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“Fábricas abandonadas deviam ser entregues às câmaras para captarem novos investimentos”

“Fábricas abandonadas deviam ser entregues às câmaras para captarem novos investimentos”

Jorge Manuel Antunes, coordenador da CGTP de Vila Franca de Xira, diz que a falta de terrenos é um problema

Responsável pela casa sindical da Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses (CGTP), que serve os concelhos de Vila Franca, Arruda dos Vinhos, Alenquer, Azambuja e Benavente, diz que sem novas indústrias a região está condenada a ser um dormitório de Lisboa.

Edição de 21.05.2014 | Sociedade
Se não houver uma estratégia dos municípios na captação de investimentos, os concelhos da região em volta de Lisboa estão em risco de serem apenas dormitórios da capital com elevadas taxas de desemprego. A opinião é de Jorge Manuel Antunes, coordenador da Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses (CGTP) para os concelhos de Vila Franca, Arruda dos Vinhos, Alenquer, Azambuja e Benavente. Por isso defende que as indústrias abandonadas há mais de uma década na região de Vila Franca deviam ser entregues às câmaras municipais, para estas os venderem a investidores interessados. Até porque, considera, a zona ainda é atractiva para as empresas por estar servida de bons meios de transporte e boas acessibilidades. O problema é a falta de terrenos para novos investimentos.Dos concelhos servidos pelo núcleo da CGTP, o de Vila Franca de Xira é o mais afectado e onde se vivem os maiores dramas sociais. Os salários nesta zona são também dos mais baixos da região de Lisboa. Em média 17 por cento abaixo da média salarial. Só nos últimos três anos, regista Jorge Manuel Antunes, no sector da metalurgia, química e artes gráficas perderam-se 1500 empregos na região. Só no primeiro semestre de 2013, segundo as contas da intersindical, estavam mais de sete mil pessoas sem emprego na região, 40 por cento das quais não trabalham há mais de um ano. “O emprego criado pelas grandes superfícies comerciais não é suficiente para resolver o problema do encerramento das empresas. Temos tido milhares de pessoas que nos falam que os patrões precisam de reduzir empregados. As empresas andam a aproveitar-se dos receios das pessoas para forçar alterações no vínculo laboral. Há muitos casos de gente a aceitar alterações do vínculo contratual e a aceitar remunerações inferiores ao que tinham para continuarem a trabalhar”, lamenta.Para o dirigente sindical as empresas estão a aproveitar-se da crise para prejudicar os trabalhadores e dá o exemplo da criação de prémios. “Grande parte das empresas entraram no caminho de, não aumentando os salários, aumentar os prémios, como a assiduidade, bom comportamento ou desempenho, para a pessoa ficar agarrada e perder o prémio se levantar a cabeça. Estes são tempos muito maus para quem trabalha”, lamenta.Jorge Antunes diz que o salário mínimo, de 485 euros, é “ridículo” e “vergonhoso”, obrigando quem o recebe a “sobreviver” e não a viver. Nota que é no sector do comércio onde existem mais trabalhadores precários e que o fim das escolas industriais foi uma má medida. O sindicalista refere que apesar das dificuldades o cenário continua a ser melhor do que aquele que se vivia antes do 25 de Abril. “Antigamente havia uma situação desgraçada neste país, as pessoas não tinham liberdades nem direitos, era uma pobreza a todos os níveis. O salário mínimo e o horário de trabalho foram uma conquista de Abril”, ressalva.Apesar do actual momento ser negro o dirigente acredita que o futuro será melhor. “De um momento para o outro vamos conseguir alterar estas políticas e chamar aqueles que mais têm a contribuir para os que podem menos”, conclui.Um sindicalista que anda de autocarro e já levou com gás pimenta Jorge Manuel Antunes, 56 anos, é natural de São Sebastião da Pedreira, Lisboa, e apesar de não residir em Vila Franca de Xira gosta da cidade e do passeio ribeirinho. Trabalhava no sector gráfico da Empresa Pública de Notícias e Capital (EPNC), nacionalizada após a revolução do 25 de Abril de 1974. Em 1987 foi convidado a integrar uma lista do sindicato e foi tendo participação activa até ser desafiado a fazer do sindicalismo a sua profissão permanente e remunerada. Desde 1988 que está ligado à Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses. É o coordenador da Casa Sindical de Vila Franca de Xira há três anos.Desloca-se a Vila Franca de Xira duas a três vezes por semana para acompanhar a actividade sindical da região e ultimamente divide também o seu tempo na União dos Sindicatos de Lisboa. É militante do Partido Comunista Português desde os anos 80. Tem uma filha e só usa o comboio para as suas deslocações. Durante a viagem aproveita para meter a leitura em dia. Gosta de música portuguesa, sobretudo de intervenção, de artistas como Pedro Barroso, Zeca Afonso, Fausto, Sérgio Godinho e José Mário Branco. Nos poucos tempos livres gosta de ir à praia, passear e ir ao cinema. Gostava de ir a Cuba. Está a ler a colecção dos livros proibidos pelo antigo regime, onde se inclui “Gaibéus”, de Alves Redol. Confessa que nunca visitou o Museu do Neo-Realismo em Vila Franca de Xira mas promete fazê-lo em breve. É sportinguista e durante as manifestações já chegou a levar com gás pimenta das forças da autoridade. Todas as semanas lê O MIRANTE, que tem, considera, “um papel muito importante na região” e aborda questões “que os outros órgãos de comunicação nem sempre publicam”.“Os sindicalistas não são suicidas”Quase duas décadas depois do fecho de algumas empresas continua a haver trabalhadores de Vila Franca que ainda não receberam os seus créditos. De quem é a culpa? Com a morosidade da justiça as pessoas vão acabar por receber um valor que hoje é inferior ao que ele valia na altura. Criticamos a lentidão da justiça, é verdade, mas esquecemo-nos de também responsabilizar o Estado por não disponibilizar meios humanos para a desenvolver. Enquanto uns, com a morosidade da justiça, podem ser penalizados, outros ganham com isso, como os banqueiros. É a justiça no seu pior. Os beneficiados são sempre os que mais têm.Entidades como a Confederação Empresarial de Portugal (CIP) ou a Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP) fazem tudo o que está ao seu alcance na mesa das negociações com o Governo? Podiam fazer muito mais. Hoje servem, no mínimo, para organizar os agricultores e os empresários. São um poder de influência sobre o Governo mas podiam fazer muito mais se tirassem da cabeça a ideia de serem apenas os defensores dos patrões. A história do “quanto menos pagarmos mais temos” não serve. Com tanta greve perde-se força reivindicativa? Admito que sim. Mas não entendo que a greve esteja banalizada. Banalizado está o ataque aos direitos dos trabalhadores.Durante a luta os sindicatos são insensíveis e inflexíveis aos problemas das empresas? Os sindicatos são compostos por pessoas organizadas que têm opinião sobre as empresas e a sua saúde financeira. E às vezes há situações em que somos apanhados desprevenidos. Mas os sindicatos não são “Kamikazes” (pilotos japoneses que faziam ataques suicidas na Segunda Guerra Mundial). Se fazemos reivindicações é porque acreditamos que podem ser atendidas. Não estamos a desencadear processos de luta utópicos.
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