problemas de pessoas e animais e a ser obrigado a ter uma rápida capacidade de resposta e daí essa necessidade. Não preciso de dormir muito, bastam-me poucas horas para voltar a estar em forma. Nos momentos descontraídos também gosto de ler, ouvir música e até ver um pouco de televisão. Normalmente vejo os programas mais ridículos que estiverem a passar, só para descontrair. Todos nós choramos quando perdemos um animal. Em tempos tive uma cadela que fui obrigado a “adormecer” por causa de uma questão tumural. Tive de estar com ela até ao fim. Custou-me imenso perdê-la. Soube o que era estar de ambos os lados. Hoje em dia tenho dois cães e dois gatos. Abri a clínica da Póvoa quando vivia em Loures e trabalhava no Cartaxo. Fiz uma pesquisa de mercado e na altura não havia nenhuma clínica aqui na cidade. Arrisquei e fomos sempre crescendo. Temos de ter capacidade de arriscar, embora com alguma prudência. Somos hoje, praticamente, um hospital veterinário. Temos consultas de especialidade e um conjunto de serviços que abrange toda a área da veterinária, como consultas, tosquias, vacinação, laboratório próprio em que fazemos as análises, raio-x, ecografia, bloco operatório com anestesia volátil, oxigénio e monitor multiparamédico, hotel de gatos e secção de internamento para 30 animais. Nasci em Lisboa mas considero-me natural da Madeira. Os meus pais são do Funchal e tenho imensas memórias de infância da ilha. Estive lá até aos 18 anos até vir para o continente. Ainda tenho um bocadinho de sotaque e orgulho-me dele. Não me custou dar o pulo da ilha para a capital. Vim para cá viver e estudar sozinho. Na Madeira estava muito ligado à actividade náutica, andava de barco e fazia windsurf, que são actividades solitárias, por isso não me custou muito enfrentar as coisas sozinho. Nunca usei mapa em Lisboa. Saí da faculdade em 1989.Filipe Matias
“Hoje em dia sabemos que os animais têm sentimentos”

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