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Mais do que rebeldia os piercings são uma forma de afirmação
Marta Capela, Maksym Yakupbchyk e Ana Rita

Mais do que rebeldia os piercings são uma forma de afirmação

O que têm em comum Marta Capela, de Samora Correia, Maksym Yakupbchyk, de Rio Maior, e Ana Rita, de Torres Novas? O gosto pelos piercings e pelas tatuagens e o sentirem-se pouco incomodados com as opiniões alheias. Para estes jovens personalizar o corpo é uma forma de libertação pessoal. Apesar de os fazerem por cultivo de uma imagem referem que a aparência não é tudo e que para os conhecer verdadeiramente é preciso ir além do aspecto físico.

Edição de 05.08.2020 | Sociedade

Tudo começou com um piercing no umbigo. Aos 25 anos, oito depois do primeiro, Marta Capela tem seis piercings no corpo e dois alargadores nas orelhas. Tatuagens são mais de duas dezenas, mas essas ficam fora da conversa que surge a propósito do Dia Mundial do Piercing que se assinalou a 28 de Junho.
Tatuadora de profissão na Old Cat Tatoo, em Samora Correia, Marta é adepta das modificações corporais e afirma que isso nada tem a ver com rebeldia. Tudo se resume a uma questão de gosto e de auto-estima. “Furo todas as partes que menos gosto no meu corpo, por isso é que tenho dois piercings no nariz. O que tenho no mamilo, por exemplo, melhorou muito a minha auto-estima”, diz a O MIRANTE, confessando que este foi o que doeu mais e o da língua o que mais demorou a sarar.
Pouco incomodada com opiniões alheias, a tatuadora diz que o melhor remédio para quem a possa olhar de lado por causa da aparência é agir com naturalidade e recordar-lhes que para se fazer juízos de valor sobre uma pessoa não basta olhá-la. “Mas a sociedade está a aceitar melhor” as modificações corporais e quem as faz sente cada vez menos necessidade de as esconder por receio de ser alvo de exclusão social.
Se recuarmos no tempo, os piercings eram mais coloridos e, consequentemente, davam mais nas vistas. Actualmente usam-se os piercings de metal, o mais básicos e neutros possível. Um dos que mais tem conquistado novos adeptos é o piercing do septo, mas é também “o que mais choca as pessoas”. Modas à parte, Marta garante que não vai parar por aqui no que toca a furar o corpo. Não sabe onde fará o próximo, nem quando. A única certeza é de que não será no sobrolho. “Não me identifico. Mais facilmente faria nos genitais, mas tenho algum receio”, diz. “Tento controlar-me para não chegar aos 70 anos com o corpo cheio de piercings”.

Piercing no pénis não incomoda no acto sexual
Maksym Yakupbchyk já perdeu a conta ao número de piercings que tem no corpo. Vários em ambas as orelhas, incluindo dois alargadores, um na pele entre os olhos, dois nos mamilos e um no pénis. Já teve dois na língua mas retirou porque sentiu que lhe estavam a prejudicar os dentes. Também retirou outro que tinha na sobrancelha. Confessa que de vez em quando retira o piercing que tem no pénis quando a pele está mais sensível. Mas garante que não incomoda no acto sexual, pelo contrário, aumenta o prazer, a si e à parceira.
Maksym nasceu na Ucrânia há 26 anos. Vive há dez anos em Rio Maior, onde o pai já trabalhava há algum tempo. Actualmente trabalha numa loja em Lisboa, onde é tatuador. Apaixonado por tatuagens, tem várias no corpo. Inicialmente, não ligava muito a piercings. Via-os no irmão mais velho e não gostava. No entanto, a mãe gostava e o primeiro piercing que Maksym colocou foi com a mãe. Depois uma amiga ofereceu-lhe dois e foi assim que foi acrescentando piercings ao seu corpo e já não se imagina sem eles.
Em termos de dor, tal como para Marta Capela, os piercings nos mamilos foram os que mais lhe custaram. Ainda assim não aconselha quem o queira fazer a recorrer a anestesia. “É uma zona muito sensível e se fizermos com anestesia o mamilo fica muito duro e a recuperação custa mais. Sem anestesia é mais rápido, a dor é imediata e depois passa”, conta.
Como também tem uma grande tatuagem no pescoço está habituado a dar nas vistas. Desvaloriza, mas já foi obrigado a retirar os piercings quando estagiou numa empresa em Rio Maior. “O responsável da empresa disse-me que não tinha nada contra, mas como iria estar no atendimento ao público as pessoas poderiam não gostar”. Foram dois meses sem piercings, mas assim que terminou o estágio voltou a colocá-los.

O sorriso deve ser intacto
Ana Rita, 28 anos, tem 12 piercings, seis em cada uma das orelhas. Todos os anos coloca um novo. A tendência é para continuar a fazê-lo e ir aumentando o seu tamanho e espessura. “É uma forma de me sentir livre. Sinto que posso fazer o que quero com o meu corpo, sem ninguém ter nada a ver com isso”, afirma com convicção.
Ana Rita nasceu e vive em Torres Novas. Depois de concluir o mestrado em Arquitectura trabalhou na Câmara de Alcanena durante cerca de um ano. Em 2015, para ser fiel à sua paixão, montou um estúdio de tatuagens (A.R. Tatoo) no centro da cidade. A jovem olha para a vida de uma forma descomplexada. Para além dos piercings já tatuou uma boa parte do corpo e há cinco anos começou a pintar o cabelo de azul. “Prefiro que reparem em mim por ser diferente, do que por ser igual a toda a gente”, desabafa, embora considere que as pessoas têm hoje uma mentalidade mais aberta para lidar com a diferença.
Por respeito à mãe, que não a autorizou a fazer um piercing na língua quando era menor de idade, nunca se aventurou a enfeitar outras partes do corpo. Ana Rita considera o sorriso um atributo que deve ser mantido intacto e, por isso, nunca lhe deu para fazer um piercing no lábio ou no rosto, por exemplo.
A única vez que foi obrigada a retirar os piercings coincidiu com o dia do nascimento da filha, agora com dois anos. A liberdade que cultiva é a liberdade que lhe quer dar mas, assegura, com conta, peso e medida. “É importante fazer pedagogia com os filhos e ensiná-los a fazer escolhas de uma forma responsável e sensata, sem nunca os obrigar a nada”.

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