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António Manuel Baptista, de Almeirim para o mundo da ciência

António Manuel Baptista, de Almeirim para o mundo da ciência

A paixão pela ficção abriu-lhe as portas da ciência

Entrevista publicada na edição nº 424 de 2 de Novembro 2000

Edição de 11.06.2015 | Entrevista
Na sua meninice em Almeirim era uma criança como tantas outras. Gostava de tomar banho no Tejo e na vala, de andar de bicicleta e sujeitava-se com regularidade aos ralhetes da mãe e da avó. Depois foi a ida para Santarém, onde o pai era oficial do Exército. No liceu foi um aluno médio, já interessado pela química, muito por influência de uma personagem de Júlio Verne, mas só na Faculdade de Ciência de Lisboa começou a destacar-se e a confirmar que o seu caminho passava pela física nuclear. António Manuel Baptista, 76 anos, professor e cientista, é também um comunicador nato sobre assuntos de ciência. A RTP e a TSF foram alguns dos orgãos com quem colaborou. A conversa raramente sai do seu campo preferido e é evidente a tentativa de desmistificar os preconceitos que a opinião pública nutre sobre a energia nuclear.P - Normalmente as crianças têm pouca apetência para as ciências e fogem da matemática a sete pés. Como é que surgiu a sua vocação científica?R - Não sei. O meu próprio comportamento é também para mim um objecto de estudo. Creio que foi bastante importante para mim a leitura, e em particular a leitura de Júlio Verne que eu lamento que os jovens de hoje não conheçam. Lembro-me sobretudo do livro “A Ilha Misteriosa” onde há uma personagem que é engenheiro, a figura central, que era um homem com um conhecimento enciclopédico que dos recursos naturais da ilha deserta conseguiu daí extrair tudo.P - Nessa altura vivia ainda em Almeirim?R - Não. Nessa altura vivia já em Santarém. P - Qual foi o seu percurso até se decidir pela física? R - Talvez sob a influência dessa figura do engenheiro, que usava os seus conhecimentos na produção de bens indispensáveis para a sobrevivência, lembro-me de aos catorze ou quinze anos ter um laboratório de química. Ainda andava a estudar a química do quarto ano do liceu e já sabia a química do sétimo. Eu tentei fazer o algodão-pólvora que o engenheiro fez e encontrei-me com certos problemas de química que eu não encontrava no meu livro de química. P - Foi aí que se iniciou a descoberta de uma vocação?R - Julgo que sim. Nós tínhamos um grupo no liceu que passou a ter curiosidades de tipo científico e tecnológico, como a fotografia. Felizmente eu vivia numa casa que tinha um jardim com uma casota e ali nos instalámos e fizemos coisas que não devíamos fazer, que eram muito perigosas. Aquilo não ardeu por acaso. Mas tanto quanto me consigo lembrar foi assim. Não houve uma influência directa de nenhum professor.P - E da família?R - Da família também não. O meu pai era oficial do Exército mas o que ele queria ser era médico. Era uma família humilde que naquela altura estava a tentar sair deste estado rural. O meu avô foi secretário da câmara de Almeirim, ainda esteve envolvido na criação deste jardim e do mercado, que eu ainda me lembro. Um das imagens mais intensas da minha vida como rapazito em Almeirim é a da inauguração deste jardim e do mercado, que foi feito na mesma altura.P - Voltando à família...R - O meu pai ia estudar para o liceu de Santarém, ia de burro logo às cinco da manhã com o seu farnel, e queria ser médico. Simplesmente o meu avô não tinha dinheiro e houve a primeira Grande Guerra. O meu pai foi à vida militar mas, curiosamente, uma coisa que eu nunca entendi, ele queria ser aviador. Pense você, uma pessoa em 1916 ou 1917 foi para a vida militar gostando muito da aviação. Portanto devia haver um gene qualquer tecnológico na minha família. P - Depois do liceu vai para a faculdade, em Lisboa?R - Estive no liceu Sá da Bandeira, ainda junto ao seminário, até ao quarto ano. Depois o meu pai foi para Lisboa e eu passei para o liceu Passos Manuel. Seguiu-se a Faculdade de Ciências...P - A mudança de Santarém para Lisboa foi muito marcante?R - Custou-me muito. A vida das pequenas cidades é rotineira mas tem aspectos muito agradáveis. Estamos numa comunidade em que conhecemos quase todas as componentes. Eu tinha uma rotina de vida e os hábitos são coisas bastante importantes. Lembro-me que me custou imenso.P - Qual é a sua relação com Almeirim, terra onde nasceu?R - Muito pequena.P - Segue a realidade ribatejana à distância?R - Sigo. Recebo O MIRANTE e é através do vosso jornal que vou tomando contacto com a realidade local. Se as pessoas já não as conheço, os locais sim. E isto é muito importante. É muito importante a terra pequena, como dizem os espanhóis. Nós temos uma necessidade de termos raízes ligadas às pequenas comunidades, à nossa infância.P - Uma infância de que tem gratas recordações, presumo?R - A minha infância aqui em Almeirim foi espantosamente rica. Nós éramos muito livres de jogar a bola, de ir à pesca, de andarmos de bicicleta, de irmos nadar para o Tejo e depois sermos castigados em casa. As crianças hoje devem ter menos possibilidades aqui. Levávamos uma vida ocupada da manhã à noite, com desportos que inventávamos ou outros que estavam na moda, como o berlinde ou o pião. Tínhamos a possibilidade de gozarmos os espaços abertos, que os meus netos provavelmente já não vão ter.“SÓ EM LISBOA DESCOBRI QUE PODIA TER ALGUM TALENTO”P - O seu interesse pela química não fez com que tivesse gostos diferentes da maioria da rapaziada dessa altura?R - Não. Pelo contrário. Eu era um aluno médio, não era um dos alunos brilhantes. Só em Lisboa e no último ano é que descobri que podia ter algum talento.P - Há pessoas que nunca chegam a descobrir...R - É verdade. E esse é que é o problema terrível da educação, que passa pela responsabilidade enorme dos professores em efectivamente perceberem aquilo que têm ali em frente. Porque nem sempre as pessoas manifestam os talentos potenciais que podem ter. Eu, por exemplo, tive muito poucos professores no sentido em que eu hoje considero a figura do professor, que é um homem que nos ajuda a desenvolver os nossos talentos. São pessoas que têm que ter uma enorme imaginação intelectual, para se colocarem no lugar dos jovens e perceber quais são as direcções em que eles se podem desenvolver. Isso é extremamente importante e por isso eu digo que ninguém sabe fazer hoje um exame de admissão a uma universidade.P - Porquê?R - Primeiro, porque nós hoje perdemos um sentido que é curioso. O problema é que nós não definimos o que é a universidade e para que serve. E isto tem sido uma das falhas do nosso sistema educativo. O sistema educativo antes era muito mau, nós temos uma carga histórica, uma inércia histórica que eu não sei como é que a gente se vai desembaraçar dela. Na verdade é um problema dramático.P - Que se deve a quê?R - Vamos olhar um bocadinho para aquilo a que se chamam os factos. Nunca se disse muito bem para que servia o ensino superior. E hoje a noção que se tem é que serve para arranjar empregos. P – O que não é de todo verdade?R - Também é verdade, porque ninguém consegue viver sem emprego.P - Mas não é complemente verdade. Ou seja, nem toda a gente que tira um curso superior arranja emprego na sua área de formação.R - Correcto. Mas não é efectivamente verdade que todo o ensino superior tem este carácter cinzento que hoje tem e esta preocupação única do canudo? Nós perdemos o sentido da função da universidade, que nunca aliás tivemos em nenhum momento histórico. A nossa universidade nunca aceitou e fez sempre batota.P - Batota em que sentido?R - Por exemplo: quando nos apreciavam nos concursos para professor obrigatoriamente devíamos apresentar um trabalho de investigação científica, devia ser sempre apreciado o currículo científico, mas a preocupação pela investigação científica e o currículo eram secundários na própria universidade. Nunca se criaram condições para que as pessoas que lá trabalhassem tivessem uma carreira onde fossem apreciadas as suas contribuições científicas. Mas era disso que se falava quando a gente ia fazer um concurso.P - Exigiam mas depois não praticavam.R - E depois a palavra científica aparece a coroar todo um conjunto de actividades e aquilo tudo era batotice. A prova é que os doutoramentos iam fazer-se lá fora.P - Foi o que aconteceu consigo?R - A minha trajectória é um bocadinho diferente. Fui apanhado numa transição na Faculdade de Ciências. O professor com quem eu trabalhava convidou-me para assistente e havia um Centro de Estudos de Alta Cultura que era anexo ao laboratório de Física. A minha vida fazia-se de manhã à noite na Faculdade de Ciências. Eu acabava as minhas aulas e ia para a investigação científica. Daí que eu tenha criado esta imagem de que a única coisa compatível com o ensino universitário é a investigação. E não sei se reciprocamente. Hoje tenho que repensar... Poderia ir falando sobre esse assunto e perceber aquilo que eu penso sobre ele.P - A massificação do ensino superior também não contribuiu para a almejada qualidade?R - Criaram as universidades particulares e nunca ninguém exigiu que elas tivessem também esta função.P - Essa criação, na sua perspectiva, foi negativa?R - Foi negativa. Eu continuo a dizer que os nomes têm a sua importância. Se nós precisávamos de escola profissionais dizíamos o que é que queríamos, fosse para advogados ou para outras áreas. Nunca lhe chamaríamos universidades. E agora encontramo-nos com o problema que toda a gente quer ser universidade, as escolas politécnicas querem ser universidade, as instituições particulares querem ser universidade e as próprias universidades do Estado têm inúmeros departamentos que não deviam pertencer a qualquer universidade no conceito que eu tenho. O MARINHEIRO QUE FICOU EM TERRAP - Nunca hesitou na hora de escolher o seu percurso?R - Não foi uma coisa assim tão linear. Eu queria ir para a Marinha, mas fiz o exame de admissão e as provas físicas e eles descobriram que eu tinha tido uma infecção primária.P - O que é que isso queria dizer?R - Queria dizer que possivelmente teria tido um processo tuberculoso. Enfim, era daquelas doenças em que a gente não podia entrar na Marinha e portanto tive que pensar e pensei ir para engenharia. Fiz os preparatórios, fui até ao Porto à Faculdade de Engenharia e adoeci.P - É um processo recheado de atribulações...R - Sim, é um bocadinho complicado. Tive que interromper os estudos durante um ano e depois, para aproveitar economicamente as cadeiras que tinha tirado nos preparatório, abriam-se duas vias: a via da matemática e a licenciatura em ciências físico-químicas, que era muito mais trabalhosa. Mas apesar de tudo decidi-me pelo curso de físico-química, e cá está o vírus da infância a actuar... Aí tive não uma iluminação, não uma epifania, mas tive um bom professor, um físico notável espanhol, no último ano. E aí então descobri, por esse físico, que efectivamente a minha apetência era estudar física. Apesar de ter melhores notas a química. Comecei então a ter ambições académica porque para se fazer investigação naquela altura era absolutamente impossível fora da universidade. NUCLEAR SIM!P - O mundo passou a ser diferente após a descoberta do reactor nuclear.R - Os reactores nucleares foram a primeira fonte de energia importante criada pelo Homem. Há hoje uma reacção, eu julgo que dificilmente terá futuro, a menos que haja uma crise energética e ambiental evidente...P - O professor chega a falar de histerismo para classificar as reacções contra a energia nuclear...R - Há um histerismo concerteza. Veja-se quando foi de Chernobil.P - Porque é que acha que as pessoas têm um pavor tão grande a tudo o que arrasta o nome de nuclear?R - A associação com a bomba de Hiroshima e Nagasaki é evidente. E as pessoas ficam extremamente surpreendidas quando eu lhes digo que aquilo foi uma tragédia mas quem matou aquela gente e destruiu os edifícios não foram as radiações. Foi uma onda de calor, uma onda de choque. E as pessoas ficam muito espantadas...P - Mas são coisas que não se podem esquecer ou desvalorizar.R - Apesar de dolorosos, os números de cancros sólidos e de leucemias é relativamente pouco importante, da ordem dos milhares. Mas quando a gente fala em milhares de mortes como coisa pouco importante as pessoas interrogam-se.P - De qualquer forma, nessa altura ficou-se com a sensação que o Homem havia criado um monstro? Ou seja, algo que pode contribuir para a sua própria destruição maciça.R - Na verdade criou um patamar acima do qual é impensável a guerra. Pela primeira vez na História, o Homem tem consciência que tem ao seu dispor um meio que inviabiliza a própria guerra.P - Mas que usado radicalmente pode levar à destruição do planeta?R - À destruição da vida não acredito. Agora da civilização humana, isso posso acreditar.P - Não tem receio de ser um colaborador ou um entusiasta de uma ciência que pode levar à destruição da espécie humana?R - Não há exemplo de nada que você não possa utilizar maleficamente. Nada! Diga-me um qualquer e eu posso-lhe apontar imediatamente vantagens desejáveis e indesejáveis.P - Era precisamente isso que lhe queria perguntar. A medicina nuclear, área onde trabalhou, é um exemplo de como as radiações podem ser utilizadas a favor do homem.R - Aí está uma das aplicações. A utilização das radiações emitidas por certos produtos tem dois objectivos. O mais importante é no diagnóstico médico. Desde a detecção de tumores até a muitas outras doenças, e não só do foro cancerológico. A outra aplicação importante é exactamente nos efeitos biológicos que tornam tão ameaçadoras as radiações. Nós podemos controlar essas radiações no sentido de curarmos, normalmente na área da oncologia.P – Acabam por proporcionar instrumentos importantes aos médicos?R - E não só isso. Hoje não podíamos ter a biologia que temos e inaugurar uma nova revolução na história da humanidade a partir do conhecimento do genoma humano e da engenharia genética. E isso só foi e é possível através de produtos radioactivos e técnicas nucleares.P - Então porque é que essa mensagem não passa com a clareza e a objectividade que levem as pessoas a perceber? De quem é o problema: dos cientistas ou dos meios de informação?R - Nós lançamos muito as culpas uns sobre os outros. Os jornalistas dizem que os cientistas são inarticulados, que não se fazem compreender...P - Que têm uma linguagem hermética...R - Enquanto os cientistas dizem que os jornalistas explicam muito bem mas não sabem nada nem têm nada para explicar. Mas isto são acusações infundadas, a sua raiz nasce da educação. É extremamente importante que a grande massa geral da população seja educada para que os argumentos possam ser racionais e elas democraticamente tenham os instrumentos para decidirem depois de ouvirem as opiniões. E aqui existe uma responsabilidade do jornalista, como cientista social, de respeitar de os factos. P – E também do cientista em os facultar...R - Normalmente o cientista conhece os factos, mas está tão envolvido nas suas próprias actividades que por vezes esquece que faz parte de uma sociedade que tem obrigação de explicar aos outros aquilo que está a fazer. A ciência é uma aventura intelectual, mas os governos não pagam aos cientistas para eles se divertirem intelectualmente ou para se realizarem. Ainda que seja importante para o Estado que os indivíduos se realizem segundo as suas forças intelectuais, o Estado não tem exactamente aí a primeira prioridade porque senão também financiaria os artistas como financia os cientistas. E nós vemos que isso não é verdade.P - Então financiam-se os cientistas porquê?R - Porque eles criam o universo do possível para que os tecnologistas engenheiros construam para nós o universo do desejável. E o universo do desejável é uma questão política. Portanto os cientistas têm que ter na mente que muito daquilo que fazem é a revelação de possibilidades, mas que o aproveitamento dessas possibilidades pertence efectivamente aos políticos e numa democracia às pessoas interessadas. E essa mensagem não tem passado.P - Que explicação tem para esse facto?R - Ou as pessoas ainda não se deram conta do enorme poder do conhecimento científico e das aplicações, ou, se já se deram conta, não sabem como é que se hão-de desenvolver os mecanismos para que esta articulação se faça. E o jornalismo aqui é muito importante. Tão importante que a comunidade científica tem que fazer um esforço não científico para chegar a este interface. Por isso é que eu digo que não é só a venda dos jornais mas também um processo educativo. O jornalista não tem que ter ideias primárias e exigir da ciência a certeza quando os cientistas lhe dizem logo à partida que a ciência é incompleta. Agora, o cientista tem é certezas e essas certezas podem ser transmitidas. P - É por ter essa noção que aceitou ser colaborador assíduo de vários orgãos de comunicação social, nomeadamente da RTP.R - Sim. Vou citar-lhe o caso de Chernobil. Quando a notícia saiu fui convidado para ir à RTP e fui insultado...P - Pelo que sei era das poucas pessoas alheia à onda de histeria que se vivia...R - Não estava histérico e consegui transmitir - e devo dizer que dou umas palmadinhas nas minhas costas - essa imagem. Amigos meus telefonaram-me a agradecer o facto de não entrarem em pânico com as notícias. Logo a seguir, havia pessoas consideradas, algumas até estudavam radiação, que disseram que haveria nos futuros vinte anos dois milhões de mortos. P – E lá se foi o seu trabalho por água abaixo.R - As pessoas ficam efectivamente assustadas. Ainda recentemente falavam em 30 mil mortos. Quando os números da Organização Mundial de Saúde falam de 1800 casos de tumores da tiroideia, que eu posso dizer, porque aqui tenho alguma experiência pessoal e profissional, que felizmente é o tumor mais curável. E que quanto às radiações, não há leucemias nem casos evidentes de efeitos clínicos sobre as populações. Mas se você olhar para os programas em cada Abril que passa, quando se fala de Chernobil, vêem-se documentários na televisão em que se vêem animais com defeitos. Portugal recebeu jovens com leucemia que se dizia ser derivada de Chernobil. Há aqui uma distorção que tem ser denunciada.P - Mas houve mil e oitocentas pessoas atingidas directamente...R - Sim, é verdade. É pouca consolação dizermos que infelizmente o número de acidentes de automóvel em Portugal faz por ano um número superior de vítimas. Ou podia citar outros exemplos. P - É o desconhecimento que atrai o temor e a contestação quanto ao nuclear?R - O factor desconhecido foi efectivamente explorado. Há um envolvimento de grandes multinacionais. E a energia nuclear aparece muito dependente do apoio dos estados e das multinacionais. A pessoa, o pequeno cidadão, receia, e talvez com razão, a influência das grandes multinacionais. Qualquer coisa que elas façam cria imediatamente anticorpos na sociedade.P - Há pouco lamentava que os estudos de radioactividade em Portugal estejam a parar. Como vê essa situação, que decorre certamente de uma opção política?R - Foi uma opção até, se se quiser, dos próprios académicos.P - Que custos podem daí advir?R - Tem custos, concerteza. Se hoje se quer uma máquina para tirar radiografias em construções metálicas tem que se recorrer ao estrangeiro, não há ninguém que consiga fazer uma coisa que nós podíamos resolver. Mesmo do ponto de vista das aplicações médicas e da medicina nuclear, nós hoje temos uma falta de especialistas que qualquer dia somos invadidos pelos espanhóis e pelos italianos.P - Estamos a regredir nessa área?R - Essa área regrediu. Devo-lhe dizer que no Instituto Português de Oncologia, onde fui director do Laboratório de Isótopos, chegamos a ter doze, treze ou catorze físicos. Hoje temos três. OS MITOS E A REALIDADE P - Continuando na energia nuclear. Houve uma tendência para o encerramento de centrais...R - E continua a haver. P - Mas neste momento já há países a reequacionarem a sua abertura. Acha que esse vai ser o caminho e a nova tendência?R - Olhemos para a China, que tem um plano em que os reactores nucleares desempenham papel importante. A China é o maior produtor de carvão do mundo. E você sabe qual é o número de mortos nas minas de carvão na China até Junho deste ano? Cerca de 3 mil. Segundo: a poluição causada pelo carvão já começa a entrar na psique das pessoas, é o anidrido carbónico, o efeito de estufa... Enfim, há um sinal evidente, aumentou a temperatura, as consequências ainda não sabemos quais sejam, mas é prudente que comecemos a tomar medidas a sério.P - E é aí que a energia nuclear pode ter o seu lugar?R - Não sei, pode ser que sim. Talvez daqui a dez anos se saiba. Há que tomar uma decisão, pode ser que algumas das energias alternativas possam satisfazer uma parte das necessidades, mas existe sempre o problema da produção de electricidade. Se eu tiver uma frota de automóveis eléctricos eu tenho de carregar as baterias. E onde é que está a fonte dessa energia. O problema não é claro. Dentro de doze anos a energia nuclear poderá ser uma alternativa, se vencer tantas relutâncias e hábitos de pensamento e se se criar uma atmosfera onde democraticamente se possam tomar essas decisões.P - Lá voltamos ao velho problemaR - Sim, mas a alternativa nuclear não pode ser afastada com esta ligeireza que eu vejo e contra a qual temos que lutar.P - Como ?R - Continuando os estudos nas universidades, porque a energia nuclear tem muitas outras aplicações pacíficas desejáveis. Este livro de Eduardo Martinho e Jaime Oliveira procura mostrar isso. São cientistas competentes, são pessoas que estão alerta para esses problemas e é importante que as pessoas pensem que o estudo, independentemente de irmos ter ou não reactores nucleares, é importante. P - Este livro é importante nesse sentido?R - Sim, até porque vem autorizado, é um livro equilibrado, onde não se defendem ideias políticas ou sociológicas, estão a defender uma tecnologia, mostrando que tecnologia é e algumas das suas potencialidades. Se as vamos utilizar ou não, isso iremos aprender e tomar decisões. Mas é inadmissível que a propósito de um cemitério para resíduos radioactivos se fale que o vinho do Porto vai desaparecer. Assim como com Chernobil se dizia que a cultura das renas desapareceria. As renas não morreram, mas ninguém vem dizer que as renas continuam vivas. Então como é que é isto?P - Falando um pouco mais de si. Fica orgulhoso quando recebe um prémio, como já recebeu vários? R - Os prémios são acidentes de percurso. Claro que alguns são-nos dados sem nós concorrermos. Outras vezes concorremos. Portanto, se concorremos, é porque desejamos ser premiados.P - Há algum que lhe tenha agradado especialmente?R - Talvez o primeiro prémio Pfizer. Por ter sido também o primeiro que recebi, salvo erro. Também por ter sido algo desenvolvido aqui, em Lisboa. Devo dizer que a maior parte dos trabalhos que publiquei foram realizados em Portugal. Tenho alguns que realizei no estrangeiro mas devo dizer que foram concebidos em Portugal porque sempre defendi que nós quando regressássemos devíamos vir mais ricos. E que as obras devem ser feitas no país que nos pagou as bolsas, que nos deu muito dinheiro.P - Já se vê que não é um cientista mal agradecido?R - Não. A Fundação Gulbenkian foi quem financiou a minha graduação em energia nuclear, mas depois foi o Estado português, quando estive em Londres, que me permitiu adquirir os instrumentos para o primeiro laboratório de física nuclear que existiu em Portugal. Foi algo de extraordinário naquela época. Na embaixada de Portugal em Londres estranharam muito que um jovem de trinta e poucos anos tivesse ao seu dispor na embaixada um fundo. Eu comprava um equipamento e era a própria embaixada que pagava. P - Nessa altura os cientistas não tinham meios para aplicar os conhecimentos no nosso país?R - As pessoas iam estudar para o estrangeiro determinados assuntos que depois não podiam continuar porque não tinham os meios aqui em Portugal.P - Isso era desperdiçar talentos, na sua opinião?R - E não só. Também criava situações gravíssimas de pessoas inteligentes que se sentiam fracassadas e incompreendidas. Pessoas brilhantes lá fora, que quando regressavam continuavam a ser brilhantes mas não tinham nada, estavam completamente esterilizados e não tinham meios para aplicar os conhecimentos que tinham desenvolvido no exterior. Eu não quis cair nessa esparrela e, se tive alguma influência, não deixei cair alguns nessa esparrela. Hoje é irreconhecível o meio científico português se compararmos com a época em que comecei a trabalhar. Mas se compararmos com os países mais avançados, estamos extremamente carenciados. E é aqui que temos que lutar com a massa inerte, histórica... P - Vê-se que é um homem preocupado com essa situaçãoR - A mim preocupa-me muito que não se reconheça os passos que demos nos últimos vinte anos e que são importantes.P - Não é reconhecido por quem?R - Pela comunidade científica e pela própria comunidade em volta. Porque depois há distorções que só salientam este aspecto. Por exemplo: na comunicação social, quando há um trabalho português dá a impressão que rebentaram as costuras e que subitamente passamos a ter uma cultura científica com pessoas notabilíssimas. Existem pessoas notáveis mas simplesmente o conjunto das suas realizações é extremamente modesto em comparação com o das comunidades científicas mais avançadas. Mas é incomparável com que havia aqui há vinte ou vinte cinco anos. É preciso reconhecer isso para podermos avançar.CAIXA“JÁ PERDEMOS GERAÇÕES EM DEMASIA”António Manuel Baptista regressou a Almeirim numa manhã de nevoeiro, terra que já não visitava há largos meses. A única ligação à cidade que o viu nascer é uma tia de idade avançada que aproveitou para visitar nesse sábado pardacento. Da conversa que decorre num banco do Jardim da República uma característica emerge: o professor, mais que um homem de ciência e um pensador, é um desmistificador de ideias feitas e um combatente convicto da ignorância. “Transformar aquilo a que nós chamamos uma mentalidade é muito mais difícil que transportar uma massa. Exige uma outra espécie de energia. Quando somos crianças ensinam-nos à força certos valores, certas atitudes, certas espécies de comportamento. E muitas dessas coisas ficam enraizadas no nosso sistema mental. Possuímos um enorme investimento emocional e intelectual e quando estamos perante uma posição contrária somos extremamente conservadores”, diz.P - Nesta nova sociedade da informação há novos educadores. Antes, a fonte de educação estava sobretudo em casa e na escola. Hoje há os meios audiovisuais que acabam por nos condicionar também.R - Todos os outros são educadores. Eu no outro dia estava a ler um jornalista inglês a propósito do tratamento dos assuntos científicos na comunicação social e ele diz um bocadinho irritado: nós os jornalistas não temos que nos preocupar com a educação, queremos é vender os nossos jornais e as nossas revistas e aumentar o tal share da televisão. P - Já vi que não concorda com essa abordagem minimalista mas pragmática?R - A verdade é que a educação é um problema de que não nos podemos alhear. Todos estamos a educar os outros com o nosso comportamento. Uma criança que o vê a actuar de uma certa forma está a ser influenciada pelo seu comportamento, você está a educá-la. Você pode dizer que não é educador da criança... Pois é! Mas pelo seu comportamento visível está a educá-la.P - O mesmo se aplica ao jornalismo?R - O jornalismo, quer queiram quer não, e nomeadamente os novos meios, são poderosos meios de educação, de formação e reformulação de valores que as pessoas se habituaram a respeitar mas que podem ser alterados conforme os seus novos interesses, as novas condições. Isto é tudo muito complicado...P - Como é que um homem de ciência vê a sociedade de hoje, quando os grandes temas de discussão são as eleições do Benfica ou o programa televisivo Big Brother?R - Todos temos a tendência para dizer que o nosso tempo foi o melhor. Claro que todos os tempos têm os seus problemas, mas estou também convencido que o nosso tempo é um tempo especial. A aceleração tecnológica é qualquer coisa de espantoso a partir da II Guerra Mundial, que ao fim e ao resto coincide com a minha vida científica. Eu ainda fui estudar para Inglaterra com racionamento, em 1953. Foi o ano em que acabou. Eu vivi o século mais rico, talvez, da história da humanidade, do ponto de vista da aceleração tecnológica. E não sei quais serão as consequências. P - Voltando atrás. Como vê a sociedade actual?R - Sinto-me perturbado, por exemplo, relativamente à juventude portuguesa, pela incapacidade de expressão verbal da grande maioria da população e pela incapacidade crítica de projectar os seus valores naquilo que estão a fazer.P - Vê o futuro com pessimismo?R - Estamos numa charneira, possivelmente numa fase de decadência da cultura ocidental. Mas uma fase de decadência não significa estagnação. Pode ser o revigoramento para uma outra cultura. E é isso que me preocupa relativamente a Portugal. Já estamos a perder gerações em demasia. Usando a imagem do futebol, a mim o que assusta é não estarmos a preparar o grupo para a competição, para entrar nas ligas importantes. Eu não sei até onde podíamos ir, o que acho criminoso é continuarmos daqui a anos a não saber até onde podíamos ter chegado.P - Essa é uma questão que vai ficar sem resposta.R - Fica sempre sem resposta. Agora, o que não há dúvida nenhuma é que existem sinais alarmantes que se revelam numa sociedade que não discute ideias, uma sociedade que é manipulada por slogans. É um padrão ocidental, é verdade, mas existe a especificidade portuguesa que tem vertentes que são extremamente perigosas. É criminoso que não sejamos capazes de corrigir defeitos evidentes. A maioria de países está a criar uma massa, que pode vir a ser uma massa crítica, que pode arrastar os outros. Precisamos de criar esta massa crítica que leve a outra a reboque, de aproveitar todos os talentos. Mas temos que tentar.P - Sente-se privilegiado pela vida?R - Sim, sem dúvida. Mas fiz por merecer esse privilégio, embora nunca tenha ido, como nunca ninguém vai, até aos limites. E posso dizer que não tenho grandes saudades do passado. João CalhazUM CURRÍCULO IMPRESSIONANTEAntónio Manuel Baptista formou-se em Física na Faculdade de Ciências de Lisboa, onde foi professor assistente. Graduado em Energia Nuclear nos Estados Unidos, foi professor de medicina nuclear na Universidade de Michigan (Estados Unidos), professor convidado no Instituto Português de Oncologia e é professor catedrático de Física na Academia Militar.Na sua trajectória científica foi director do Laboratório de Isótopos do IPO, do Centro de Estudos de Medicina Nuclear do Instituto de Alta Cultura e do Centro de Medicina Nuclear do Instituto Nacional de Investigação Científica. Foi ainda secretário do Centro de Investigação Oncológica deste último organismo.Trabalhou em Londres no Medical Research Council, no Hammersmith Hospital, no Royal Cancer Hospital e ainda no Argonne National Laboratory (Estados Unidos). Fez parte da comissão de redacção de várias revistas científicas e foi conferencista convidado em vários congressos internacionais de medicina nuclear e biofísica.Teve programas na RTP e na TSF ligados à divulgação científica e conquistou o Prémio Imprensa em 1969 e Prémio Vídeo da Televisão em 1981. Como prémios científicos realçam-se o 1º e o 2º prémio Pfizer, dois primeiros prémios da Sociedade de Ciências Médicas dos Hospitais Civis de Lisboa; um Prémio Fernando da Fonseca de Oncologia; dois prémios Cancela de Abreu dos Hospitais Civis de Lisboa.Possui trabalhos de investigação publicados em várias revistas internacionais bem como algumas lições e livros didácticos e de divulgação científica de sua autoria.
António Manuel Baptista, de Almeirim para o mundo da ciência

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