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Memorável Manuel Serra d’Aire

Edição de 10.12.2014 | E-mails do outro mundo
Uma estudante do ensino secundário de Vila Franca de Xira foi visitar a Assembleia da República e ficou desapontada. E porquê? Porque viu alguns deputados a deglutir visualmente imagens de raparigas avantajadas nos ecrãs dos seus computadores em vez de estarem concentrados nos estimulantes trabalhos parlamentares. Sinceramente surpreende-me a ingenuidade da menina de 16 anos, que deu a conhecer a sua indignação através de uma carta enviada ao omnipresente professor Marcelo, que tratou de a tornar pública na sua homilia dominical na TVI.A estudante, frequentando o ensino do secundário, já devia saber que os deputados da nação são uma emanação do povo que neles vota. E já deve também ter reparado que passar as vistas por moçoilas avantajadas, e presumo que pouco vestidas, seja nos computadores portáteis seja nos tablets, TV ou telemóveis é hoje uma das actividades mais queridas e praticadas pelos portugueses, mesmo em contexto de trabalho. Por isso, fazendo o que faz a maior parte dos compatriotas, os nossos deputados demonstram que não são uma casta à parte e sublinham que são pessoas comuns, estreitando com essa postura a relação entre representantes e representados. Que é o que se anda para aí a defender há que séculos...Além disso, a denúncia da menina rescende a preconceito feminista. Por que razão só fala dos deputados e não menciona as deputadas? Será que as senhoras parlamentares estavam todas embrenhadas na discussão do Orçamento de Estado e tinham os portáteis desligados? E se tinham os computadores ligados que viam elas? Rapazes avantajados? Ou a jovem estudante não conseguiu chegar a todo o lado na sua pesquisa voyeurística? Eis perguntas importantes para se fazer luz sobre o assunto e traçar também o perfil das nossas deputadas, que a bem da nação espero que sejam tão atrevidas como os seus colegas homens.Manel aproxima-se o Natal e esta época do ano torna-nos mais piegas. Tal como tu, dou comigo a carpir mágoas pelo abandono da vida autárquica anunciado por António Rodrigues, homem conhecido pelo seu apego a cachupa, rotundas, gruas e palmeiras que deixou a sua marca à frente da Câmara de Torres Novas. Rodrigues, que também é escritor, é daquelas pessoas que qualquer cronista estima por ser uma inesgotável fonte de inspiração (o mérito é todo dele). A sua renúncia à vida política (pelo menos para já, pois estou convencido que ele vai regressar numa qualquer manhã de nevoeiro) só pode ser olhada com tristeza e uma já sentida saudade.Chegado aqui apetece perguntar: então quem é que nos acode? Sim, porque o panorama é desolador. Se olharmos bem para esta nova vaga de autarcas constatamos que a tecnocracia e o cinzentismo estão a tomar conta das nossas câmaras e da vida política em geral. A maior parte dos autarcas é como o Melhoral, nem faz bem nem faz mal, e tem o carisma de um peixe de aquário. Homens como António Rodrigues, Paulo Caldas, Moita Flores ou Sérgio Carrinho podiam não ser grande coisa em contas, mas, além de homens a quem não faltavam ideias (muitas vezes incompreendidas), eram grandes entertainers e um autêntico manancial de controvérsia e de histórias para contar. Hoje, olhamos em redor e rodeia-nos um deserto de ideias e de polémicas. Assistir a uma reunião de câmara é mais enfadonho do que ir à missa e o discurso de alguns autarcas tem um efeito soporífero semelhante ao do Valium topo de gama. Perante este cenário, o melhor mesmo é ir dormir.Um abraço solidário do Serafim das Neves

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