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Vítor Rosa

Vítor Rosa

56 anos, empresário, Benavente

As pessoas têm direitos mas os patrões só têm deveres e sobretudo o dever de manter os postos de trabalho, manter a casa aberta, cumprir com as obrigações fiscais

Edição de 11.03.2015 | Agora falo eu
Com a nova lei deixou de comprar sacos no supermercado?Confesso que não vou muito ao supermercado e por norma é a minha esposa que faz as compras para o dia-a-dia. Por vezes tenho de ir ao supermercado para comprar alguma coisa de que tenho necessidade mas não vou prevenido e acabo por ter de comprar sacos.Tem medo de sujar as mãos de óleo?Até costumo trabalhar com o fato de macaco vestido e ao lado dos meus empregados. Visto o fato de macaco todos os dias e às vezes aos fins-de-semana ainda tenho de vir para a empresa resolver problemas para que na segunda-feira se possa dar seguimento aos trabalhos que são precisos. Há 20 anos que tenho a Benamáquina e estou nesta área desde a juventude. Foi a profissão que aprendi na altura e que segui à risca até aos dias de hoje. Comercializamos e reparamos máquinas industriais e agrícolas. É muito mais fácil ser empregado do que patrão nos dias que correm. Quando se é empregado não há responsabilidade pelos actos, atitudes e maneiras de estar e nós acabamos por ser responsáveis pelas pessoas, incluindo o bem-estar das famílias deles, porque contribuímos com o dinheiro que levam para casa ao fim do mês.Chega-lhe o tempo que tem para dormir?Durmo pouco, precisava de descansar mais mas infelizmente não consigo. Temos de dar corda ao chinelo para que isto ande para a frente, senão morremos. Temos de adaptar o negócio ao mercado. Quando somos militares fazemos formatura e caminhamos todos com o mesmo passo. A economia é a mesma coisa. Quando a economia se desloca num determinado sentido temos de andar com o passo certo, senão ficamos desenquadrados da realidade e ficamos para trás. Já pensei várias vezes em sair de Benavente porque estamos na periferia das decisões, não estamos no centro. Estamos isolados e quando precisamos de algumas coisas temos de ir a Santarém ou Lisboa. Já perdeu a vontade de se levantar de manhã?Já por várias vezes pensei em atirar a toalha ao chão. Mas quando chego à entrada da empresa e vejo tudo isto, vejo que é meu, percebo que não posso deixar isto cair. As pessoas têm direitos mas os patrões só têm deveres e sobretudo o dever de manter os postos de trabalho, manter a casa aberta, cumprir com as obrigações fiscais, e isso obriga-me a estar aqui permanentemente. Muitas vezes as dificuldades são de tal ordem que temos de dar o máximo e nem podemos ir à cama para cumprir com todas as nossas obrigações. Pega toiros nas esperas de Benavente?Já não mas já brinquei muito com os toiros. Hoje ainda gosto de ver mas sobretudo com um grupo de amigos à volta de um petisco e a rir um pouco. Se pudesse almoçar com o primeiro-ministro o que lhe dizia?Que pense naqueles que sustentam a base deste país, que são os pequenos empresários. O primeiro-ministro ainda pensa muito pouco neles. As nossas entidades só pensam nas grandes empresas. Mas esquecem-se que não são as grandes empresas que sustentam a economia, são as pequenas e micro empresas que criam milhares de postos de trabalho. Os grandes limitam-se a sair de cá, ter aqui filiais e a pagar os impostos lá fora. O país não apoia os empresários. A única coisa que nos apontam é a faca. Temos de cumprir as obrigações fiscais, segurança social, regras que são, algumas delas, absurdas. Somos um país de mendigos e temos leis e obrigações de países ricos. Não temos comida para meter na mesa mas temos de servir em talheres de porcelana. É homem de estar no café com os amigos ou em casa a ver a novela com a mulher?Novelas não vejo e francamente não sou homem de estar em casa a ver televisão. Tenho sempre coisas para fazer e normalmente sou mais de ir até ao café juntar-me com amigos ou ir à caça. Para novelas já basta a minha vida. O novo regulamento de Benavente para punir os donos de cães que façam os dejectos no passeio é uma boa ideia?É só fogo-de-vista. As pessoas vão continuar a fazer tudo como antigamente. No sentido prático das coisas, quem vai fiscalizar? É preciso apanhar as pessoas em flagrante e saber quem é o dono do cão. É irrisório e na prática não vai dar em nada.Férias são no campo ou na praia?Se tiver férias geralmente vou à praia. Costumo fazer a minha época de férias montando uma tenda de campismo num parque junto à costa alentejana, vou daqui na sexta, passo lá o sábado e domingo e venho embora. Faço estes dois meses de férias utilizando só o fim-de-semana. No mar fascina-me a paz, caminhar ao longo da areia e esquecer o dia-a-dia. Não é que os problemas fiquem além, mas dá para distrair, olhar o horizonte e cheirar a brisa. Há mais de 10 anos que não tenho férias dignas desse nome. Passa o dia a ralhar com os empregados?Não, só se necessário. Sou exigente comigo próprio e defino regras. Tenho sempre cábulas e papéis. O tempo para mim é contado ao minuto e programo a vida dos meus funcionários assim. Sou exigente porque tenho de chegar ao fim do dia e ver alguma rentabilidade do tempo gasto senão não faz sentido aqui andar.
Vítor Rosa

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