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Mortes por AVC são um verdadeiro flagelo nacional 
Jorge Guardado é coordenador da Unidade de Hemodinâmica e Intervenção Cardiovascular no Hospital de Leiria

Mortes por AVC são um verdadeiro flagelo nacional 

O Acidente Vascular Cerebral mata mais de 10 mil pessoas, por ano, em Portugal e os pacientes de doenças cardiovasculares não têm no distrito de Santarém uma resposta célere. Numa altura em que o receio de contrair a Covid-19 tem levado ao afastamento dos doentes coronários das consultas de rotina, o médico Jorge Guardado mostra-se crítico do modelo de funcionamento do SNS e fala da ameaça que paira sobre a formação de novos cardiologistas.

Edição de 02.12.2020 | Sociedade


Apesar do Serviço Nacional de Saúde (SNS), em Portugal, ser dos melhores a nível mundial, teria margem para melhorar se “houvesse capacidade de repensar seriamente o seu modelo de funcionamento”. A afirmação é de Jorge Guardado, médico especialista em cardiologia com clínica em Riachos, Torres Novas, e coordenador da Unidade de Hemodinâmica e Intervenção Cardiovascular no Hospital de Leiria.
Jorge Guardado reitera que o distrito de Santarém continua altamente deficitário na resposta aos pacientes de doenças cardiovasculares, onde se incluem o Acidente Vascular Cerebral (AVC) e o ataque cardíaco. “Continuamos sem nenhuma Unidade de Hemodinâmica com Cardiologia de Intervenção no distrito e por isso não conseguimos realizar angioplastias nos doentes coronários, o que assume uma particular incapacidade no tratamento dos doentes com enfarte agudo do miocárdio na nossa região, que tem mais de 400 mil habitantes”, justifica.
As melhores respostas estão no Centro de Cardiologia de Intervenção de Leiria, para a região do Médio Tejo, e nos Centros de Cardiologia de Intervenção de Lisboa, para a Lezíria e Vale do Tejo. Desde que disponíveis, estas parecem ser as melhores opções em função da distância e tempo uma vez que cada minuto conta para o doente com enfarte agudo do miocárdio.
É nesses centros que o doente pode ter o seu coração revascularizado [abrir a(s) artéria(s) coronárias que estão bloqueadas] no melhor tempo para o seu caso em particular. A gestão do processo de escolha do centro de tratamento e o transporte até ele cabe ao Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM), através do Centro de Orientação de Doentes Urgentes (CODU), após activação do 112 e da Via Verde Coronária.
Os síndromes coronários agudos mais graves têm indicação para serem submetidos a cateterismo emergente e angioplastia em menos de 90 minutos, idealmente em menos de 60 minutos após o diagnóstico clínico e electrocardiograma.

O AVC não instiga tanto medo como a Covid-19
O AVC é a primeira causa de morte em Portugal, com cerca de 11 mil óbitos anuais, o que corresponde a 10% da estatística de mortalidade no país. “Um verdadeiro flagelo nacional”, considera o cardiologista. Apesar da crescente mortalidade provocada pela pandemia de Covid-19, as mortes causadas pelo novo coronavírus estão actualmente a rondar os três milhares e podem vir a atingir, ainda este ano, números mais elevados, mas não deverão ser superiores a um terço daquelas provocadas pelo AVC. Contudo, o AVC não instiga tanto medo aos portugueses como a Covid-19.
A razão, explica o especialista, reside no facto de se tratar de uma doença infecciosa com elevado risco de contágio pelo contacto pessoal, com consequências para a forma como vivemos em sociedade, no trabalho, na família, nos afazeres e no lazer. Outros aspectos a considerar são o impacto que tem sobre a capacidade de resposta do SNS e a relevância que tem assumido na comunicação e redes sociais assim como no momento político actual.
O receio de contrair a Covid-19 tem levado ao afastamento dos doentes das consultas de rotina e há sinais de AVC que estão a ser negligenciados. “Há a ideia generalizada na população que além do risco de serem contaminados podem não ter ao alcance as condições e, no tempo adequado, o melhor tratamento para o seu caso”, refere Jorge Guardado, acrescentando que, “até prova em contrário, a Via Verde do AVC mantém-se a melhor estratégia de auxílio aos doentes com suspeita de AVC e deve sempre ser accionada nestes casos”.
Não havendo, para já, dados objectivos de que as restrições provocadas pela Covid tenham aumentado o tempo de resposta, o especialista admite que não seria nenhuma surpresa se a análise dos dados da Via Verde do AVC, desde Março 2020, viesse nesse sentido.
“A necessidade de testar os doentes para a Covid-19, a implementação de planos de contingência dentro dos hospitais, a protecção individual dos profissionais de saúde com equipamentos adequados e a alocação de cada vez mais recursos humanos e logísticos ao combate da pandemia, coloca em risco a capacidade do SNS em responder com a mesma performance que tinha antes de Março 2020 às vítimas de AVC”, remata.

A incapacidade do SNS em fixar médicos

De acordo com Jorge Guardado as vagas nos cursos de Medicina são decididas entre as universidades e os ministérios da Educação e da Saúde. “Os médicos, ao contrário do que se pensa, não fazem aqui nenhuma espécie de lobby”, assegura. A questão, garante, é de outra ordem e começa pela capacidade das universidades em conseguirem formar mais e com qualidade. Agrava-se depois na formação pós-graduada e da especialidade e culmina com “a forte incapacidade do SNS em fixar os médicos, sobretudo depois da especialização”.
O médico lembra que a formação dos novos cardiologistas pode estar ameaçada, não tanto pelo seu número, mas sobretudo pelo seu acesso e posterior experiência em áreas mais diferenciadas da cardiologia, “uma vez que o desinvestimento do SNS na última década tem vindo a afastar os cardiologistas com experiência e que poderiam assumir a formação, centrando-se cada vez mais na inovação e na tecnologia, deixando cada vez menos ‘espaço’ aos jovens internos e cardiologistas”.

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