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“As pessoas querem tratar melhor dos dentes mas não têm dinheiro”

“As pessoas querem tratar melhor dos dentes mas não têm dinheiro”

Bart Limburg, médico dentista, 56 anos, Santarém

Natural da Holanda, Bart Limburg, médico dentista, abriu consultório em Santarém em 1997 e diz que não tenciona voltar ao seu país. Define-se como uma pessoa honesta, organizada, rigorosa e amiga do seu amigo. Nos tempos livres gosta de ler, passear de mota ou ocupar-se a tratar da horta onde faz agricultura biológica. Considera que a crise tem obrigado as pessoas a colocar a ida regular ao dentista no fim da lista de prioridades.

Edição de 24.06.2015 | Três Dimensões
Adoro a vida no campo. O campo é calmo, suave, agradável. Moro numa quinta na zona de Santarém com jardim e tenho uma horta grande com muitos legumes, todos biológicos. Tratar da horta é um hobby engraçado e grande parte da minha alimentação é feita à base do que planto. Gosto de recuperar motas. A primeira mota que tive, aos 15 anos, foi construída por mim. Sempre gostei muito de motorizadas e acabei por ir aprendendo a construí-las e a recuperá-las através da leitura de livros e de tentativas falhadas. Já recuperei mais de uma dezena de motas, sobretudo clássicas inglesas, e depois vendi-as. Ainda tenho uma mota guardada em casa para acabar. Qualquer dia quando me apetecer desmonto-a toda e volto a montar. Só tirei a carta quando vim para Portugal. Enquanto estudei em Amesterdão andava sempre de bicicleta porque era o meio de transporte mais rápido dentro da cidade. Morava a cerca de dez quilómetros da universidade mas conseguia chegar mais rápido do que de mota ou carro. Gosto de estar sempre ocupado. Fora do trabalho e estou sempre a ler, a trabalhar na horta, a passear. Antes também me ocupava a construir e a recuperar móveis. Sou membro do Moto Clube de Santarém e costumo encontrar-me com os meus amigos de lá para dar uns passeios de mota, mas hoje em dia não se pode andar muito depressa porque se não aparece logo uma multa em casa (risos). Fui assistente de dentista na tropa. Fiz o serviço militar obrigatório durante catorze meses e tive formação como assistente de dentista. Acabei por gostar do trabalho e quando saí da tropa decidi inscrever-me em Medicina Dentária, em Amesterdão. Gostei muito do curso porque já conhecia o que ia fazer. Na verdade, era bem melhor na prática do que nos livros, mas sempre fui bom aluno.Quando acabei o curso havia pouco trabalho na Holanda. Os meus colegas de faculdade saíram todos do país. Uns foram para a Alemanha, outros para Itália, Portugal e Espanha. Espalharam-se pelo mundo todo como está agora a acontecer com os jovens dentistas portugueses que acabam por emigrar para arranjar trabalho. Em casa dos meus pais éramos dez irmãos. Venho de uma família grande.. Vivia num bairro de uma pequena cidade, Oegstgeest, com muitas crianças e havia sempre muita brincadeira. As pessoas querem tratar melhor dos dentes mas não têm dinheiro. Penso que as pessoas estão mais informadas, mas acabam por se desleixar por dificuldades económicas. Em Portugal faz falta haver um sistema como na Holanda. Lá as crianças têm um seguro de saúde que lhes dá consultas gratuitas até aos 18 anos. Os pais, mesmo bem intencionados, precisam de ser ajudados para controlar com mais rigor a saúde dentária dos filhos.Sou muito rigoroso e organizado com o meu trabalho. Gosto de tratar os meus clientes com qualidade porque se não for assim não vale a pena. Sempre trabalhei mais por gosto do que propriamente por dinheiro. Defino-me como uma pessoa trabalhadora, honesta e amigo do seu amigo.Mudei-me para Santarém aos 30 anos. Um colega meu de curso já cá estava e eu acabei por partir à aventura e vir também para trabalhar em conjunto com ele. Escolhi Santarém porque não me apetecia viver no meio dos turistas, mas queria estar num sítio perto de Lisboa. Naquele tempo era tudo muito diferente porque havia poucos dentistas e nós tínhamos uma formação muito mais especializada que em Portugal. Abri o meu próprio consultório em 1997. O consultório que eu e o meu colega tínhamos era arrendado e eu ambicionava comprar um espaço meu. Acabei por encontrar este aqui e já cá estou há 18 anos. Antes de vir para Portugal era macrobiótico. Quando cheguei aqui há 27 anos atrás era muito difícil conseguir manter este regime. Hoje em dia é mais fácil encontrar este tipo de produtos no supermercado, mas os portugueses comem poucos legumes produzidos biologicamente. Não penso voltar para a Holanda. Sinto-me bem aqui e não vale a pena voltar. Mais tarde posso ter alguma razão que me faça mudar de vontade, mas não penso muito nisso. Costumo ir à Holanda uma vez por ano visitar a minha família e eles também me visitam cá em Portugal.
“As pessoas querem tratar melhor dos dentes mas não têm dinheiro”

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