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“Por vezes tenho que me impor limites”

“Por vezes tenho que me impor limites”

Vasco Gargalo considera que a liberdade de expressão está cada vez mais condicionada

Cartunista, caricaturista e ilustrador de Vila Franca de Xira garante que nunca irá desistir de prosseguir o seu sonho: viver apenas da sua arte. Para já confessa que não é fácil. Em vésperas da inauguração de mais um CartoonXira, reconhece que por vezes tem de pôr freio à criatividade e não colocar no papel tudo o que a sua imaginação concebe.

Edição de 18.03.2015 | Cultura e Lazer
Nunca ninguém até hoje demonstrou ter ficado ofendido com uma caricatura ou cartoon seus, mas o vila-franquense Vasco Gargalo defende que a liberdade de expressão está cada vez mais condicionada. “Se o meu cartoon for contra os ideais de um jornal, tenho a certeza que jamais o publicarão e tenho, por isso, que me impor limites”, adiantou o cartunista a O MIRANTE por ocasião de mais um CartoonXira, que estará patente até 10 de Maio, no Celeiro da Patriarcal, em Vila Franca de Xira.Defende que um cartoon deve chocar, ser sarcástico e ter alguma intervenção, para poder chamar a atenção, mas admite que só o consegue, na verdadeira essência da palavra, quando o desenha para si mesmo. Os interesses políticos e financeiros são apontados por Vasco Gargalo como um limite à liberdade de expressão dos cartunistas na hora de apresentar um trabalho a um editor ou director de jornal, dado que estes só o publicarão se o desenho não for contra os ideais ou parceiros dessa publicação. “Mesmo assim, defendo que o trabalho de um cartunista nunca deve ser limitado e devemos desenhar de acordo com a nossa consciência e da forma como vemos o mundo”, opinou.Neste momento Vasco Gargalo está mais ligado ao mundo da ilustração infantil, porque os jornais só lhe pedem para fazer cartoons muito esporadicamente. Mesmo assim, garante que não há semana que passe sem fazer um ou dois para publicar no seu site pessoal. “Admito que é cada vez mais difícil viver-se da caricatura e do cartoon, embora seja este o meu universo. Como esta arte está directamente ligada ao jornalismo, que ainda está a despedir pessoas todos os dias, não é fácil”, considera.Vasco Gargalo sempre gostou de desenhar. A caricatura entrou na sua vida ainda em criança através da admiração do trabalho de Francisco Zambujal. Tem a consciência que é necessário acompanhar muito bem a política nacional e internacional dado que, hoje em dia, o seu lápis afiado retrata muito o que se passa nessa área pelo mundo fora.Diz que nunca sentiu interesse em satirizar políticos ou pessoas ligadas à sua terra natal ou à região que o viu nascer e crescer, o Ribatejo, talvez por “nunca ter sido convidado para o fazer num jornal local ou regional”. Como diz o ditado que “o feitiço vira-se contra o feiticeiro”, admite que também ele já foi satirizado por outros cartunistas. Não gostou de tudo o que viu, dado o seu olho clínico para a coisa, mas lembra-se de um que o fez rir muito, pelo seu sentido de humor bastante apurado, desenhado por um colega brasileiro e que guarda religiosamente até hoje.Regresso ao CartoonXira após 13 anos Este ano participa pela segunda vez no CartoonXira, após um interregno de 13 anos. Na altura foi convidado pelo município e este ano pelo cartunista organizador do evento, o também vila-franquense António Moreira Antunes. Afirma que aprendeu e desenvolveu muito a sua técnica desde 2002, embora acredite que este segundo convite surge porque tem vindo a somar cartoons e caricaturas do ano nos últimos tempos. (ver caixa) Quanto à exposição em si, admite que a visitou sempre que teve oportunidade ao longo deste anos e vê-a como uma mais-valia para a riqueza cultural de Vila Franca de Xira. Este ano vai apresentar nesta exposição seis trabalhos sobre o 25 de Abril, a Crimeia, o actual governo e a visita de Barack Obama ao Vaticano.Lamenta que as pessoas nunca tenham dado o devido valor ao cartoon. Segundo as suas palavras esta “sempre foi vista como uma arte menor” e apenas com os atentados ao jornal francês Charlie Hebdo se começou a falar mais e a dar mais atenção a esse trabalho. Atento aos eventos culturais com os quais se identifica em Vila Franca Xira, vê o Museu do Neo-realismo e a Biblioteca Fábrica das Palavras como “dois grandes novos impulsionadores da cultura na cidade, que permitem dispersar as mentes da terra dos toiros e dos cavalos”. Lembra-se de em criança ter mergulhado no Tejo com os colegas da escola e defende que as grandes amizades que construiu, ao longo dos anos, em Vila Franca de Xira são as melhores recordações que guarda da terra onde vive ainda hoje. Embora diga que não ficou sentido, deixou passar a ideia que teria sabido bem se a sua autarquia lhe tivesse dado os parabéns quando recebeu, em 2009, o Prémio Stuart, de Desenho de Imprensa do El Corte Inglês, para melhor cartoon/caricatura da Imprensa Portuguesa. “A câmara municipal faz muitas condecorações e homenagens a cavaleiros e desportistas, mas no que toca a outras áreas não funciona assim”, evidenciou.Um artista premiadoVasco Gargalo nasceu há 38 anos em Vila Franca de Xira, onde ainda hoje reside e trabalha. A sua formação passou pela Faculdade de Belas-Artes de Lisboa, assim como pelo curso de Artes de Ilustração e Banda Desenhada no Ar.co. Frequenta actualmente o mestrado em Ilustração Artística do Instituto Superior de Educação e Ciências (ISEC).Já mostrou as suas caricaturas, cartoons e ilustrações em diferentes publicações de tiragem nacional, desde editoras, jornais, revistas, agências de publicidade e projectos artísticos de ilustração e banda desenhada. Participou em várias exposições colectivas e individuais em Portugal e arrematou diversos prémios nas áreas por onde desenvolve o seu trabalho. Em 2014 foi galardoado com o Prémio Especial da Humorgrafe, na IV Bienal de Humor Luis d’ Oliveira Guimarães em Penela. Em 2011, saiu vencedor do Concurso Sardinhas das Festas de Lisboa, promovido pela EGAC, e em 2009, recebeu o Prémio Stuart de Desenho de Imprensa do El Corte Inglês, para melhor cartoon/caricatura da Imprensa Portuguesa. Já foi também distinguido, em 2005, com o Prémio Juventude de Ilustração no XIX Salão Nacional Humor de Imprensa em Oeiras e, nesse mesmo ano, trouxe para Vila Franca de Xira uma Menção Honrosa do IX Salão Luso Galaico de Caricatura em Vila Real.
“Por vezes tenho que me impor limites”

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