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“Andei sempre na política para servir e não para me servir”

“Andei sempre na política para servir e não para me servir”

Humberto Lopes foi o único presidente da Câmara de Abrantes eleito pelo PSD

Antigo vereador e presidente da Câmara de Abrantes, entre 1980 e 1994, numa altura em que se geria ao tostão, Humberto Lopes reconhece que houve um certo deslumbramento por parte da geração seguinte de autarcas. A profusão de fundos comunitários levou à execução de investimentos que roçaram o desperdício e a megalomania. Após vários anos à frente do Centro de Recuperação e Integração de Abrantes, tem hoje mais tempo para a família. Mas mesmo assim não lhe falta que fazer. “Parar é morrer e eu não quero morrer tão cedo”, diz nesta entrevista onde também fala da cidade que está em festa por estes dias.

Edição de 09.06.2015 | Entrevista
João CalhazHumberto Lopes teve uma vida política preenchida entre 1977 e 1994, estreando-se como presidente da Junta de Freguesia de Mouriscas e acabando como presidente da Câmara de Abrantes, o único até à data eleito pelo PSD, partido que pouco depois lhe retirou o apoio. Sucedeu-lhe à frente do município o socialista Nelson de Carvalho, que, curiosamente, Humberto Lopes foi convidar, no final de 2014, para lhe suceder novamente, mas desta vez à frente da direcção do CRIA - Centro de Recuperação e Integração de Abrantes.“Vacinado da política”, diz que não presta muita atenção à actividade político-partidária local e alinha o discurso sempre por uma certa diplomacia e relativização, sobretudo quando é convidado a pronunciar-se sobre projectos e investimentos controversos feitos pela Câmara de Abrantes quando era presidida pelo seu sucessor. Foram muitos anos à frente do Centro de Recuperação e Integração de Abrantes (CRIA). A separação foi dolorosa? É sempre dolorosa. Foram 18 anos que estive no CRIA. É uma instituição especial onde conta fundamentalmente a amizade e a relação especial que se estabelece com os utentes, que nos liga para sempre à instituição.Então porquê a saída? Entendi que era a altura, não só pelo muito tempo que já tinha na instituição mas também pela minha idade. Já não sou uma pessoa, digamos, nova. Já estou no declínio da vida e há que dar lugar a pessoas mais novas, a outras ideias e experiências. Em finais de 2014 foi possível encontrar um grupo de pessoas disponíveis para assumir a direcção da instituição. Convidei Nelson de Carvalho, que foi o meu sucessor na Câmara de Abrantes.Acha que uma pessoa com experiência política tem mais condições para assumir esse tipo de cargo? O CRIA é uma instituição já com algum peso em termos de gestão, tem mais de 90 funcionários, e presta serviço a mais de um milhar de pessoas na região de Abrantes, pois abrange também os concelhos de Sardoal, Mação e Constância. É, digamos, uma empresa já com algum volume. O que requer alguém com conhecimentos profundos de gestão e de administração. Porquê Nelson de Carvalho? Conheço o Nelson de Carvalho desde os tempos em que fomos colegas no liceu de Abrantes, na década de 80, e sabia que tinha condições para assumir a direcção. Felizmente ele aceitou.A experiência política é uma mais valia? Pode ajudar? Pode. Conta muito na política a relação humana. E ali o que era preciso realmente era a relação humana. Ser uma pessoa aberta e ter umas noções de gestão. O currículo político também pode ajudar a abrir algumas portas? Ajuda a abrir portas porque há sempre relações humanas que se mantiveram ao longo da vida…Mesmo nos gabinetes em Lisboa... Mesmo nos gabinetes em Lisboa, embora me pareça que isso não adianta muito. Permite-nos realmente entrar nalguns gabinetes mas normalmente não adianta muito relativamente aos objectivos que se pretendem. Porque as pessoas estão abertas, sim senhor, mas hoje funciona tudo através de programas, de candidaturas…Nelson de Carvalho foi muito criticado por ter deixado a presidência da Assembleia Municipal de Abrantes antes do fim do mandato, quando assumiu a presidência do CRIA. São decisões pessoais.Os políticos quando são eleitos para um cargo e depois o abandonam não estão a desrespeitar quem votou neles? Os cargos não eram incompatíveis, mas cada um sabe de si e Deus sabe de todos. Nelson de Carvalho tomou a decisão que entendeu ser a melhor para ele e para a assembleia municipal.Nelson Carvalho tem sido também criticado pela concretização de alguns projectos que não têm resultado. Casos do açude insuflável e do novo cemitério, que têm dado muitos problemas, ou do campo de basebol, que se encontra praticamente sem uso. São os riscos da política. Nos três casos que falou a iniciativa era boa, mas depois acho que houve alguns pecadilhos nas execuções. Por exemplo, em relação ao Aquapolis e ao açude, aquilo que estava previsto inicialmente era uma ponte no Tramagal com açude, que resolveria o problema do lago em frente a Abrantes e o das comunicações com o Tramagal e a A23. Foi um projecto que saiu da cabeça do engenheiro Bioucas, que foi presidente da câmara durante muitos anos, e que ele não conseguiu concretizar e eu a seguir também não. E a ponte ficou por fazer. Sim. Nelson e a sua equipa optaram por este projecto. Eu teria optado por uma ponte com açude mais a jusante, que servisse a criação do lago e a ligação ao Tramagal. Mas nem tudo aquilo que ambicionamos na política consegue realizar-se. Vê-se isso a nível do próprio Governo, que também tem os seus elefantes brancos.A profusão de fundos comunitários também permitiu que aparecessem outro tipo de projectos, mais ousados para não lhes chamar megalómanos. É capaz de ter havido um certo deslumbramento. Em relação aos mandatos de Nelson de Carvalho, eu aprecio por exemplo o complexo desportivo. Podemos dizer que o campo de futebol tem pouca utilização, mas é uma mais valia e também se vê lá muita gente nas pistas, por exemplo. O complexo de piscinas também tem muita gente.“Teatro São Pedro é um monstro no meio da cidade”Outro projecto polémico que transitou da época de Nelson Carvalho, o da construção de uma torre no centro histórico para acolher o Museu Ibérico de Arqueologia e Arte, foi reformulado e essa construção ficou adiada. Ficou satisfeito com essa medida? Nunca concordei com esse projecto. Tenho uma grande admiração pelo convento de são Domingos. Iniciei no meu mandato a recuperação do convento, com a construção da biblioteca, um projecto do falecido arquitecto Duarte Castel-Branco, e a ideia era continuar com a intervenção. Era para manter ali o arquivo histórico, que acabou por ser deslocado para a zona industrial. Mas com esse apêndice da torre não? Nem pensar. Já temos um exemplo na cidade que devia servir de inspiração para o futuro, que é o Teatro São Pedro. É um monstro no meio da cidade, que a descaracterizou imenso e que é difícil de erradicar e de rentabilizar. O tipo de cinema para que foi construído desapareceu, o que não justifica a existência daquela infra-estrutura naquele sítio.Um grande empreendimento que parece ter falhado foi o da RPP Solar, dirigido para as energias renováveis e que devia ter sido construído na freguesia da Concavada. Sim, esse falhou redondamente. O empreendedor tinha o currículo que tinha e nunca acreditei muito nesse projecto.A Câmara de Abrantes comprou um terreno por um milhão de euros, no tempo de Nelson de Carvalho como presidente, e vendeu-o ao promotor por 100 mil euros. Isso não parece um grande negócio. É aquela história de dar um tiro no pé. Tenho para mim que, da parte da câmara, as pessoas agiram todas de boa fé, mas foram apanhadas em contra-pé.Um homem que não gosta de estar paradoHumberto Lopes nasceu a 17 de Novembro de 1940 na freguesia de Mouriscas, Abrantes. É licenciado em Ciências Matemáticas pela Universidade de Coimbra e foi professor de matemática grande parte da sua vida em vários pontos do país, mas sobretudo em Abrantes. É casado e pai de três filhos.Em 1964 é chamado para cumprir o serviço militar obrigatório e dois anos mais tarde é mobilizado para a Guiné, onde fica até 1968. No ano seguinte ruma a Angola, onde continua a carreira de professor em Carmona até 1975. Com a descolonização regressa a Portugal e prossegue a carreira docente, passada sobretudo no Liceu Nacional de Abrantes, actual Escola Secundária Dr. Manuel Fernandes. Aposentou-se em 1992.Aposentado e retirado da política, passa a dedicar-se a várias instituições. Actualmente é presidente das assembleias gerais do CRIA, da Misericórdia de Abrantes e da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Abrantes. É ainda presidente da direcção da Associação de Desenvolvimento Integrado de Mouriscas e pertence aos conselhos fiscais da União Distrital das Instituições Particulares de Solidariedade Social de Santarém e da União dos Centros de Recuperação Infantil do Distrito de Santarém e outros.A saída da direcção do CRIA deu-lhe mais tempo para si e para a família, mas mesmo assim diz que não lhe falta que fazer. “Não posso parar. Parar é morrer e eu não quero morrer tão cedo”, sintetiza com humor.“O PSD de Abrantes tem dado muitos tiros nos pés”Desfiliou-se do PSD após deixar a presidência da Câmara de Abrantes, no início de 1994, cargo a que não se recandidatou por não ter o apoio do seu partido. E o PS acabou por recuperar a autarquia, com maioria absoluta, pelas mãos de Nelson de Carvalho. São habituais as cisões no PSD em Abrantes e sempre procurou manter uma postura equidistante em relação às várias facções. Foi isso que terá levado a que o escolhessem pela primeira vez como candidato à câmara em 1985, “com a certeza de que não ganhava”, e acabou por ficar como vereador a tempo inteiro quando liderava a autarquia o socialista José Bioucas.Em 1989 repetiu a candidatura pelo PSD. Já era mais conhecido no concelho devido às responsabilidades políticas que tinha tido na área social e da educação e acabou por vencer por uma margem que não chegou a 400 votos. “Mas curiosamente fiquei a saber na noite em que ganhei que não era intenção do partido que eu ganhasse. Felizmente tive uma série de amigos que até eram do PS, que me disseram que não me iam deixar cair. E acabei por ter orçamentos rejeitados pelo PSD e aprovados pelo PS”. Passagem pela Assembleia da República foi uma desilusãoDiz que o partido em que militou, em Abrantes, “tem dado muitos tiros nos pés” devido a algumas “ambições pessoais lícitas mas mal encaminhadas”. E neste momento admite que não sabe se há alguém no PSD que possa ser uma boa escolha para candidatar à câmara. “Nem sei quem são os militantes, com excepção de Elza Vitório, que é vereadora”. Depois lembra-se que afinal há alguém no PSD que poderia ser uma boa solução: Octávio Oliveira, actual Secretário de Estado do Emprego, que é natural do Tramagal. “Mas penso que não é uma pessoa que queira passar de Secretário de Estado para presidente da câmara. Mas em tempos teria sido uma boa opção”.Humberto Lopes foi presidente de junta de freguesia, vereador, presidente da câmara e deputado à Assembleia da República, embora em regime de substituição. O cargo que mais o preencheu foi o de presidente da Câmara de Abrantes. “Foi onde mais me senti realizado, porque vejo a política como um serviço às populações. Andei sempre na política para servir e não para me servir”. Já da passagem pelo Parlamento não guarda grandes saudades. “Devo confessar que foi uma desilusão completa. Dentro do grupo parlamentar têm voz meia dúzia de pessoas, os outros estão lá para levantar e baixar o braço e, quando muito, falam nas comissões”.“A presidente da Câmara de Abrantes tem garra e iniciativa”Continua atento à politica local? Não. Abandonei totalmente desde 1994, quando saí do partido (PSD).Não tem opinião formada sobre o trabalho do actual executivo camarário? Não. Sou amigo da actual presidente, conheci-a muito novinha. Estudou no liceu quando eu era lá professor. Depois foi estudar para Coimbra e regressou. Era associada do CRIA quando eu era presidente e cheguei a dizer-lhe que via nela uma futura presidente da Câmara de Abrantes.E que dizia ela? Ria-se muito, achava piada. Mas acabou por se concretizar. Acho que Maria do Céu Albuquerque tem garra, é uma pessoa com iniciativa. Mas tudo é discutível. Costumo assumir aquele pensamento que diz que todo o homem que decide, que faz qualquer coisa, tem contra ele os que querem fazer exactamente o mesmo, os que querem fazer o contrário e, sobretudo, o grande exército das pessoas muito mais exigentes que não fazem nada. As pessoas decidem e eu tenho a minha opinião. E qual é a sua opinião? Acho-a interessada no progresso, é uma pessoa do concelho, mas as coisas estão tão difíceis para as autarquias como estavam quando me iniciei em 1977, na Junta de Freguesia de Mouriscas. Não havia dinheiro.A chegada das auto-estradas ao interior do país, e também a Abrantes, foi vista como um importante factor para esbater assimetrias entre litoral e interior, mas pelos vistos as coisas não funcionaram assim. E há quem diga que as assimetrias até se acentuaram. Já na altura havia quem pensasse assim. Havia realmente essa vertente de que a auto-estrada iria abrir o litoral ao interior, mas havia já uma corrente que pensava o contrário, onde me incluía.O que traz também leva... Exactamente. É verdade que as ligações dentro do país e com Espanha e a Europa tornaram-se mais fáceis, mas isso não quis dizer que as pessoas viessem do litoral para o interior. Pelo contrário. Aliás a A1 é um bom exemplo da divisão do país em duas grandes áreas, litoral e interior, e a A23, sendo uma transversal, leva muita gente da Beira Interior e do Ribatejo norte para a zona de Lisboa.A atracção de investimento também não foi a que se esperaria. Pois não. É difícil atrair empreendimentos para o interior, porque o país vive muito com base no que se decide em Lisboa. Quase tudo continua a decidir-se em Lisboa. Bati-me muito pela regionalização do país e fui muito criticado.Porquê? Sempre me disseram que era muito complicado e que implicava muitos gastos. Acho que hoje se gasta tanto ou mais do que isso e continua-se a decidir em Lisboa. E as populações, que deviam decidir nas suas regiões aquilo que pretendem, continuam a não decidir coisa alguma. Custou-lhe a perda de importância do Tribunal de Abrantes, com a reforma do mapa judiciário? Esta reforma nos tribunais, em relação a Abrantes, só prejudicou. Tornou mais difícil às pessoas o acesso à justiça. A cidade perdeu o Tribunal de Trabalho, perdeu o Tribunal de Círculo, muitos funcionários foram embora e isso teve reflexos no próprio comércio. Curiosamente, quando fui presidente da câmara, a intenção do Ministério da Justiça era alargar as instalações, construir um edifício ao lado do actual. Está lá o terreno. E hoje temos um edifício em parte abandonado, com o Estado a pagar rendas chorudas por outros serviços públicos que poderiam lá estar. A Escola Superior de Tecnologia de Abrantes (ESTA) tem sido uma mais valia para a cidade? Tem, embora o ensino superior esteja demasiado pulverizado. A juventude está a diminuir em número e é natural que essa dispersão de unidades de ensino cause alguns efeitos. Porque a oferta começa a ser muita para a procura. É natural que a ESTA e alguns institutos encontrem dificuldades em encontrar alunos suficientes para que os cursos sejam rentabilizados.
“Andei sempre na política para servir e não para me servir”

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