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Um controlador aéreo que aterrou no mundo do fado

Carlos Velez toca viola há mais de 50 anos e amigos vão homenageá-lo no dia 13 de Setembro em Santarém

Músico começou a tocar na Orquestra Típica Scalabitana e acompanhou fadistas consagrados como Amália Rodrigues, Hermínia Silva, Ana Moura ou Camané. Nunca se quis profissionalizar porque considera que seria difícil viver só da música.

Carlos Velez toca viola há mais de meio século e, apesar de nunca se ter profissionalizado, por opção, já acompanhou grandes nomes do fado de várias gerações como Amália Rodrigues, Hermínia Silva, Nuno da Câmara Pereira, Maria da Fé, Cidália Moreira, Ana Moura, Joana Amendoeira, Teresa Tapadas, Camané, entre muitos outros. Alguns dos melhores músicos também deram os primeiros passos no mundo do fado ao seu lado. Custódio Castelo, Pedro Amendoeira, Cajé e Raimundo Seixas são apenas alguns dos guitarristas que começaram ao lado de Carlos Velez. Aos 78 anos, os amigos do músico decidiram homenageá-lo com um encontro em Santarém, cidade onde reside, em que não vai faltar muita música e algumas das grandes vozes nacionais (ver caixa).Conheceu Amália Rodrigues por acaso, através de amigos comuns. Frequentava a sua casa em Lisboa uma vez que a fadista, na véspera dos espectáculos, reunia os amigos para descontrair da ansiedade dos concertos. “Ela gostava de falar comigo e eu gostava de trabalhar com ela. Era uma simpatia, muito simples e falava muito bem”, recorda. Integrou também o grupo musical de Santarém “Os Marialvas”, que tocavam em todo o lado. “O nosso cachê era um queijinho e um vinho. Não precisávamos de mais nada”, conta.Controlador aéreo de profissão, Carlos Velez confessa que aprendeu a tocar sozinho. Começou a tocar viola por acaso. Tinha 26 anos quando experimentou pela primeira vez. A sua profissão era stressante e sentiu necessidade de descomprimir da exigência do trabalho que passava por dar as coordenadas aos aviões que circulavam no ar de modo a não colidirem. Nada podia falhar. Quando o convidaram para integrar a Orquestra Típica Scalabitana (OTS) aceitou e a viola pareceu-lhe o instrumento mais acessível. “Tenho jeito para tocar mas nunca treino. Peço ao fadista para cantar e apanho o tom de ouvido”, conta bem-disposto.Além da OTS tocava para amigos. Muitas vezes ia para a Nazaré, onde tinha casa, e juntava-se nos parques de campismo com cantoras amadoras francesas e portuguesas e cantavam. Antes de enveredar pelo fado - que na juventude nem gostava muito - fez parte de uma banda, a Xaranga Big, “muito famosa” na zona de Leiria. Adorava Frank Sinatra e chegou a tocar Dire Straits. Só mais tarde se virou para o fado e nunca mais o largou.Sempre conciliou a música com a sua profissão e nunca quis fazer da música a sua principal actividade. E hoje aconselha os seus colegas e amigos a não se profissionalizarem. “Não compensa viver só da música. Existem muitos músicos e muita oferta e não é fácil manter uma carreira estável e que nos permita viver só da música. É preferível conciliar as duas coisas”, considera. Conheceu o mundo inteiro graças ao fadoCarlos Velez nasceu a 18 de Dezembro de 1937 em Lisboa mas vive em Santarém desde a juventude. Esteve na guerra colonial, em Angola e na Guiné, durante três anos. Quando regressou foi trabalhar para a Base Aérea de Monte Real, em Leiria. Mais tarde trabalhou no aeroporto de Orly, em França. Está casado há 50 anos, tem três filhos, duas netas e um neto. A sua vida foi feita de viagens. O fado permitiu-lhe conhecer o mundo inteiro e adora viajar. Simpático e de sorriso fácil confessa que sempre foi aventureiro. Uma vez saiu da sua casa de praia na Nazaré e foi até Istambul (Turquia). “A viagem não foi cara porque lá o combustível é muito barato”, conta.Está sempre a contar piadas e não dispensa um cigarro enquanto conversa. Continua a tocar mas já não com tanta frequência como há alguns anos. Gostava de saber tocar jazz. Nunca deu importância à carreira no mundo da música. Sempre tocou apenas pelo prazer que lhe dá. Ficou surpreendido que a homenagem que os amigos lhe resolveram fazer mas gostou que se tivessem lembrado dele. “Estou na fase decrescente e sabe sempre bem ver o nosso trabalho reconhecido”, afirma.Diz que o fado já tinha notoriedade no tempo de Amália Rodrigues mas ganhou novo impulso com esta nova vaga de fadistas e com a fusão com músicas de todo o mundo. “O fado modernizou-se e isso é muito positivo”, conclui.Homenagem com muita músicaDora Maria, António Figueiredo, Isabel Mata, Elvira Roldão, Francisco Pedro, Joaquim Júlio, Joana Costa, Sofia Calado, Jorge Pinheiro, Deolinda Bernardo, Lurdes Gandaio, Dina Mendonça, Viviane Lima e Rosa de Jesus são algumas das vozes que participam na homenagem a Carlos Velez que se realiza no domingo, 13 de Setembro, no restaurante Ponte D’Asseca, na Estrada Nacional 3, entre Santarém e o Vale de Santarém. A concentração para a homenagem está marcada para as 11h00, no Largo do Município, em Santarém. Os músicos Luís Grácio, Paulo Leitão, José Bacalhau, João Chora, Irmãos Capitolinos entre outros, também vão participar na festa.

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