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Quando o Colete Encarnado era usado para espalhar mensagens contra a ditadura

Quando o Colete Encarnado era usado para espalhar mensagens contra a ditadura

Maria Eduarda Nobre era uma das comunistas que estava na linha da frente da resistência antifascista
Edição de 02.07.2014 | Suplemento Colete Encarnado
No tempo da ditadura as festas do Colete Encarnado eram usadas pelos antifascistas de Vila Franca de Xira para espalharem mensagens contra o regime de Salazar. Maria Eduarda Nobre, 75 anos, era uma das resistentes que estava na linha da frente e foi a primeira presidente da junta da democracia conquistada com a revolução do 25 de Abril. Conta que o trabalho que fazia com os camaradas comunistas estava facilitado pelo facto de os agentes da polícia política do regime, a PIDE, não intervirem às claras durante as festas para não as estragarem. O Colete Encarnado era uma espécie de paraíso da luta dos comunistas que também vendiam cravos para com o dinheiro angariado ajudarem as famílias dos presos políticos. Os riscos eram elevados mas a divulgação aos milhares de visitantes que iam à festa nos anos 60 valia a pena. Maria Eduarda Nobre, homenageada no dia da cidade com o galardão de cidadania (ver caixa), recorda-se que havia muitos infiltrados do regime e informadores da PIDE nas ruas. “Até sabíamos quem eram. Mas nessas alturas eles registavam o que fazíamos. Não tinha jeito estragar a festa”, diz.É comunista desde 1969. Nasceu em Alenquer no seio de uma família da classe média. O pai tinha uma sapataria e uma fábrica de calçado com uma dezena de empregados. Mas Maria nunca gostou de desigualdades. “Se tenho direito de ter um prato de sopa então uma criança ou um velhote deve também ter esse direito”, sublinha. Conheceu alguns comunistas e em pouco tempo a sua casa em Vila Franca tornou-se num ponto de encontro da resistência. “Já me tinham dito que estava na lista da PIDE. Era uma questão de tempo até ser presa mas felizmente deu-se o 25 de Abril”, recorda. O seu aniversário é no dia 25 de Abril por isso diz que a revolução dos cravos foi a melhor prenda que recebeu até hoje. Em cinco anos de resistência apanhou alguns sustos, um deles durante uma manifestação na cidade que acabou com incidentes entre manifestantes e polícia. “Nós sabíamos que o regime ia cair mas não sabíamos quando”, lembra.Depois da revolução fez parte do grupo que abriu na cidade a casa do Movimento Democrático Português. Foi com os camaradas ao município pedir a demissão do então presidente da câmara, Febo Vargas de Matos. “Foi tudo muito pacífico”, lembra. Encabeçou a comissão administrativa para a junta de freguesia. Geriu a autarquia entre Maio de 1974 e as eleições de 1976. Diz que encontrou uma cidade “muito pobre” e “carenciada”, com muita a gente a viver no limiar da pobreza, sem esgotos nem luz eléctrica. “Não havia nada”, lamenta.Maria Eduarda tem bem viva na memória a recordação do período após a revolução em que toda a gente se respeitava e acreditava num futuro próspero, em igualdade. “Infelizmente nada disso se concretizou”, lamenta. Para Maria Eduarda ainda há muita coisa a fazer para Vila Franca ser um local agradável para se viver, porque faltam mais distracções para a população, cinema, mais lares para idosos e infantários. “Ainda estamos muito longe de ter a sociedade que imaginámos no 25 de Abril. A liberdade é uma longa caminhada e bem-haja a todos os que participaram e ainda participam nessa caminhada”, conclui. Uma mulher dos sete ofícios e cidadã de méritoMaria Eduarda Nobre foi distinguida na noite de 28 de Junho, nas comemorações dos 30 anos de elevação a cidade, como cidadã de mérito na área da cidadania, pelo seu papel em prol da comunidade. Além de ter sido a primeira presidente de junta no período pós-revolução foi também uma das responsáveis da primeira comissão de instalação de uma Instituição Particular de Solidariedade Social em Vila Franca de Xira, que viria a dar origem à ABEI - Associação de Bem-Estar Infantil. Foi também das primeiras a integrar em Vila Franca a comissão da Amnistia Internacional. Nasceu a 25 de Abril de 1939 e já quando era pequena gostava de dar às escondidas, aos empregados do pai, frutas para eles comerem durante o trabalho. Em jovem assistiu um episódio em que um homem rico partiu uma perna a um adolescente e recusou-se a pagar as despesas de saúde. Como o homem era poderoso ninguém queria testemunhar contra ele em tribunal. Excepto Maria Eduarda. O seu testemunho valeu a vitória ao pequeno rapaz. Casou pelo registo aos 17 anos, por amor, com um rapaz da terra que tinha “todas as namoradas que queria”. Acabou por sair desiludida do casamento. Radicou-se em Vila Franca de Xira após o divórcio e abriu na cidade um negócio de lãs e camisolas, sem qualquer ajuda. Começou por ser ajuntadeira na oficina de calçado dos pais. Com a revolução do 25 de Abril começou a envolver-se mais no trabalho autárquico e acabou por fechar a loja, depois de receber um convite para entrar na função pública. Foi administrativa nos serviços da Segurança Social. Reformou-se em 2005. Tem duas filhas, três netos e dois bisnetos que moram em Macau.Críticas a Daniel Branco e elogios a Maria da Luz RosinhaMaria Eduarda Nobre é comunista mas garante que não é sectária, por isso não hesita em dizer que Daniel Branco, o último presidente comunista do município, foi o culpado da vitória da socialista Maria da Luz Rosinha. “O Daniel Branco foi um democrata mas não teve as ganas do antecessor (José Veríssimo Silva) e não conseguiu cativar as pessoas. Não votei na Maria da Luz Rosinha, apesar de ser uma amiga de longos anos. Mas dou-lhe valor porque foi uma mulher de coragem, de trabalho, de força. Fez um bom trabalho e foi uma boa presidente”, realça.Maria Eduarda Nobre diz que Nuno Libório, o comunista que concorreu à presidência da câmara e perdeu para o socialista Alberto Mesquita, é uma pessoa “impecável”. Mas considera que o actual presidente da Junta de Freguesia de Vila Franca, Mário Calado (CDU), é também um nome a considerar nas próximas eleições para a câmara. “O Mário é uma pessoa estimada pela população e é muito conhecido e popular. Tem sempre um sorriso aberto. O Libório é um amor de pessoa mas não é tão conhecido como o Mário”, nota.Maria Eduarda Nobre avalia também o trabalho da anterior presidente da junta, a socialista Ana Câncio (PS). Diz que ela foi a responsável por perder a autarquia para a CDU. “Esteve sempre um bocado parada e encostada à câmara. Ela nunca se mostrou muito como presidente à população da cidade”, critica.
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