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Maus tratos

Maus tratos

Edição de 09.06.2015 | Suplemento Saúde
Enquanto técnica de saúde mental, procuro observar, avaliar, intervir e influenciar positivamente as pessoas e/ou comunidades onde intervenho.Para isso, é necessário ser permeável à diferença, às influências externas e, necessariamente, às características das pessoas com que lido e intervenho. Todavia, numa situação específica como os maus tratos, os aspectos atrás mencionados, embora observados (para uma melhor resposta), não podem ser aceites e muito menos integrados como factores de justificação de comportamentos desajustados e reprováveis.Os maus tratos são acções e omissões onde há evidência de desrespeito pelos direitos fundamentais do ser humano. Estes actos, para além dos danos físicos, trazem consequências emocionais e psicológicas desastrosas a curto, médio e longo prazo. São inadmissíveis numa sociedade que se quer evoluída e integradora de todos os seus cidadãos com exercício dos seus plenos direitos e deveres. Quem os pratica, comete um crime e prejudica gravemente a vitima, impedindo-a de ter uma vida saudável, segura e feliz.Na maior parte das vezes, os maus tratos são praticados por pessoas que, usando de uma posição de autoridade ou de confiança, cometem intencionalmente mas também por negligência, actos de consequência danosa e gravosa a terceiros.Eles são especialmente censuráveis quando são intencionais: Ofensas físicas com recurso a agressões e/ou meio de constrangimento físico desproporcional; Sexuais: forçando o outro a prática sexual não consentida utilizando métodos de coacção física e psicológica; Por uso de medicação: dando à vítima, e sem nenhuma orientação e finalidade terapêutica, medicação com vista a mantê-la sedada e controlada; Psicológicas: utilizando todo o tipo de argumento para fazer o outro sentir-se humilhado, desfavorecido, manipulado e numa situação de desvantagem que não o permite decidir e reagir à agressão; ou Patrimoniais: onde existe apropriação quer por extorsão ou exploração, de bem alheio para usufruto ilegal.Também inaceitáveis são os maus tratos ocorridos sem intenção de fazer mal… por desconhecimento, falta de atenção, insensibilidade ao outro e às suas necessidades. Aqui também se coloca em causa o bem estar e a segurança de terceiros.O meio onde a vítima de insere pode ser determinante para a ocorrência deste fenómeno. Principalmente se for um meio pouco exigente com os seus intervenientes e indiferente às problemáticas e vivências de cada um que nele intervém.A atitude social de indignação e tomada de posição objectiva face a este fenómeno é fundamental para a dissuasão destes comportamentos. É importante que o agressor perceba que a sociedade é vigilante e cuidadora dos seus intervenientes e pune quem deles e de má fé, maltrata.Face a isto, o Estado, a sociedade, devem desacomodar-se e agir. Agir para que aquilo que acontece muitas vezes na intimidade de um lar, deixe de ser visto de forma impessoal e desinteressada… Para a vítima, mais do que a agressão reiterada ou pontual, existem as consequências, danos, sentimentos de abandono, medo, angústia, revolta, entre outros, bem como o projecto de futuro destruído. Validar os sentimentos da vítima, acompanhá-la e ajudá-la a redimensionar o(s) episódio(s) de que foi alvo é fundamental para resgatar a sua auto-estima e devolver o sentido de vida.Importa aqui considerar como é incontornável o papel do Psicólogo. Este fará uma intervenção psicoterapêutica assente na análise do fenómeno do qual a pessoa foi vítima. Ajudará a integrar o melhor possível esse(s) episódios(s) através de técnicas que permitirão o domínio emocional quando revivido estes momentos, a aceitação do que se passou, da assimilação de capacidades e “ferramentas” que permitam exprimir, sentir, actuar e ultrapassar, mesmo sofrendo e não podendo anular o que se passou.Acreditamos que a vítima nestas situações de grande fragilidade, quando devidamente apoiada, responde positivamente com padrões de comportamento que espelham a mudança, a procura do bem-estar e a melhoria da qualidade de vida a que todos temos direito. *Psicóloga do Centro Clínico SAS; Directora Lar e Repouso do Ribatejo & Residencial Lar da Minha Mãe
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