
Uma ida ao teatro em tempo de pandemia com o grupo Fatias de Cá
O MIRANTE foi assistir à peça Os Relvas, da Companhia de Teatro Fatias de Cá. O espectáculo realizou-se na Destilaria da Brogueira e contou com a presença de três dezenas de espectadores que foram parte integrante da sessão.
O Grupo de Teatro Fatias de Cá está de regresso aos palcos com a peça Os Relvas, um drama baseado no romance Barranco de Cegos, de Alves Redol. Todos os domingos, às 16h16, as portas da Destilaria da Brogueira, concelho de Torres Novas, abrem-se para assistir a um espectáculo composto por 15 actores, e que coloca também o público como elemento fundamental da acção.
O MIRANTE foi ao teatro, em tempo de pandemia, com mais três dezenas de espectadores para assistir a três horas repletas de dinâmica, uma vez que são poucas as vezes que a plateia se senta para apreciar o espectáculo. As cenas decorrem em cinco salas diferentes, com os cenários a condizerem com a época e as pessoas que pretende retratar. O público vai mudando de sala para sala, acompanhado por um elemento da companhia, e aproveita o caminho para ir comentando e tirando conclusões sobre o que está a assistir.
Carlos Carvalheiro encena, como é habitual no Fatias de Cá, e é protagonista como Diogo Relvas. O argumento da obra retrata a família Relvas, senhora de vastas propriedades de lavoura e de vastas gentes no Ribatejo. A história é rica em quezílias familiares, romances proibidos e intrigas contra a indústria, numa época em que se deu o regicídio e, consequentemente, a implantação da República Portuguesa.
A meio do espectáculo, o público tem direito a uma refeição composta por bacalhau desfiado e broa de milho, acompanhados por vinho, água ou limonada. O manjar é servido pelos próprios actores, que atenciosamente percorrem as mesas e procuram saber se as pessoas estão a gostar do que vêem.
A segunda parte do teatro é a mais emocionante. Há sons de tiros (que assustam grande parte da plateia), chicotes, sangue a fingir e mortes. Nessa altura ninguém quer ver o cair do pano. Mas ele cai, não sem antes se assistir a um pequeno filme, a “Parada Agrícola”, que também tem os actores como protagonistas, entre outras colaborações, nomeadamente do Rancho Folclórico de Liteiros “Os Ceifeiros”, as concertinas da Barrenta, os Forcados de Tomar e o Manjar dos Templários.
Três horas de convívio e emoção chegam ao fim com os aplausos de pé das três dezenas de pessoas que, sorridentes, agradecem ao Fatias de Cá uma tarde de domingo diferente do que este “novo normal” as tem habituado.
Um grupo de teatro que faz a diferença na região
O Grupo de Teatro Fatias de Cá enquadra cerca de 150 membros, profissionais e amadores. A companhia, fundada e dirigida por Carlos Carvalheiro, celebrizou-se por actuar em cenários como o Convento de Cristo, o Castelo de Almourol, o Mosteiro de Santa Clara a Velha, o Palácio Marquês de Fronteira, em Lisboa, entre outros. Todas as peças da companhia têm uma particularidade que merece ser enaltecida. O público é parte integrante dos espectáculos e procura-se que viva uma experiência diferente em cada um deles. N’Os Relvas o simples facto de a obra ser encenada numa antiga destilaria já merece o valor pago pelo bilhete. Um espaço onde o figo preto de Torres Novas, depois de seco, era transformado em álcool, é agora um sítio único e de singular beleza, muito propício aos devaneios teatrais que ali acontecem.
