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Um conquistador de montanhas que já pisca o olho ao topo do Evereste
foto DR Fernando Ferreira é um apaixonado pela natureza e uma referência no montanhismo nacional

Um conquistador de montanhas que já pisca o olho ao topo do Evereste

Professor de Alverca já escalou 42 montanhas do planeta. Fernando Ferreira é um apaixonado pelo desporto e por subir montanhas. Professor de educação física, todos os anos leva os seus alunos a praticar montanhismo. O pico mais alto que conquistou foi o Muztagh Ata, na China, com 7.509 metros. Se reunir apoios suficientes espera conquistar o Evereste, a montanha mais alta do mundo.

Edição de 18.09.2019 | Identidade Profissional

A vida é como uma grande montanha onde todos os dias é preciso dar o melhor de nós para superar os obstáculos e conseguir encontrar a força necessária para vencer. Essa é a perspectiva que Fernando Ferreira incute a si próprio e a quem o rodeia sempre que se prepara para atacar mais um cume. É considerado um dos nomes grandes do montanhismo nacional e leva sempre consigo na camisola o concelho de Vila Franca de Xira.
Nasceu em Alverca, cidade onde é professor de educação física, na Escola Secundária Gago Coutinho. Tem 56 anos, 42 montanhas escaladas no currículo e o sonho de começar a atacar os cumes das montanhas mais altas do mundo, a começar pelo Evereste, a montanha rainha, com um pico a 8.848 metros.
Fernando Ferreira sobe as montanhas sem recurso a oxigénio artificial, numa técnica denominada himalaísmo. Sempre gostou de actividade física e em pequeno trepava às árvores sonhando carreira no desporto. “Não me via no futuro estar enfiado num escritório rodeado de papéis”, conta a O MIRANTE.
O seu primeiro emprego foi nas vindimas, para ganhar algum dinheiro para viajar: o pai trabalhava na TAP e com isso tinha direito a duas viagens por ano à borla. Aos 13 anos aventurou-se para a Madeira. E nunca mais parou. Nas suas turmas tenta promover o contacto dos alunos com a natureza e todos os anos leva alunos a explorar e a conhecer a serra de Sintra, Gerês ou a Serra da Estrela, onde está o Cântaro Magro (1.928 metros), o local mais icónico do montanhismo em Portugal.
“O entusiasmo dos jovens em praticar actividade física cada vez é menor, eles têm hoje muitas solicitações que os desviam do exercício. É preciso incutir neles a ideia de que o desporto é uma forma de bem-estar. É por isso que os levo a fazer montanhismo. As árvores que encontram no meio dos prédios não são natureza selvagem”, defende.

“É importante ter medo na montanha”
Fernando Ferreira é creditado como tendo sido o primeiro português a conquistar o cume do Cotopaxi no Equador, que tem cume a 5.897 metros. Já escalou montanhas de todos os tamanhos em diversos continentes e países, dos Picos da Europa aos Pirenéus, Monte Branco, Alpes, Rússia, China, Argentina, Peru, Nepal e Marrocos, sendo a mais alta do seu currículo o Muztagh Ata, na China, com 7.509 metros. A sua primeira ascensão foi em 1992 no Pic D’Anie, nos Pirenéus, que tem 2.504 metros. Desde então todos os anos tem escalado diversas montanhas do mundo. “Às vezes tenho medo e é bom sentir medo. O medo ajuda a aumentar a nossa concentração e atenção. O que conta é a forma como lidamos com ele. Fascina-me na montanha o desafio de estarmos entregues a nós próprios, lidar com uma série de variáveis, condição física, solidão, gosto do reencontro comigo mesmo, e o respeito pela natureza e pela montanha. Ali não há filtros, percebemos o quanto somos pequenos neste mundo e encontramos o nosso lugar”, refere.
Vai quase sempre sozinho, nunca esteve à beira da morte mas já a viu de perto noutros que encontrou pelo caminho. Já ajudou a resgatar alpinistas da morte certa, como aconteceu na sua ascensão do Chimborazo, no Equador. “À medida que subimos o esforço é maior e o oxigénio é menor. A alimentação é pior, derreter água é cada vez mais difícil, dormimos pior, mais frio (-30 graus). É tudo a piorar até lá acima”, revela.

Estar a 200 metros do cume e voltar para trás
Chegar ao cume é apenas metade da montanha e mais importante que a subida é sempre a descida, conta Fernando Ferreira. No topo sente-se alegria, euforia, adrenalina que por vezes, associada à falta de oxigénio, leva a que alguma preparação e segurança sejam descuradas.
Nas montanhas os erros e as facilidades pagam-se caro, como se provou na trágica subida de João Garcia, o primeiro português a subir ao Evereste, que por causa de um conjunto de erros sofreu amputações fortes e viu morrer o colega de escalada. Fernando Ferreira chegou a partilhar com Garcia algumas expedições.
“Todos somos supersticiosos. Dou muita importância à intuição. Se algo não me parecer correcto não subo. Não devemos avançar de ânimo leve. Se uma intuição negativa se prolonga é bom levá-la a sério. Já houve montanhas a mandarem-me para trás. O mais importante do montanhismo é parar a tempo e horas, a montanha continua lá, nós é que podemos não ficar vivos para voltar a tentar subi-la”, explica.
Fernando Ferreira já esteve a 200 metros de cumes que teve de abandonar e voltar para trás. É a decisão mais difícil. O seu sonho é continuar a escalar montanhas e a contactar com a natureza. Sonha alcançar alguns cumes das montanhas mais altas do mundo, com mais de oito mil metros, mas aí os custos financeiros associados são astronómicos.
Subir ao Evereste, por exemplo, pode rondar os 30 mil euros e não se pode subir sem autorização governamental. “Todas as montanhas me cativam mas o Evereste é o meu fetiche. Já estive no sopé mas nunca subi por não ter dinheiro para a autorização de escalada”, confessa. Vê com preocupação o excesso de turistas naquela montanha e os impactos que estão a causar na zona.

Um conquistador de montanhas que já pisca o olho ao topo do Evereste

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