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Doentes de Covid-19 contam experiências de medo e desespero
Só ao fim de 74 dias e oito testes, Marco Modesto pôde abraçar a família. António Pereira sentia-se um leproso de quem todos fugiam

Doentes de Covid-19 contam experiências de medo e desespero

Recuperados da Covid-19 dizem que o tempo em isolamento foi o que mais custou . António Pereira e Marco Modesto foram infectados pelo novo coronavírus numa altura em que a pandemia de Covid-19 dava os primeiros passos por cá. Os sintomas desapareceram, mas o desespero do tempo que passaram isolados ficou na memória. “Sentia que estava a viver no tempo em que os leprosos eram deixados em cavernas”, conta o padre Pereira.

Edição de 02.12.2020 | Sociedade

Marco Modesto esteve 74 dias fechado num quarto por causa da Covid-19. O oleiro, de 44 anos, residente em Castanheira do Ribatejo, está recuperado desde Julho. Os seus pais enfrentam agora a doença que virou o país e o mundo do avesso. Em Fátima, o padre António Pereira, de 77 anos, foi um dos primeiros casos diagnosticados em Portugal, numa altura em que o uso de máscara não era obrigatório e o coronavírus parecia uma ameaça distante. Após mês e meio de isolamento domiciliário, muitas dores e sete quilos a menos, recuperou a saúde e a liberdade. Dois casos que fazem parte do único valor animador (o de recuperados) dos relatórios da Direcção-Geral de Saúde (DGS) sobre a evolução da pandemia e que relatam a O MIRANTE como foi viver com o vírus.
“A minha história com a Covid começou com uma dor de dentes e ao notar que a pasta dentífrica não tinha sabor. Imaginei que a falta de paladar pudesse ser do vírus, pelo que ouvia nas notícias”, conta Marco Modesto que no próprio dia ligou para a Linha SNS 24 e já não foi trabalhar. Um dia depois fez o teste. Estava positivo. “Reagi muito mal, não queria acreditar”, conta.
Rita Pereira tem a data de cada teste do marido gravada na memória. Foram oito, no total. A 27 de Abril foi quando testou positivo pela primeira vez, mas já uma semana antes, Marco tinha sentido ligeiras dores no corpo. A 15 de Julho teve o primeiro teste negativo, mas só o segundo, realizado dois dias depois, é que o libertou do isolamento domiciliário.
O quarto de Lara, a filha mais nova, de três anos, foi o escolhido para Marco Modesto cumprir o pesadelo do isolamento. “Estive 74 dias fechado num quarto e isso foi o que custou mais. Via as minhas filhas quando abria a porta para a Rita me deixar as refeições, depois voltava a trancá-la”, recorda.

“Nem queria acreditar que estava curado”
Os dias eram passados sentado na cama, a ver televisão ou a olhar pela janela. No último mês já não despia o pijama e as noites eram passadas em claro. O silêncio nocturno atormentava-o e foram várias as vezes em que pensou quebrar o isolamento. Nunca o fez, “pelo bem de todos”. Saídas à rua, só dentro do carro, sozinho e quando era dia de fazer novo teste.
Do lado de fora do quarto a vida da família Modesto continuava dentro da normalidade possível. “Havia muito medo, apesar de todos os cuidados que tínhamos”, confessa Rita Pereira, que utilizava loiça específica só para as refeições do marido e punha a roupa a lavar a 90 graus. “Quando ficou livre do vírus, deitámos fora tudo o que usou”, diz, confessando que mesmo depois de dois testes negativos, nos primeiros dias teve medo de se aproximar do marido. Mariana, a filha do meio, esqueceu o medo, no segundo em que o pai abriu a porta para a liberdade. “Abraçámo-nos e chorámos os dois. Nunca me vou esquecer desse momento, nem queria acreditar que estava curado”, recorda Marco.

“Fugiam de mim como o diabo da cruz”
António Pereira não tem certezas de como poderá ter contraído o vírus. Provavelmente foi durante uma viagem, em Março, a Israel onde andou protegido com máscara, mas contactou com muita gente. “Também pode ter sido na viagem de regresso, no aeroporto em Madrid”, sustenta.
Também no seu caso foi a falta de paladar a dar o primeiro sinal de alerta. “Depois veio a tosse e os desmaios”, conta. A 16 de Março recebeu a notícia: “Estava positivo e cheio de medo, a pensar que ia morrer deste vírus”. Nunca chegou a estar internado, mas a febre e as dores de estômago e intestino desregulado atiraram-no para a cama. “Telefonavam-me da Saúde para saber como estava. Nunca me faltou assistência, mas preferi aguentar e curar-me em casa”, revela.
Confirmado o diagnóstico fechou-se no quarto da residência que partilha com outros missionários Monfortinos. “Não via ninguém. Fugiam de mim como o diabo foge da cruz. Sentia que estava a viver uma passagem bíblica, no tempo em que os leprosos eram deixados em cavernas a viver longe de tudo e todos”, conta. Se rezava? “Nem pensava nisso”.
As dores não o deixavam dormir à noite, mas “o pior de tudo foi o isolamento e sentir que as pessoas tinham medo e era visto como uma ameaça”. Por ter sido toda a vida uma pessoa saudável e que pratica desporto regularmente, tendo inclusive sido federado em futebol durante mais de 20 anos, nunca pensou que fosse apanhar o vírus.

Mesmo recuperados todos os cuidados são poucos

Livre da doença, Marco Modesto continua a ter os mesmos cuidados e, embora oiça dizer que por já ter estado infectado poderá ter maior imunidade à doença, não se descuida. “Ando sempre com medo. Sei de casos que já ficaram infectados uma segunda vez e, por isso, não arrisco. Não quero voltar a ter de viver naquele quarto”, diz Marco, que continua a lavar as mãos e a tirar a roupa e os sapatos sempre que entra em casa.
António Pereira gosta de pensar que ganhou alguma resistência. “Sinto-me uma pessoa livre e fora de perigo”, diz a O MIRANTE, embora continue a resguardar-se e a proteger-se com máscara e frequente lavagem e desinfecção das mãos. “Na missa também tomámos as devidas protecções. Não corremos perigo lá, embora haja menos afluência”, adianta, notando que “curiosamente os mais novos deixaram de ir e os idosos continuam a aparecer”.
Portugal começou recentemente a estudar as sequelas em doentes com Covid-19 recuperados, mas afirma a DGS, ainda é demasiado cedo para conclusões. A partir destes dois testemunhos, aparentemente, não há para já outras complicações que tenham surgido após a estadia do vírus no organismo, à excepção da perda de peso, no caso de António Pereira e da perda de massa muscular no corpo de Marco Modesto devido aos meses que passou entre quatro paredes.
“Ainda estou a recuperar. Quando saí do quarto parecia que não sabia andar e cansava-me com muita facilidade. Agora com a rotina estou a voltar ao normal”. Mas para o país e o mundo voltarem ao seu normal, acrescenta, Marco, “ainda falta conhecer melhor este vírus”.

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