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Tomar continua à espera da mudança prometida

Tomar continua à espera da mudança prometida

António Ribeiro Mendes é militante socialista e não esconde que espera mais da coligação PS/CDU que governa a Câmara de Tomar há quase ano e meio. O médico cirurgião, que já foi autarca no concelho e entretanto se afastou da política activa, não fulaniza o discurso e esquiva-se a dirigir críticas directas aos políticos do seu concelho, mas diz que algo vai mal quando os que governam sabem menos do que os governados e que a actual gestão autárquica tem muito que trabalhar.

Edição de 11.02.2015 | Entrevista
Foi deputado municipal e integrou uma lista do PS às eleições europeias de 2004 e de 2009, não tendo sido eleito. Entretanto afastou-se da política. Porquê? O último momento de envolvimento foi quando morreu Sousa Franco, na campanha para as eleições europeias de 2009. Afastei-me por opção e por razões de natureza profissional. A minha profissão obriga-nos a uma grande dedicação e quase exclusividade.Não foi o PS que deixou de contar consigo? Penso que não. Cada um seguiu o seu caminho. Ainda sou militante do PS, embora não tenha as quotas em dia...A Câmara de Tomar mudou de cor política nas últimas eleições autárquicas, passando do PSD para o PS. Mudou para melhor? Penso que Tomar, apesar das visões mais pessimistas, tem condições para continuar a ser uma cidade bonita, interessante e profundamente bela para se viver. Digo isto, em primeiro lugar, porque temos uma Igreja forte. Na minha opinião, o mundo inteiro está a viver uma época pós-política e só as instituições pré-políticas, onde coloco a Igreja e a família, têm condições de perdurar e de encontrar raízes que proporcionem alternativas ao futuro que se adivinha difícil.Em que medida pode a Igreja proporcionar soluções para os tempos difíceis que vivemos? Uma Igreja forte é um caldo fundamental para o futuro, em todos os sentidos. Dou o exemplo da Cáritas em Tomar, que no âmbito social tem feito um trabalho notável. Se Portugal não teve os problemas da Grécia foi graças a uma rede social de apoio à pobreza e à exclusão que passa muito pelo trabalho que a Cáritas portuguesa tem feito. É essa palavra clara de encontro com a direcção da nossa Igreja que nos pode permitir dar o salto para o futuro. E alegra-me ver em torno da Igreja muito do bom que tem a nossa juventude.Voltando atrás. A gestão da Câmara de Tomar mudou para melhor? Tal como está hoje a política, as pessoas que são governadas têm que ser compreendidas pelo poder. E temos que perceber o que o poder está a fazer. As coisas são complexas no plano económico, no plano ambiental, no plano social. E é difícil um só presidente de câmara dominar todas essas áreas. Por vezes temos o ridículo de os governados saberem mais de alguns assuntos do que os que estão a tentar governar. Isto obriga a ter cuidados.É isso que acontece em Tomar? Esta câmara tem que, rapidamente, encontrar um ambiente democrático que lhe permita aproveitar a oportunidade que lhe foi dada para encontrar soluções novas para Tomar. Todo o poder local deve remodelar-se, fazer uma reformulação de funcionamento, no sentido de poder interpretar as vontades das pessoas e ir ao encontro delas. O actual executivo apresentou um programa eleitoral sufragado pela população. As pessoas tinham a noção daquilo com que podiam contar. Este executivo é uma aliança entre PS e CDU. O PS apresentou-se com uma agenda de mudança. A CDU com uma agenda de futuro. Para isso é necessário dinheiro e a nossa câmara tem alguns problemas a esse nível. Esta gestão vem a seguir a muitos anos de gestão PSD, pelo que se sentia necessidade de uma voz fresca. É nesse sentido que interpreto a vitória do PS e da CDU. Penso que têm muito que trabalhar e criar ambientes democráticos no funcionamento da câmara.Nos bastidores ouve-se dizer que quem manda na Câmara de Tomar é o chefe de gabinete da presidente, Luís Ferreira. Não sei. Penso é que em vez de haver uma verticalização do poder, centrado por exemplo num presidente da câmara, deve haver uma maior horizontalidade que leve a um diálogo com todas as forças políticas. Acredita que a aliança entre PS e CDU tem condições para durar até final do mandato? Eles é que têm que criar essas condições, se quiserem que a coligação perdure. Acho é que estes executivos têm de se dedicar 90 por cento a trabalhar e 10 por cento à campanha e não o contrário. Que expectativas tem em relação ao novo executivo da Câmara de Tomar? Tem pessoas com muito valor e capacidade de trabalho, mas não vou citar nomes. Acho é que tem de criar esse ambiente democrático de funcionamento e rapidamente passar a mensagem para as pessoas de que as estão a compreender. A câmara tem que dar a entender que está a trabalhar para as pessoas, que sabe o que as pessoas querem da câmara. A presidente da câmara devia ter evitado colocar o seu companheiro afectivo como chefe de gabinete, para evitar confusões e comentários? Não sou a favor nem contra. O que determina a avaliação é o comportamento das pessoas. Não é pelo facto de ser companheiro da presidente que se pode evitar que desempenhe esse cargo. O comportamento, tanto dela como dele e dos vereadores, é que deve ser avaliado. O que importa é acabar com a intriga, criar um ambiente democrático e trabalhar ao serviço das pessoas. O Luís Ferreira não é acusado por ser companheiro da presidente, mas sim de certos comportamentos perante os vereadores.De exorbitar competências, digamos assim... Quanto ao extrapolar de competências sou contra.Nas redes sociais lêem-se opiniões de que a câmara teria mais a ganhar sem Luís Ferreira na estrutura. Nesse caso eu deixo uma pergunta: por que é que os ditos opositores do Luís Ferreira dentro do PS, que tiveram uma maioria expressiva com a vitória do António Costa nas eleições internas do PS, não manifestam eles próprios essa posição. Isso é que é estranho. Por que é que os senhores vereadores, se porventura tiverem razões de queixa, não expressam isso? Acha que Luís Ferreira poderia dar um bom presidente da Câmara de Tomar? Penso que não. Não tem características para isso.E para ser chefe de gabinete da presidente? Acho que sim, está lá, está a desempenhar essas funções. Mas quem tem que fazer essa avaliação é a presidente Anabela Freitas.E Anabela Freitas tem sido uma agradável surpresa para si como autarca ou nem por isso? Digo que a actual gestão, baseada numa coligação PS/CDU, tem a responsabilidade de dar corpo à esperança da mudança e à visão de futuro do povo. Por enquanto, estamos à espera. Nunca pensou em candidatar-se a presidente da câmara municipal? Nunca. Mas também nunca fui convidado. Há um sindicato dos votos no funcionamento dos partidos políticos e quando me apercebi disso só tive um caminho, que foi afastar-me. “Tomar deve recentrar-se a norte”Tomar é uma cidade com um monumento património da humanidade, uma cidade virada para o turismo, com beleza natural e depois tem um cartão de visita como o bairro de lata do Flecheiro numa das entradas. Isso demonstra uma incapacidade notória da autarquia ao longo dos anos em resolver aquele problema. Sim. Denota provavelmente alguma falta de diálogo e de instrumentos para levar ao realojamento daquelas pessoas. Convencê-las a mudar de lugar.Nesse sentido perguntava-lhe se Tomar tem tido os autarcas que merece? Tomar tem tido o que tem podido. Mas na minha opinião teve um problema ao nível das acessibilidades. Só muito tarde terminou a sua rede de acessibilidades e penso que ficámos muito presos a este triângulo famoso do Ribatejo norte - Tomar/Torres Novas/Abrantes - quando em termos vocacionais acho que temos muito a ver com o Pinhal Interior e com a linha atlântica. E só o IC 9 e a A 13 é que nos deram agora instrumentos para caminharmos nesse sentido. Estivemos muito amarrados a duas cidades que competiram connosco em moldes diferentes em termos de acessibilidades. Tomar deve recentrar-se a norte.Desse famoso triângulo estratégico do Ribatejo norte pouco resultou de palpável... Penso que prejudicou Tomar. Tomar ficou durante muitos anos arredada dos grandes investimentos na rodovia. A A1 e a A23, por exemplo, passaram ao lado, e só mais tarde chegou a A13. Faltou peso político à cidade? Sim, faltou. Mas em contrapartida conseguimos coisas como o novo hospital, a autonomia do Politécnico de Tomar, as novas piscinas municipais… A remodelação da estação ferroviária é que não avançou.Um médico que cresceu no campo e no campo continuaAntónio José Ribeiro Mendes, médico cirurgião no Hospital de Tomar há quase 30 anos, nasceu a 31 de Março de 1960, na Póvoa, freguesia de Casais e Além da Ribeira, no concelho de Tomar. É o mais velho de dois filhos de um casal de comerciantes. É frequentemente confundido com o irmão, José Mendes, professor no Instituto Politécnico de Tomar e ex-vereador na Câmara de Tomar, eleito pelo PS, que é mais novo dois anos. Descobriu que queria ser médico muito precocemente, quando ajudava o pai, que tinha uma padaria e mini-mercado, na distribuição do pão pelas aldeias do concelho. Frequentou a escola primária na Pedreira, porque era nessa aldeia que o pai tinha o estabelecimento comercial. Depois frequentou o ciclo preparatório na Escola Gualdim Pais e o Liceu Nacional de Tomar. Tinha 14 anos quando se deu o 25 de Abril, e chegou a ser militante da União de Estudantes Comunistas (UEC). “Como eu costumo dizer, na altura depressa tínhamos que saber de política porque, em breve, batia-nos a guerra à porta. A revolução foi boa, não só pela democracia, mas pelo alívio que proporcionou às famílias que receavam perder os seus na guerra colonial”, recorda. Depois da conturbada fase que durou até aos acontecimentos de 25 de Novembro de 1975, foi o primeiro aluno a ser eleito para o Conselho Directivo do Liceu de Tomar após a entrada em vigor da nova lei de gestão democrática. Estava-se em 1976 e, nessa altura, os alunos tinham uma voz forte no que deveria ser o rumo de uma escola. Seguiu-se o chamado ano propedêutico (actual 12.º ano). Não entrou em Medicina à primeira tentativa e chegou a ir parar ao curso de Geologia na Faculdade de Ciências e Tecnologia de Coimbra. Repetiu o propedêutico. À segunda foi de vez, dando seguimento a um sonho de infância: ser médico. Frequentou o curso na Faculdade de Medicina de Coimbra entre 1980 e 1986 e terminou com média de 14 valores. A sua especialidade é Cirurgia Geral. “Quando andava com o meu pai, na actividade que ele tinha, íamos muito ao campo. Uma coisa que nos impressionava era a miséria que se vivia nessa época. Havia muito sofrimento. A formação humanista está-me enraizada desde o início”, recorda. Depois do curso, toda a sua carreira foi praticamente passada em Tomar. Está ligado ao Hospital de Tomar há 29 anos. Ainda acumulou cargos de gestão mas, desde 2002, que se dedica exclusivamente à cirurgia. Não sentiu o apelo de se fixar numa grande cidade por causa da criação do Centro Hospitalar do Médio Tejo (CHMT), na qual teve grande envolvimento, chegando a ser director clínico. É uma pessoa muito ligada à família e às suas raízes tanto que, actualmente, continua a residir na Póvoa. É casado e tem dois rapazes. O mais velho, revelou, está a frequentar o curso de Medicina na Universidade de Coimbra e o mais novo é um “brilhante” aluno do secundário. A leitura é o seu principal passatempo. Gosta, sobretudo, dos temas de Filosofia e Ciências Sociais. Chegou a tirar um curso de Verão de “Introdução à Filosofia Política”, em Berlim, então República Democrática Alemã, em 1978, experiência que o estimulou para essas preocupações. Colaborou na implementação do Lar “Raízes do Nabão” na Pedreira, instituição de solidariedade social na qual é voluntário, prestando consultas gratuitas aos utentes uma vez por semana. Sente que Tomar tem vindo a perder, nos últimos anos, importância estratégica em relação a outras cidades do Médio Tejo. Acredita que a reviravolta pode ser alcançada com uma forte aposta na Juventude. “Tomar é uma cidade bela, com um ensino público de alta qualidade e com uma Igreja forte que conta com o envolvimento dos melhores alunos das escolas. Isso é um bom prenúncio para o futuro desta cidade”, atesta o médico de 54 anos, católico praticante. “Não acartar água com uma peneira”, é o seu lema de vida, aliado ao amor ao próximo.Centro Hospitalar do Médio Tejo não tem resultado mas tem viabilidadeÉ médico do Hospital de Tomar. Foi um erro construir três hospitais no Médio Tejo separados por 30 quilómetros? Fui uma das pessoas que se empenhou muito em que fosse construído o novo Hospital de Tomar. Mas é bom lembrar que antes já existiam hospitais em Abrantes, Torres Novas e Tomar, e ainda havia o do Entroncamento. O que é triste é que com esta capacidade instalada não tenhamos conseguido ao longo destes anos todos fazer com que as pessoas estejam satisfeitas com a rede de saúde da região.É por falta de meios humanos? Penso que não. Talvez seja porque quem tem estado a governar na maioria das vezes tenham sido pessoas que não queriam a construção desses hospitais. A partir de 2002 houve uma mudança substancial no Serviço Nacional de Saúde (SNS). E o Centro Hospitalar do Médio Tejo sofre dos mesmos males e dos mesmos bens que o SNS no global.Embora haja uma questão que não existe noutras regiões, como por exemplo na zona sul do distrito, onde os cuidados de saúde hospitalares estão concentrados num só hospital, o de Santarém. No Médio Tejo as várias especialidades repartem-se por três hospitais. Em termos de funcionalidade esse modelo é o mais correcto? Não tem resultado, mas acho que tem viabilidade. Tem é que ser financiado. O Hospital de Tomar, por exemplo, foi dimensionado em certas especialidades para prestar serviço a áreas geográficas fora da região. Tínhamos uma Medicina Física e de Reabilitação que ultrapassava as fronteiras do Médio Tejo. Temos uma Psiquiatria que ultrapassa as fronteiras da região. Não se trata de três hospitais para esta região mas sim de três hospitais com capacidade instalada para servir o país. Agora, se não há financiamento para pôr isso a trabalhar as coisas não funcionam.Portugal tem uma média de médicos per capita razoável, mas depois temos metade do país a queixar-se de falta de médicos. Como é que se consegue convencer os seus colegas a virem trabalhar para o interior? O Estado tem de ter planeamento para abrir vagas no interior. Houve nos últimos anos uma redução das camas de internamento hospitalar no país, o que levou a que os médicos afectos a esses serviços diminuíssem. Um serviço de Medicina Interna que tenha menos médicos a trabalhar no hospital, automaticamente passa a ter menos médicos para a escala de urgência. E, com isso, a urgência foi aberta a médicos exteriores, contratados a empresas, o que resultou no caos que se está a ver.
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