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“Santarém não pode perder o seu politécnico”

Jorge Honório, professor na Escola Superior de Gestão e Tecnologia de Santarém onde já foi presidente, fala da vida académica e dos momentos conturbados que se viveram na instituição durante a liderança de Jorge Faria. Comenta o trabalho de Jorge Justino à frente do Politécnico de Santarém, reconhece que durante muitos anos o horário lectivo semanal dos professores do ensino superior era leve e que ainda há margem para se trabalhar mais. Nesta entrevista aborda também a sua experiência na vida autárquica e diz que o presidente da Câmara do Cartaxo, sua cidade natal, tem uma missão ciclópica pela frente devido à dívida astronómica do município.

Edição de 11.06.2014 | Entrevista
A Escola de Gestão viveu durante alguns anos momentos de conturbação interna, nomeadamente durante os mandatos de Jorge Faria como director. A sua saída ajudou a pacificar o ambiente? Sim, vivia-se um ambiente encrespado. Os almoços ou jantares de convívio que havia na escola acabaram-se, as pessoas já não iam ao bar. Com a presidência de Ilídio Lopes o ambiente foi melhorando, já não era tão conflituoso. Mas há pouca ligação entre as pessoas e entre as próprias escolas do Politécnico. Esse ambiente prejudicou a ESGTS em termos de imagem e até de vivência no quotidiano. A situação foi talvez pior na relação entre professores, pois entre professores e alunos não houve problemas. Porquê essa crispação toda. Era só porque o professor Jorge Faria, alegadamente, tinha mau feitio? Havia um certo ressabiamento mas não percebo bem porquê.Houve muita gente satisfeita quando viu Jorge Faria sair da escola e, posteriormente, ser eleito presidente da Câmara do Entroncamento? Acho que sim. E penso que há muita gente a desejar que ele seja reeleito muitas vezes.Alguns professores da Escola Superior de Gestão e Tecnologia de Santarém (ESGTS) continuam sem saber se vão ter de repor alguns milhares de euros recebidos em horas extraordinárias que a Inspecção Geral da Educação e Ciência considerou ilegais. Como comenta essa trapalhada? Não foram acauteladas determinadas situações e depois dá nesta trapalhada que pode lesar os docentes, que se limitaram a prestar serviço para o qual foram solicitados. Se for considerada a perda de exclusividade em relação aos professores que fizeram as horas extraordinárias, os mesmos vão ter de repor um quarto dos vencimentos recebidos durante os três anos em que essa situação se verificou. A decisão da reposição dessas verbas está nas mãos do presidente do Politécnico de Santarém, Jorge Justino. O processo tem-se arrastado no tempo. Acha que a situação já devia ter sido clarificada? Não tenho dados concretos para me poder pronunciar. As pessoas na escola até evitam falar nisso, pois é uma situação desagradável.Acha que o professor Jorge Justino, que autorizou esses pagamentos considerados ilegais, devia tirar ilações da situação? Não conheço os resultados da inspecção. Sei que estava um processo a decorrer, mas não sei se atribui culpas a A, B ou C. O que sei é que de todas as situações da nossa vida devemos tirar ilações, num sentido ou noutro. Aconteça o que acontecer, os responsáveis devem tirar as devidas ilações. O Politécnico de Santarém perdeu uma oportunidade de se rejuvenescer nas últimas eleições, quando Alexandre Caldas foi derrotado pelo recandidato Jorge Justino? Alexandre Caldas é uma pessoa muito inteligente, tem boas ideias e está bem relacionado. Pode ser uma possibilidade de rejuvenescimento no futuro, até porque o professor Justino vai para o último mandato.Que só acaba daqui a quatro anos… Pois, mas o tempo passa num instante. Penso que Alexandre Caldas terá iniciado este movimento para se voltar a candidatar.Na sua opinião, Alexandre Caldas poderia dar um bom presidente do Politécnico de Santarém? É uma pessoa inteligente, bem relacionada. Mas hoje qualquer presidente de um politécnico está muito limitado. Têm ainda algum poder mas já não tanto como tinham.Mas em termos estratégicos ainda têm algum poder de decisão e podem vincular a instituição, nomeadamente quanto a eventuais fusões, consórcios ou parcerias com outras instituições de ensino superior.Essa situação já extravasa o presidente do Politécnico. Já é uma questão regional, que deve envolver as autarquias e a Nersant, por exemplo. E qual é a sua opinião sobre essa questão, nomeadamente uma eventual associação com o Politécnico de Leiria?As opções de integração ou fusão não me agradam. Mas há que fazer qualquer coisa e parece-me que o consórcio é a solução mais vantajosa para o Politécnico de Santarém. O pequenino que se integra no grande tende a desaparecer. E o Politécnico de Santarém não pode desaparecer, porque é vital para a região, para as empresas e autarquias. Com o consórcio há essa ligação mas em paridade. Acha que o professor Jorge Justino tem defendido bem os interesses do Politécnico de Santarém? Pelo menos tem vindo a ser reeleito e o politécnico tem funcionado bem. Há menos alunos, mas isso acontece em todo o lado. Os portugueses não fazem filhos…Provavelmente, daqui a dez anos, muitos dos cursos neste e noutros politécnicos terão desaparecido? Sim. A realidade é essa. Os cursos sem alunos deixam de ter financiamento. Na Escola de Gestão tivemos que acabar com o curso de Administração Pública, por exemplo. “Estamos dispostos a dar mais horas de aulas”Num país onde o horário de trabalho normal é de 40 horas semanais, os professores do ensino superior em regime de exclusividade têm um horário lectivo máximo que anda pelas 12 horas por semana. Analisando de uma forma simplista fica-se com a ideia de que se trabalha pouco no ensino superior? O horário lectivo era entre 6 a 12 horas semanais. Agora está um pouco mais alargado, pois as dificuldades financeiras a isso obrigam. O horário lectivo actualmente andará por volta das 14 horas semanais, mas os professores têm outras tarefas. Temos testes para fazer e para corrigir. Ainda agora tive à volta de 100 testes para corrigir. Se cada um tiver oito questões, são 800 perguntas para corrigir, o que representa muitas horas de trabalho. Depois há ainda reuniões de departamento, reuniões da área, reuniões do conselho científico a investigação. Mas as horas de trabalho lectivo são efectivamente essas.Um horário desses acaba, de qualquer forma, por ser difícil de entender pelo cidadão comum, sobretudo numa altura de dificuldades como a actual. Pois, mas não se pode olhar só para essas tais 12 ou 14 horas de aulas que devem ser contabilizadas. Há muito mais trabalho para além disso.Um horário tão folgado permitirá provavelmente que alguns docentes possam desempenhar a actividade profissional em vários sítios durante a semana. Sim, é possível. Aliás em tempos falou-se na história dos “turbo-professores”, que davam aulas em várias faculdades, alguns até na Madeira e nos Açores. Não sei como é que eles conseguiam.Tendo em conta que se fala tanto da necessidade de contenção de custos na administração pública e no aumento da produtividade, chocava-o se houvesse uma carga lectiva maior, ou de facto não é possível aumentá-la para quem leva a profissão a sério? Neste momento todos os professores do Politécnico de Santarém estão acima das 12 horas de aulas semanais. E estamos dispostos a dar mais horas. Na Agrária, por exemplo, penso que há professores já com 19 e 20 horas lectivas por semana. Já lá vão os tempos das 7 ou 8 horas semanais de aulas? Esse era o tempo das vacas gordas. As escolas superiores recorreram sempre muito à contratação de professores externos. A prata da casa não chegaria para as encomendas? É possível que tenham sido contratados alguns professores sem haver necessidade. Mas, tal como em relação às horas lectivas, há que fazer uma ressalva. Por exemplo: uma escola, como a de Gestão, que tem um curso de Marketing, precisa de ter professores que trabalhem nessa área. No tempo de António Guterres como primeiro-ministro começou a dar-se prevalência aos professores doutorados e começou a perder-se uma coisa muito boa, que era a de contratar professores vindos de fora, com outra experiência de vida e sentido prático. Por exemplo, no tempo em que estive no conselho directivo da ESGTS as pessoas que davam a disciplina de Fiscalidade eram inspectores de finanças.Um engenheiro fascinado pela robóticaCasado e pai de um casal de filhos, Jorge Honório nasceu em 20 de Julho de 1954 no Cartaxo, cidade onde reside. Licenciado em Engenharia Electrotécnica pelo Instituto Superior Técnico, trabalhou durante 14 anos na empresa Impormol, na Azambuja, onde foi director de produção e manutenção. Há 22 anos surgiu a oportunidade de ingressar como professor na Escola Superior de Gestão e Tecnologia de Santarém (ESGTS) e aceitou. Entrou como professor assistente. Na indústria trabalhava 10 horas por dia e na escola, há 22 anos, o horário lectivo era de meia dúzia de horas por semana. Aproveitou para fazer o mestrado, o que lhe permitiu a progressão na carreira docente. Reconhece que a vida laboral na actividade privada era “mais violenta”, mas, ressalva, “também se ganhava mais”. Jorge Honório reconhece que a matemática continua a ser um bicho-de-sete-cabeças para a maioria dos alunos, mas garante que se voltasse atrás optaria novamente pela área da engenharia. “Há uma área que me fascina que é a dos automatismos e robótica”. Se tivesse que aconselhar um jovem que se vai candidatar ao ensino superior indicaria cursos práticos na área das engenharias, ligados aos automatismos, robótica, sistemas pneumáticos e hidráulicos ou mecânica. “Na gestão há uma nuance. Se a pessoa tiver uma formação muito específica em determinada área depois tem dificuldade em arranjar emprego. Os cursos de gestão devem ser um pouco mais abrangentes e depois haver uma especialização”, defende.Entre 2003 e 2006 Jorge Honório foi presidente do conselho directivo da ESGTS, tendo sido vice-presidente no mandato anterior. A sua equipa participou na construção da Biblioteca Veríssimo Serrão, criou uma unidade de inserção na vida activa (Univa) que possibilitou milhares de estágios aos alunos - e que entretanto acabou após passar para a alçada do Politécnico -, criou o centro de informação Europe Direct, estabeleceu vários protocolos com escolas profissionais da região e não só. “Tudo isto foi feito e acabou, com alguma mágoa para mim”, diz criticando implicitamente quem lhe sucedeu no cargo.Ficou-lhe ainda o amargo de boca da escola de negócios no Cartaxo não ter avançado, numa parceria que envolvia a ESGTS, a Câmara do Cartaxo e a Nersant, por ter faltado o financiamento.“Não invejo a sorte do presidente da Câmara do Cartaxo”Em 1997 foi candidato à presidência da Câmara do Cartaxo pelo PSD, tendo sido eleito vereador. Foi uma experiência para não repetir? Sim. Não durou sequer o mandato todo porque convivo mal com a lógica maniqueísta dos partidos. Com aquele dualismo. Fiquei com excelentes relações com o presidente Conde Rodrigues, com o Álvaro Pires, de quem já era amigo, com o Paulo Caldas, com o Pedro Ribeiro, que são todos do PS. Eu era o único contra eles no executivo e muitas sugestões que apresentei foram aprovadas. Estar a dizer que era contra só para ser do contra não me agradava. Senti-me sempre um bocadinho a mais no partido, nunca me passaram muito cartão. Não era um homem do aparelho e senti-me relegado para segundo plano.A política deixou de o seduzir? Gosto de política e acompanho todas essas querelas. A política partidária nos termos que é posta é que não me seduz, não me diz nada.A Câmara do Cartaxo é uma das mais endividadas do país. Como foi possível chegar a esse ponto? Fui candidato em 1997 e já nessa altura havia uma dívida relevante, situação que questionei. Entretanto foi-se degradando. Não é que as pessoas não gostassem do Cartaxo ou que não fossem competentes, só que muitas vezes quem está nesses lugares de gestão precisa de um contraponto, que muitas vezes não existe...E quando quem manda não ouve esse contraponto, vindo da oposição ou de outros sectores? Aí é mais complicado. Mas o contraponto não é feito com papéis. O contrapoder não se faz só com comunicados para a comunicação social. Tem que se debater com as pessoas, discutir ideias. Fizeram-se muitas asneiras na gestão da Câmara do Cartaxo? Sim. Como a do parque de estacionamento subterrâneo ou a de cortar a estrada Santarém-Lisboa na zona junto à câmara.Apesar do descalabro financeiro da autarquia, o PS continua a ter a confiança dos eleitores do Cartaxo. Como analisa esse fenómeno? Os candidatos que eles têm apresentado são pessoas simpáticas e competentes. O Paulo Caldas era um aluno brilhante e tem um currículo académico assinalável. Mas o PSD também tem apresentado pessoas competentes…Que expectativa tem relativamente ao actual presidente da Câmara do Cartaxo, Pedro Magalhães Ribeiro? É uma pessoa muito dedicada, que gosta do Cartaxo, só que está numa situação muito difícil. Não lhe invejo a sorte. Vai ter de tomar decisões drásticas, que ninguém gosta de tomar, até porque as pessoas afectadas sentem-se lesadas. Celebra-se este mês de Junho mais um ano sobre a elevação do Cartaxo a cidade. A terra tem sabido merecer esse estatuto? A terra merece sempre. As pessoas que a têm gerido são empenhadas, são dedicadas, gostam da terra, mas falta mais qualquer coisa. Depois há as promoções, os lugares para amigos, uns certos compadrios que acabam por custar muito dinheiro à autarquia.O rótulo Cartaxo, Capital do Vinho foi uma boa aposta? Sim, mas tem de se fazer mais alguma coisa. O vinho do Cartaxo não está reconhecido a nível nacional como deveria. Não tem tido o crescimento que poderia e deveria ter. Até porque o Cartaxo pouco mais tem que o vinho, a não ser a excelente localização.Concorda com a mudança da Feira dos Santos para a zona envolvente à Praça de Touros, como tem sido falado? Eles têm que dinamizar essa zona. Aquela praça junto à Câmara do Cartaxo, que me perdoem, faz lembrar as praças na Roménia para o povo aclamar o Ceausescu. Obviamente que a ideia não foi essa, mas têm que criar ali uma centralidade, dar-lhe utilização.Caça e pesca são paixões duradourasJorge Honório tem na caça, na pesca e no tiro aos pratos passatempos de eleição. Na última época venatória apanhou um valente susto. Foi atingido por chumbos quando se encontrava a caçar com um cunhado. Uma galinhola saltou a meio dos dois, o companheiro de caça disparou e apanhou-o, mas nem esse percalço lhe esmoreceu a vontade. O gosto pela caça foi-lhe incutido pelo pai. O prazer da pesca foi ganho em São Martinho do Porto, após lá ter comprado casa. Começou a pescar no mar com o filho, quando este era criança, e o vício ficou. Come os peixes e peças de caça que apanha.É simpatizante do Benfica mas vê a equipa de futebol mais no sofá do que no estádio. Gosta de ir ao cinema ver filmes de aventuras e acção e é apreciador de zarzuelas (operetas espanholas), tal como de espectáculos de flamenco. Gosta mais de toureio a pé, mas a parte da morte do toiro não o entusiasma especialmente.

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